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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

JOÃO CARLOS ROSA: O FLORESCER DO POETA

 

JOÃO CARLOS ROSA: 
O FLORESCER DO POETA




SÉRIE: TEMPOS DE OURO DA LITERATURA MUTUENSE – I
 
“Há no poetizar deste autor a singeleza da fé nascida dos percalços e da contemplação do viver”

Trecho do prefácio do livro Uma vida de poemas, 
por Cláudio Antonio Mendes.
 
João Carlos Rosa nasceu em 23 de junho de 1960, casado, pai de cinco filhos, morador da comunidade Barra Longa desde nove anos de idade. Nasceu em Cabeceira de Laginha de Mutum, registrado em Centenário. É presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Mutum. Teve seu primeiro livro publicado pela Lei Federal nº 14.017/2020, denominada Lei Aldir Blanc, Uma vida de poemas.
 
A lida poética de João Carlos Rosa vem da adolescência. Seus poemas não estão presos a um tema específico. O cotidiano no meio rural, a militância pastoral e social e os sentimentos de afetos e amor se misturam e pautam o seu lazer/labor na escrita criativa.
 
Em entrevista concedida no mês de setembro de 2022, ele fala do seu trabalho literário.
 
MUTUM CULTURAL: Como é seu o hábito de leitura?
JOÃO CARLOS ROSA: Sempre gostei de ler e escrever. Escrevo desde os meus 15 anos. Alguns escritos já se perderam.
 
MUTUM CULTURAL: Fale sobre o seu processo de escrita?
JOÃO CARLOS ROSA: Escrevi mais poemas, mas também escrevia peças de teatro para o grupo de jovens. A inspiração é uma coisa interessante.  Às vezes uma frase, uma palavra surge e desencadeia o processo.
 
MUTUM CULTURAL: Você pretende produzir textos em prosa, como crônicas e contos?
JOÃO CARLOS ROSA: Sim, penso em produzir prosas. Tenho alguns causos que gostaria de contar por escrito. Tenho que ler mais prosa para me aprimorar nesta forma de narrativa.
 
MUTUM CULTURAL: Você participou da Lei Aldir Blanc. Qual foi a sensação quando recebeu a informação da possibilidade de ter seu primeiro livro publicado? Comente sobre Uma vida em poemas:
JOÃO CARLOS ROSA: Assustou de início. Não esperava ser contemplado. Foi um sonho que se realizou. De repente ver seu livro impresso foi muito bom. Foi como se fosse um sexto filho. Eu selecionei para o livro os poemas que foram mais fáceis de encontrar. Coloquei o poema Pedaços, publicado no jornal Desperta Povo na década de noventa, mas acabou ficando de fora. O livro se limitava a cem páginas no máximo. A foto na capa do livro é de Barra Longa, foi para retratar o local onde moro desde meus nove anos.
 
João Carlos Rosa participando da Retomada Literária,
O Cafezeiro, dez/2021


MUTUM CULTURAL: Qual a sua interação com os outros escritores de Mutum?
JOÃO CARLOS ROSA: Já li muita coisa dos nossos autores. São bons livros. A literatura mutuense é bem promissora. Participamos recentemente da Retomada Literária n’O Cafezeiro. Tenho mais livros do Cláudio Antonio Mendes.
 
MUTUM CULTURAL: O que você planeja para esta nova década? E o que você espera da cultura municipal?
JOÃO CARLOS ROSA: Publicar mais livros. Participar de alguns projetos, alguma coletânea de forma cooperativa. A nossa cultura mutuense precisa investir mais em nossos autores, em nossos músicos, por exemplo. Nossos artistas deveriam ser mais valorizados pelo poder público. Não investir tanto e só em artistas de fora. Investir naquilo que é da cultura mutuense. Talvez as gerações futuras não vão valorizar o que temos por desconhecer nossas manifestações culturais.
 
 
NOTA DO BLOG: Esta postagem é parte do material levantado para TEMPOS DE OURO DA LITERATURA MUTUENSE – I (2011-2020).

Foto inicial: divulgação da obra na loja IBI LITERRÁRIO


PENTALOGIA POÉTICA EM
 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

POEMAS DE UMA VIDA DE JOÃO CARLOS ROSA




" ...a melodia chega antes,

a letra chega mais tarde."






SÉRIE: PENTALOGIAS POÉTICA
LIVRO: UMA VIDA EM VERSOS
AUTOR: JOÃO CARLOS ROSA
EDITORA: TXAI EDITORAÇÕES

 
A sensibilidade poética de João Carlos Rosa vem de muito tempo, assim como sua militância pastoral e social. Ele é o poeta idílico que nos faz recordar dos tempos de roça e labuta. Dos tempos de plantações e rebanhos. E traz todos os trejeitos dos pastoreios para expressar seus sonhos e sua luta, mas acima de tudo a sua fé em Deus e em dias melhores.
 
Através dos cinco poemas retirados da sua primeira obra impressa, realizada com os recursos da Lei Federal nº 14.017/2020, denominada Lei Aldir Blanc, por intermédio da Secretaria Municipal de Cultura de Mutum, Minas Gerais, buscamos mostrar para o leitor como fé, sonho e apropriação da realidade traduzem-se em versos pelas mãos de João Carlos Rosa e nos faz lembrar de outro Rosa, o Guimarães da prosa.   
 

 
VAQUEIRO RETIRANTE
Na noite escura
Do não me toques
Caminho na solidão
Como um vaqueiro cego
Que aboia boi na imaginação
O vento dança com os ramos
Afligindo o meu coração.
 
Sou um pobre vaqueiro retirante
Que atravessa todo o sertão
Em busca de água pura
Que cura toda paixão
Pois olho para os olhos profundos
Bem no fundo do coração.
 
Amanhã é certo
Que anoitecerá chovendo
Aumentando a escuridão
E o vaqueiro cego
Continuará aboiando
Boiada na imensidão
E o canto da ave de rapina
Que chegará em forma de oração.


A CASA
A casa fica longe
Onde não chega o aluguel
Mas chega a paz
É onde a melodia chega antes,
A letra chega mais tarde.
 
A noite aqui chega
Trazendo seu não
E os seus mistérios
Quando passa a madrugada
Chega a aurora
Tudo é desvendado
Com o sol que vem outro dia
Eu, sem tempo de sofrer.
 
E na hora santa do almoço
Na mesa farta da varanda
No fogão de lenha
Com gosto de panela de barro.
 
A casa fica bem longe
Cheia de buracos
Nas paredes de barro
Não acredito nem um pouco
Nas crendices deste lugar.
 
Aqui fica tão longe
Onde não chega o aluguel
Mas chega a paz
Onde a melodia chega antes
A letra chega mais tarde.

PAIOL
Eu resolvi pensar em nós
De barbas brancas já envelhecidas
Na festa de outro dia
Como nossos casos de ontem
Com dúvidas e dívidas
Armazenados no paiol da vida.
 
Ontem nós todos juntos
Com nossas vastas cabeleiras
Sem limite e sem basta
Chamados de jovens rebeldes
Andamos com calças apertadas
De boca de sino
E sapatos cavalo de aço
Sem medo do paiol da vida.
 
Hoje nós de cabelos brancos
Sem contar os que perdemos
Muitos de barrigas crescidas
Com medo do colesterol
Não degustamos hoje
Os mesmos pratos
Das festas daqueles dias
Todos assustados com o infarto.
 
Somos chamados de pai
Outros de avô
Vamos acumulando pontos
Na corrida do tempo
Com essa sabedoria divina.




MEU POÇO
Eu me lembro
Dos encantos da minha infância
Tenho na lembrança
O meu poço verde
Que o tempo secou.
 
Meu tempo de menino
Com o poço passou
Sem eu compreender
O que é sofrer
O que é a dor.
 
Eu vejo a areia branca
Um marco forte
Onde o poço verde existiu
Um dia quando criança
Com a vida eu brinquei.
 
Agora eu rastejo
Até seus pés
E mergulho no fundo
Do tempo que não volta.
 
A minha vida torta
Como as águas que correm
Pobre e poluída
Fraca e desnutrida
De nascentes desnudadas
Que passam no meu poço verde
Que um dia fui um rei.
 
Eu me lembro
Dos encantos da minha infância
Estão todos guardados
Nas paredes de barro.
 
As lembranças que não esqueço
Do meu poço verde
Que fez de mim
Um pensador torto
Dentro do meu ser
Assim tudo continua
O meu poço verde
Ainda está morto.
 
LIVRO DE BOLSO
Andei com fé
Nas ruas estreitas de Nazaré
Pois tinha um plano
Mergulhar no oceano
Da minha vida
E medir o tamanho da fé
Que caiba no meu livro de bolso.
 
Eu reparei em todas as ruas
Procurando sem rumo
A pequena casa escola
Que fica em Nazaré
Senti as minhas asas cortadas
Quando eu vi
Que ele tinha ido para Jerusalém.
 
Andei com fé
Nas ruas de Jerusalém
Ajudei ele a carregar o madeiro
Minha irmã enxugou seu rosto
Lembrei-me da fé
Ela não estava no bolso
Ela não cabia em mim
Na manhã da sua ressurreição.
 

OUTRAS PENTALOGIAS POÉTICAS


sexta-feira, 23 de abril de 2021

VERSOS DA VIDA DE JOÃO PINTO DE MOURA

 


João Pinto de Moura é um daqueles poetas que não rompem o cordão umbilical com sua terra e com a cultura do seu povo. Seus versos, rimados, procuram contar histórias vivenciadas por ele. Chega a ser a epopeia de um mutuense que celebra suas vitórias com júbilo que as transmitem em cada estrofe da sua poesia de fácil compreensão e de profundas reminiscências que nos levam a viajar a através do tempo.
 
Pessoas e lugares que habitam a sua memória dão vida a seus poemas. É por isso que seu jeito de poetizar provoca saudades. Podemos pescar no amplo ribeirão do seu livro Histórias de uma vida em versos menção a fatos que servem de base para reconstruir histórias, como o grupo de adolescentes Atalaia. O livro de João Pinto de Moura também é um álbum de lembranças especiais da sua vida que trazem em segundo plano ambientes de tempos idos que ficaram aqui eternizados.
 
Como proposta da nossa série, abrimos nossa pentologia com Histórias de uma vida, o primeiro poema, como um prefácio do que vamos encontrar em cada página, e por último o poema Registrei para vocês, que serve de posfácio.
 
Os outros três poemas foram de difícil escolha. Quisemos representar a pluralidade de assuntos. Escolhermos Charola para lembrar uma das atividades culturais de cunho religioso que faz parte da sua realidade atual. Já A pracinha – igrejinha de São Sebastião nos trás uma parte da história do catolicismo em Mutum que nem todo mundo conhece.
 
Tia Juraci
é uma bela homenagem a uma pessoa que foi, para muitos, sinônimo de simpatia, serenidade e caridade. Acredito que João Pinto de Moura tem muito mais a falar de sua tia. Quem sabe em um próximo livro.
 
Antes de ter a oportunidade de publicar seu livro através da Lei Aldir Blanc (Lei Federal Nº 14.017/2020), seus poemas já foram objeto de leitura e comentário em uma das nossas sessões do Café Literário. Foi a única experiência que tivemos com escritores  ainda não publicado.
 
Vamos aos cinco poemas que escolhemos para esta pentalogia.









HISTÓRIAS DE MINHA VIDA

Vou contar para vocês
Não é tudo que passou
É, parte de minha história
Desde quanto começou
 
Eu nasci em um recanto
Num cantinho beira mata
Onde passei minha infância
No córrego Ponte Alta
 
Nossa casa era pequena
Mas era muito singela
Pra buscar água na bica
Atravessava uma pinguela
 
Construída de pau a pique
Amarrada de cipó
Com telhado de tabuinha
Bem pertinho da vovó
 
   

CHAROLA

Na música sou sertanejo
Também gosto da popular
Gosto muito da charola
Pra meus versos entoar
 
As histórias desses Santos
Escrevi com dedicação
Dois mártires da nossa igreja
Manoel e Sebastião
 
 

A PRACINHA – IGREJINHA DE SÃO SEBASTIÃO

A Praça Raul Soares
Me deixou muitas lembranças
Que hora em poeira ou barro
É onde brincavam as crianças
 
Onde hoje é o sindicato
Tenho grande recordação
É ali que existia
A igrejinha de São Sebastião
 
Tinha também um coreto
Em boa conservação
Onde ali o povo usava
Para arrematar o leilão
 
 
TIA JURACI
 
Falando em caridade
Lembro da Tia Juraci
Que fazia o bem a todos
E até esquecida de si
 
Ajudava o povo inteiro
A todos sem distinção
Se batiam em sua porta
Abria de coração
 
Acolhia as famílias
Os doentes do hospital
E também muitas gestantes
Pra ganhar o seu Natal
 
Quantas vezes em minha casa
Ela muito ajudava
Cuidando da sobrinha Celsa
Quando os meninos ganhava
 
Não tinha dia nem hora
Era até de madrugada
Só saía pra ir embora
Quando tudo se ajeitava
 
Acredito que teve no céu
Um cantinho reservado
Pois tudo de bom que fez
Lá foi bem recompensado
 
 
 
REGISTREI PARA VOCÊS
 
Eu contei para vocês
Não foi tudo que passou
Foi parte da minha vida
Desde quando começou
 
Um pouquinho de cada coisa
De tamanha gratidão
Dos amigos, do tempo passado
Coisas da recordação
 
Ao terminar estes versos
De verdadeira expressão
Que é parte do meu passado
Sinto alegria e emoção



PENTALOGIAS POÉTICAS


sexta-feira, 9 de abril de 2021

TONY MARQUES: DA ARCÁDIA AO MUNDO CONCISO E INFINITO DE BASHÔ

FONTE: https://greciantiga.org/

Segunda-feira o blog Mutum Cultural postou cinco poemas do poeta Tony Marques na nossa série Pentalogia Poética. Ele é mais um mutuense que se encantou com a arte mãe de todas as artes.

Agora trazemos uma entrevista que o poeta nos concedeu falando de si e do seu ofício com os versos. Ele também fala da sua relação com Mutum. 

Esta é a segunda postagem sobre Tony Marques de uma trilogia que concluiremos com seu estilo poético que tanto tem encantado, o Haikai.


 -ENTREVISTA-

Como surgiu seu interesse pela poesia?

Aos 12 anos de idade eu ingressei em um colégio interno em São Mateus-ES (Seminário Diocesano João XXIII) e lá dei início à minha vida de leitor. Meu gosto era mais pelos romances de aventura tipo: Robinson Crusoé (Daniel Defoe) Ilha do Tesouro (Robert Louis Stevenson) e outros. Com o passar do tempo, eu fui lendo mais e mais, me voltei pra literatura brasileira e comecei escrever pequenos poemas de forma despretensiosa. Até que certa vez participei de uma antologia e tive um poema editado, depois o segundo. Gostei, no entanto, parei de participar de antologias e fiquei escrevendo só pra exercitar mesmo, até que surgiram as redes sociais.

 

E sua predileção pelo Haicai?

O Haikai surgiu em minha vida de uma forma muito interessante: Eu estava fazendo meu TCC do Curso de Letras sobre o Arcadismo Brasileiro (Os Sonetos de Cláudio Manoel da Costa) e meu orientador disse que estava escrevendo uma dissertação de Doutorado sobre os Haikais do Paulo Leminski. Perguntei pra ele: O que é Haikai? Ele falou a respeito desse estilo poético japonês e acabei me interessando. Comecei estudar sobre os grandes mestres japoneses: Bashô, Buson, Issa Kobayashi e outros. Nesse meio tempo, surgiu um concurso de Haikais administrado pelo Grupo de Haicais Caminho das Águas de Santos-SP. O tema dos Haikais para o concurso era Quaresmeira. Fiz um Haikai e tamanha foi minha surpresa, quando um belo dia chegou a notificação que eu havia ficado em segundo lugar com o meu Haikai. Em um concurso nacional, o segundo lugar foi uma grande surpresa. A partir de então, além de continuar fazendo pequenos poemas, continuei fazendo Haikais que é um poema que não pode causar dificuldade de entendimento ao leitor e sucinto como eu gosto de fazer. Eu não consigo escrever de forma abstrata, como os grandes poetas.

 

Qual sua relação com Mutum?

Bom, Mutum é minha terra natal e é uma cidade que gosto muito, tenho vários amigos aí. Eu nasci no Distrito de Roseiral e saí de lá muito novo. Com 8 anos de idade, minha família mudou-se pra Barra de São Francisco-ES e por lá fiquei até os 16 anos, quando viemos morar em Belo Horizonte. Passei vários anos sem ir a Mutum, quando fui, já adulto, namorei e casei com uma mutuense, a Ana Maria. A partir de então, eu passei a ir a Mutum todos os meses. Meus sogros eram idosos e tínhamos que estar presentes. Atualmente, não vamos com muita frequência, mas Mutum está sempre presente em nossas vidas e temos um carinho muito grande pela cidade, pelos parentes de minha esposa e nossos amigos. Eu não tenho parentes em Mutum, meu avô era italiano e criou uma família diminuta, na região do Córrego do Vermelho.

 

 

Você tem obras publicadas?

Não, não tenho. Apesar de já ter tido um livro de Haikais engatilhado para ser publicado. Os entendimentos com a editora já estavam bem adiantados, mas aos poucos fui perdendo o incentivo e acabei por cancelar o projeto. Eu ia editar esse livro mais por incentivo de outras pessoas que por interesse próprio. Pra mim, o fato de publicar ou não é só um detalhe. Prefiro as redes sociais, acho mais democrático e mais acessível, qualquer pessoa pode entrar lá e ler meus poemas, cada curtida, cada comentário, cada compartilhamento pra quem escreve nas redes é muito importante. Isso, no entanto, não quer dizer que não acho legal as pessoas que gostam de publicar seus trabalhos. Fazendo uma autocrítica, eu acho minha poesia muito simples. Eu gosto mesmo, como já disse anteriormente, são dos poemas sucintos e de fácil entendimento como os Haikais, por exemplo.

 

Pretende publicar seus poemas?

 Outro dia, uma amiga de São Paulo, a Elke Lubitz, insistiu pra eu dar início a um projeto de edição, mas por hora eu não pretendo. Acredito que mais para o futuro eu até venha a publicar um livro de Haikais. Eu tenho um material bastante extenso e pra você selecionar 50 ou 60 poemas, eu tenho certa dificuldade. Mas não descarto essa possibilidade. Pode acontecer um dia.

 

Você consegue nas redes sociais um alcance considerável de leitores. Como você acha que as redes sociais podem ajudar a divulgar a arte?

Poema "pescado" no instagram do poeta.

Olha, eu vejo as redes sociais como uma grande lata de lixo, onde 90% de seu conteúdo não tem qualquer importância e os outros 10% algo de valor e que faz a diferença (esses 10%, apesar de representar pouco percentualmente, tem um conteúdo enorme). O que precisamos é saber reciclar e tirar o que as redes têm de melhor para nossa formação, para nosso crescimento. Eu não tenho qualquer preconceito dizer que sou um escritor de redes sociais. Costumo brincar que quando comecei escrever nas redes a cada nova postagem eu tinha em média 50 comentários, 80 curtidas e hoje não tenho nem 20% desses números, portanto, estou crescendo igual rabo de cavalo, pra baixo. O que não deixa de ser um crescimento. Na verdade, o fato de você atingir um público maior é muito interessante, você pode dialogar com seu leitor, respondendo os comentários e acaba criando até mesmo uma relação de amizade. Eu já tive oportunidade de encontrar pessoalmente alguns poucos seguidores e foi muito agradável poder conversar com eles. Nas redes sociais, filtrando bem, você encontra trabalhos muito bons.


LEIA TONY MARQUES EM:

FACEBOOK

INSTAGRAM


LEIA NO BLOG A PENTALOGIA DE TONY MARQUES

segunda-feira, 5 de abril de 2021

AS PÍLULAS POÉTICAS DE TONY MARQUES

 


 

            Tony Marques é mutuense que reside em Contagem-MG. Ele consegue em versos curtos sintetizar sua visão peculiar da natureza e da história. É um poeta que traz na retina uma visão pastoril, ainda que viva na urbanidade seus dias de garimpagem por aquilo que alimenta a alma humana. Mas tem nos dedos a capacidade de encapsular em números mínimos de versos o que captura daqueles detalhes que ainda nos encantam.

            Tony Marques usa as redes sociais, facebook e instagram, como meio para compartilhar conosco as suas criações. É assim que ele espalha suas pílulas poéticas para amenizar nossos temores nas tardes cinzas e nas noites de ventos uivantes.

POEMA I


    

POEMA II

POEMA III

POEMA IV


POEMA V




NOTA DO BLOG:  Entrevista com TONY MARQUES


OUTRAS PENTALOGIAS

OLÍVIO DE SOUZA ARAÚJO

FRANCISCO FAGUNDES

ITAJACI CORRÊA

sexta-feira, 27 de julho de 2018

#ESTUPRONÃO


Com essa hashtag o jovem poeta de Mutum Gabriel Oliveira narra em verso uma situação que ainda perdura em nossa sociedade, mesmo com a emancipação feminina, a coisificação do outro leva um ser humano julgar que pode ter tal atitude.
Autor da página no facebook Apenas Sendo Eu, ele justifica que tal poema nasceu ao tomar conhecimento do relato de uma de suas seguidoras:
“Espero que lendo este, vocês possam ter de alguma forma se emocionado por que essa é a atitude mais horrenda que um 'homem' pode tomar.

E gostaria que compartilhassem ou de alguma forma fizessem esse texto alcançar o máximo de pessoas possíveis. Não por mim, mas por quem passa ou já passou por isso. Obrigado!”


Ela era mulher de alma pura.
Tinha lá alguns obstáculos em sua vida,
mas nenhum era forte o suficiente pra derrubá-la.
Isso até que um dia de forma horrenda lhe roubaram tal pureza.


Visto por todos como um homem comum.

Entrou em sua casa como um amigo e saiu pior que um monstro.
Homem? Não! Um homem não faria isso.
Um homem de verdade não seria capaz de tal violência.


A jogou contra a parede, pôs a mão em seu pescoço 

e fez dela uma vitima.
Enquanto ela tentava gritar era sufocada, corrompida, destruída.
Pois um monstro penetrou seu corpo e alma.
Ela não pôde sequer reagir, sequer fugir, sequer viver.


Depois de cometer tal afronta ele se vestiu e saiu, só se foi.

E ela? Ela ficou ali, caída no chão sem conseguir se mexer,
Sem conseguir pedir ajuda, sem conseguir nem mesmo chorar.
O que ela sentiu? Nem mesmo isso ela podia dizer, pois sua voz ali não mais residia.


E aquela mulher que se sentia pura se desfez. Se afogou.

Afogada em dor ela apenas existia.
Sozinha ela vivia sem amparo já que as palavras que lhe restavam
Mal servia para dizer um falso 'eu estou bem'.


-Gabriel Oliveira-

#estupronão

terça-feira, 5 de setembro de 2017

UM POEMA PARA MUTUM

FOTO: MUTUM ON-LINE


MUTUM

Minha terra tem palmeiras
Onde cantam canários da terra
Onde a praça é doce
E a fonte traz lembranças

Minha terra é tão bela
Que todo o dia penso nela
Alegria de chegada
Tristeza de partida

Onde ausentes se tornam presentes
No meio certo do ano
Onde não existe engano
Ao declarar meu amor

Cidade invejada por muitos
Pedra fincada eterna
Onde fiz minha morada
Mesmo que no coração

Poesia em forma de praça
Saudade em forma de pedra
Felicidade em forma de ruas
Amor em forma de ave

Mutum, doce lembrança.


Wagner Fonseca

terça-feira, 8 de agosto de 2017

OS INDRISOS DE ANA HUBNER

Ana Hubner, uma poetisa a ser conhecida, estreia em nossa Pentalogia Poética nos presenteando com seus belos indrisos, esse novo estilo poético que tem cada vez mais chamado atenção de quem, condenado e aprisionado a ser instrumento da poesia, expressa a liberdade em versos.


Vagando pela seara dos sentimentos humanos, como tédio e anseio, Ana Hubner, mais que escuta, ausculta o silêncio e traduz em belos poemas o que esse incômodo e edificante companheiro tem a nós dizer.


ILUSÃO

Meus olhos desenham o doce querer
Embriagado pela ilusão
De viver o ato pleno de existir

Em sonho, acaricio o mapa lúdico
Ferindo a alma, a realidade é densa e cruel
Viajo na eternidade do tempo

Num espaço infinito vejo

Uma vã luta e seus ciclos



TÉDIO

No indelével espaço da alma
Todo o mistério do viver
Intensa angústia da existência

Entre a sombra e a luz
Contemplo o mar mudo
Água adormecida

Sou fonte, sou ferida

Anseio e tédio
  

VOCÊ

Você é meu raio de sol
Luz que desperta
Meu coração de pedra

Sem você, meus dias são escuros
Vazios do amor que sonhei
Esperei, espero, esperarei

Teu sorriso, uma prece

Teus olhos, meu farol!


O SILÊNCIO

Ergo o olhar da estrada
Sinto saudades do outono
Deito-me nua ao luar

Minhas mãos cheias de desenhos
Acolhem o silêncio
O vazio do existir

Entre mim e o que penso

Resta apenas a sombra do voo


VEJO

No silêncio calado de nós dois
No lapso indeciso do tempo
Renovo a esperança com olhos gastos

Com pupilas dilatadas vejo
A gota d’água, o papel, o fio de cabelo
A partícula do mundo

Sem refúgio, insisto ver o luar

Sonhando, sou eu só




OUTRAS PENTALOGIAS POÉTICAS





segunda-feira, 24 de julho de 2017

UM POETA CHAMADO MUTUM

Entrevista com Jorge Sanglard
José Henrique da Cruz entre amigos em Juiz de fora,
a direita, Jorge Sanglard, o nosso entrevistado

Para ilustrar melhor nossas postagens a respeito do dia do escritor a ser celebrado amanhã, 25 de julho, buscando na internet sobre “literatura de Mutum”, deparamos com o TCC de Suzana Azevedo Reis, estudante de Comunicação Social na UFJF, Bar Brazil: A Contestação Estudantil Em Palavras entre outros poetas, Mutum. Em uma das páginas ela nos explica quem é Mutum. Trata-se de José Henrique da Cruz.
José Henrique da Cruz nasceu em 1957 na cidade de Carangola-MG. Viveu a partir de 1971, em Mutum-MG. Em 1972 mudou para Juiz de Fora para cursar o ensino médio, onde tomou contato com o professor e poeta Gilvan Ribeiro. Estudou Comunicação Social e trabalhou em vários jornais. Tornou-se um dos poetas locais mais reconhecidos. Morreu em 2003 em um acidente automobilístico ocorrido entre Mutum e Aimorés.
José Henrique da Cruz é um biografável por tudo que ele representou e ainda representa para quem o conheceu. No entanto, o recorte da nossa postagem é o seu produzir poético. Quem é esse poeta chamado Mutum? Para nos responder essa pergunta, o blog Mutum Cultural teve a honra de obter uma entrevista de um dos seus amigos e companheiros em Juiz de Fora-MG, Jorge Raimundo Sanglard de Paula.

A ENTREVISTA


 MUTUM CULTURAL: Antes de começarmos a falar do tema principal do nosso bate papo, José Henrique da Cruz, conhecido com Mutum, gostaríamos que você se apresentasse para o leitor do nosso blog Mutum Cultural.
 JORGE SANGLARD: Sou jornalista e pesquisador nas últimas quatro décadas em Juiz de Fora. Nasci em Juiz de Fora, morei desde pequeno e até 1971 em Manhuaçu, perto de Mutum. Em 1972 foi estudar Mineralogia em Ouro Preto e voltei a Juiz de Fora em 1975. Em 1976 iniciei o curso de Jornalismo na UFJF e encontrei o José Henrique da Cruz já no primeiro dia de aula e nos tornamos amigos e parceiros desde então. Atualmente, sou o Gerente do Departamento de Acervo Técnico do Museu Mariano Procópio. Coordenei a antologia "Poesia em Movimento", reunindo a produção poética de 42 autores contemporâneos com atuação em Juiz de Fora nos movimentos "Poesia", "Bar Brazil", "D' Lira" e "Abre Alas", entre 1975 e 2000, com destaque para a obra poética de José Henrique da Cruz. O livro conta com apresentações de Gilvan P. Ribeiro e Affonso Romano de Sant' Anna e foi publicado pela Editora UFJF em parceria com a Funalfa Edições pela Lei Municipal de Incentivo Murilo Mendes, em 2002.
   Iniciei minha carreira profissional na década de 1970, ao lado de José Henrique da Cruz, o Mutum, como um dos fundadores do jornal alternativo "Bar Brazil" e da revista "D’Lira". Ajudei, juntamente com o José Henrique da Cruz, a manter o movimento "Poesia". 
   Como jornalista, desencadeei nas páginas da Tribuna de Minas a campanha pelo resgate da importância cultural do Museu Mariano Procópio, o primeiro museu de Minas, que tem um dos mais significativos acervos do período colonial e imperial do país com mais de 55 mil peças.
   Como conselheiro do setor Literatura, por dois períodos, ajudei o Conselho Municipal de Cultura a formular o Plano Municipal de Cultura de Juiz de Fora aprovado na Câmara Municipal por unanimidade.
   Sou colaborador especial do jornal quinzenal “As Artes Entre As Letras”, no Porto, em Portugal. Fui assessor de imprensa na Ordem dos Advogados do Brasil Subseção Juiz de Fora. Colaborei, como pesquisador, com o Instituto Cultural Cravo Albin, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira / Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira (onde tive a honra de ser verbete como crítico de música), ajudando a redigir os perfis de compositores e músicos de Juiz de Fora e da Zona da Mata mineira, reconhecendo e valorizando nossos talentos musicais.
   Coordenei a realização da "Primeira Mostra de Arte Universitária Mineira", na UFJF, em 1977. Ajudei a articular o Som Aberto, realizado pelo DCE, na UFJF nas manhãs de sábado, a partir de 1976.
   A partir de meados dos anos 1970 e até 1981, produzi alguns dos principais shows do Circuito Universitário, em Juiz de Fora (MG), realizados por Gonzaguinha, Luiz Gonzaga, Elomar, Dércio Marques, Gilberto Gil, João do Vale, Alceu Valença e Aniceto do Império. Produziu também apresentações de Egberto Gismonti, Arthur Moreira Lima e Clara Sverner.
   Atuei, entre 1981 e 1997, como repórter de cultura e diagramador do "Caderno Dois" do jornal "Tribuna de Minas" e também trabalhei na Tribuna da Tarde.
   Em dezembro de 1998, co-produzi, no Theatro Central de Juiz de Fora, a pré-estréia do show "As cidades", de Chico Buarque.
   Como programador visual, ajudei a elaborar o projeto gráfico da "Tribuna da Tarde", criei a capa e o encarte dos discos "Alpendre", "Nuances" e "Intuitiva melodia", do compositor, violonista e guitarrista mineiro Chico Curzio, e a arte do encarte do disco "Traços na parede", também de Chico Curzio. Elaborei o projeto gráfico do CD "Sertão das Miragens", de Luizinho Lopes e Marcela Lobo, e assinei a apresentação dos CDs "Caminhos Gerais" (Ronaldo Cadeu & Daniel Morais), "Mamão com açúcar" (Armando Aguiar, o Mamão), e "Batuque de negro" (Geraldo Santana).
   Junto com o artista gráfico Jorge Arbach e com o crítico de literatura Gilvan P. Ribeiro mantive, semanalmente, uma página de literatura no "Caderno Dois" da "Tribuna de Minas" e na “Tribuna da Tarde". 
   Ao lado do jornalista e crítico de arte Walter Sebastião, ajudei a articular o movimento e a campanha "Mascarenhas, meu amor" que, no início dos anos 1980, mobilizou artistas e a comunidade para a transformação da pioneira Fábrica Bernardo Mascarenhas no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas em Juiz de Fora.
   A partir de 1993, atuei na pesquisa, na divulgação e na luta pelo tombamento e restauração de dois ícones da arte moderna a céu aberto em Juiz de Fora: o painel em azulejos "As Quatro Estações", criado em 1956, por Candido Portinari, para a fachada do Edifício Clube Juiz de Fora, e o "Marco do Centenário de Juiz de Fora", primeiro monumento abstrato e concretista em praça pública no Brasil, projetado em 1949 por Arthur Arcuri, engenheiro-arquiteto modernista, e trazendo ainda o primeiro mosaico em vidrotil na concepção modernista criado em praça pública no país, em 1950, por Di Cavalcanti, e inaugurado em 1951.
   Tive atuação decisiva na redescoberta e no resgate da cidadania cultural do compositor, cantor e violonista De Moraes, autor da letra de "Minas Gerais", o "hino" popular dos mineiros, canção eleita pelo voto popular como a música do século XX em Minas Gerais, pela TV Globo Minas. Realizei a pesquisa e ajudei a articular a edição do CD "De Moraes", lançado pela Allca Music, com produção de Cléber Camargo, recuperando, a partir de originais em 78 rpm, 14 canções de um dos principais compositores mineiros da era do rádio, nos anos 1940 e 1950.
   Fui autor do projeto e do texto do livro “JF Anos 80”, que reuniu fotos históricas de Juiz de Fora na década de 1980 de autoria de Humberto Nicoline, também publicado com apoio da UFJF pela Funalfa Edições, aprovado pela Lei Municipal de Incentivo Murilo Mendes.
   Integrei o Conselho Diretor do Cine-Theatro Central e, entre janeiro de
Antologia poética organizada por Jorge Sanglard
com participação de José Henrique da Cruz
1997 e junho de 2003, exerci a função de Assessor de Relações Públicas da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), em Juiz de Fora, onde editei a "Revista de Cultura AZ" e ajudei a editar o jornal “Orpheu”. Colaborei com o jornal musical "International Magazine" e com o "Jornal do Rock". Colaborei com os jornais "Movimento" e "Em Tempo", nas sucursais de Minas. Fui colaborador especial do caderno semanal “das Artes das Letras” do jornal O Primeiro de Janeiro, no Porto, em Portugal. Colaborei com o Portal Literário Cronópios, em São Paulo, e com o jornal literário "Rascunho", de Curitiba, além dos jornais mineiros "Hoje em Dia" e "Estado de Minas". Fui primeiro-secretário do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Juiz de Fora e seu representante junto à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).


MUTUM CULTURAL: Como você define José Henrique da Cruz?
   JORGE SANGLARD: José Henrique da Cruz encarnou a poesia como
poucos escritores. Viveu a poesia no dia a dia e ajudou a criar e a consolidar um dos mais importantes movimentos poéticos brasileiros a partir de meados dos anos 1970, com o folheto Poesia, o jornal Bar Brazil, e a revista D'Lira. Além de ser um grande poeta tinha um faro para editar poesia e ajudou a revelar muitos nomes que se consolidaram no universo poético e literário mineiro e brasileiro. Encontrei Mutum no primeiro dia de aula no curso de Jornalismo na UFJF e, desde esse dia, nos tornamos amigos e parceiros. 


MUTUM CULTURAL: Como foi a criação do folheto Poesia na UFJF?
   JORGE SANGLARD: A sensibilidade poética foi o fio condutor que reuniu, inicialmente, Gilvan P. Ribeiro e o saudoso José Henrique da Cruz (1957 – 2003) na articulação do folheto Poesia, em 1976, já na Universidade Federal de Juiz de Fora, após os sete primeiros exemplares terem sido editados com o apoio do Colégio Magister, em 1975. A partir daí, cada vez mais, foi sendo forjado o coletivo que deu sustentação ao
folheto Poesia, ao jornal Bar Brazil, ao folheto Abre Alas e à revista D’Lira. Ao conhecer Mutum, no primeiro dia de aula de Jornalismo na UFJF, conversamos sobre o que cada um de nós fazia e ele citou os folhetos Poesia editados no Colégio Magister por inspiração do professor de Literatura Gilvan P. Ribeiro. No segundo dia de aula, ele trouxe os folhetos e começamos a buscar a parceria de alguns novos poetas na UFJF. Na nossa sala mesmo encontramos a Raquel Scarlatelli. Assim, Minas Gerais viu florescer, a partir de 1975, em Juiz de Fora, uma geração de novos poetas e escritores que, hoje, são destaque no cenário contemporâneo da literatura brasileira: Luiz Ruffato, Iacyr Anderson Freitas, Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fábio Fiorese Furtado, José Santos, Sérgio Klein, Fabrício Marques, Eustáquio Gorgone, Júlio Polidoro, Knorr, Walter Sebastião, entre outros. Em 1975, trabalhando como professor de Português no Colégio Magister, Gilvan P. Ribeiro conseguiu articular o apoio da direção para fomentar um movimento de poesia, possível graças ao entusiasmo dos alunos. Em parceria com o Diretório Central dos Estudantes da UFJF, a partir de 1976, começaram a sair os folhetos com o título Poesia. Mimeografado no Colégio com papel cedido pelo DCE, o folheto funcionou como um ímã, ampliando-se bastante a partir da ideia inicial, dado o número de interessados que se manifesta na época. Distribuídos na rua, passaram a atrair mais gente. O grupo
Cartaz do evento musical Som Aberto
original, logo na Universidade Federal de Juiz de Fora, onde Gilvan P. Ribeiro já estava como professor de Literatura, se reorganizaria, adquirindo uma nova feição e ampliando o número de poetas. O folheto passaria a ser distribuído — sempre gratuitamente — nos espetáculos político-musicais chamados Som Aberto, organizados pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) e realizados na Universidade e sua distribuição ganhava também as ruas centrais de Juiz de Fora, sendo levado à população todas as semanas.

 
MUTUM CULTURAL:     Qual a importância do Professor Gilvan Procópio Ribeiro para provocar em vocês, estudantes, o interesse pela criação literária?
   JORGE SANGLARD: A importância do Gilvan foi total. Ele, desde os tempos do Colégio Magister, incentivou os alunos, que iam fazer vestibular, à leitura de poesia e também ao fazer poético. Despertou o interesse para a leitura da poesia e motivou a todos em escrever poesia. Articulou a reflexão à ação e isso foi fundamental para ajudar a fazer do movimento um núcleo expressivo de novos poetas. 

MUTUM CULTURAL:     Em 2015, a estudante de Comunicação Social, Jornalismo, Suzana Azevedo Reis intitula seu TCC  Bar Brazil: A Contestação Estudantil Em Palavras, onde ela tenta demonstrar que o Jornal mencionado tem com intenção contestar a ditadura militar. O que de fato foi o jornal Bar Brazil? Juntamente com D’lira e Abre-Alas, tratava-se de continuidade do movimento literário iniciado com o folheto Poesia?
   JORGE SANGLARD: Os poetas reunidos ora na Poesia, ora no Bar Brazil, passando pelo Abre Alas, ou ainda em torno da D’Lira, deflagraram uma pulsação irresistível nas manhãs de sábado, seja no Som Aberto, na Universidade Federal de Juiz de Fora, seja nas ruas centrais de Juiz de Fora. A interação entre poetas e leitores impregnou o sentimento coletivo de cumplicidade, que permeou essa poesia em movimento constante. Exemplo vivo de cultura como via de duas mãos, como troca de influências e de reciprocidades. Agora, o jornal Bar Brazil, além de publicar poesia, abriu espaço para ensaios, entrevistas, ilustrações, fotografias. Representou um passo paralelo ao folheto Poesia e ampliou o leque de parcerias. Foi um veículo de jornalismo cultural antenado com o seu tempo, portanto, foi um jornal crítico à ditadura, mas voltado para dar voz cultural a quem não tinha voz.
  
MUTUM CULTURAL: Qual a relação desse movimento nos anos 70 com a Geração Mimeógrafo?
   JORGE SANGLARD: A relação do movimento com a Geração Mimeógrafo foi intensa. Nós tínhamos contato com todo mundo que editava poesia no país e trocávamos as publicações via Correios. A intenção de todos que usavam o mimeógrafo como matriz para as edições era difundir a boa poesia e aí, Juiz de Fora projetou grandes poetas para Minas e para todo o país. E o Mutum foi um desses grandes poetas revelados em Juiz de Fora. 

MUTUM CULTURAL:     Qual a atuação de José Henrique da Cruz nessa efervescência? Ele, assim como os demais, tinha consciência da importância história de tal movimento em Juiz de Fora?
   JORGE SANGLARD: José Henrique da Cruz foi essencial para que tudo isso acontecesse. Ele era o poeta que dava sustentação às publicações. Ele tinha um bom olho para vislumbrar um poeta promissor e, com isso, abriu alas para muita gente boa divulgar a sua poesia e mostrar o seu talento poético. A consciência da importância histórica do movimento foi sendo forjada ao longo do tempo. O que o Mutum e eu sabíamos é que só seria publicada poesia de qualidade. E isso foi essencial pra filtrar o que era bom e dar peso literário ao movimento.  

MUTUM CULTURAL: Como você acompanhou a produção literária de José Henrique da Cruz?
  JORGE SANGLARD: Acompanhei a produção literária do José Henrique da Cruz desde o segundo dia de aula no curso de Jornalismo na UFJF, quando ele levou os primeiros sete folhetos da Poesia editados no Magister. Daí em diante nos tornamos grandes amigos e encaramos a parceria pra reativar o folheto Poesia e a criação do jornal Bar Brazil e da revista D'Lira. E, mesmo depois de sair da faculdade, acompanhei a produção poética do Mutum.

MUTUM CULTURAL: Como ele reagia ao ser chamado de Mutum?
  JORGE SANGLARD: Com naturalidade. Para nós, ele sempre foi o Mutum. Agora, assinava todos os poemas como José Henrique da Cruz.

MUTUM CULTURAL: O que você destaca em suas obras Pequenos Poemas, de 1979, e O Alfabeto do Poeta, de 1982?
  JORGE SANGLARD: É importante destacar o conjunto da obra poética
Obras da Editora Funalfa nos anos 70 e 80
do José Henrique da Cruz. O Mutum era fera nos pequenos poemas, na percepção do cotidiano em sua escrita. Desde os primeiros poemas na Poesia até as suas últimas criações poéticas, sua inventividade era imensa. Toda a poesia do José Henrique da Cruz tem densidade.  

MUTUM CULTURAL: Como vocês se relacionaram durante a fase em que ele esteve em São Paulo?
   JORGE SANGLARD: Nós sempre estávamos em contato. Quando editei a antologia "Poesia em Movimento", os poemas do José Henrique da Cruz foram os primeiros a serem escolhidos. O livro é uma homenagem a toda a trajetória do Mutum como poeta. E ele esteve presente no lançamento da antologia em Juiz de Fora e em São Paulo.

MUTUM CULTURAL: Você acompanhou o processo de edição de Manuscritos Azuis? E da reedição de O Alfabeto do Poeta?
  JORGE SANGLARD: Sim, ajudei a reunir os poemas do José Henrique da Cruz. Todo mundo que participou do movimento deu a sua contribuição.

MUTUM CULTURAL: Como a convivência com José Henrique da Cruz e as atividades culturais dos anos 70 influenciou na sua carreira de produtor cultural e jornalista?
  JORGE SANGLARD: Influenciou de todas as formas. A força da poesia do José Henrique da Cruz inspirava a todos. E eu, como parceiro mais próximo na escolha dos poemas para editar o folheto Poesia, vivenciei toda a criatividade do Mutum bem de perto.  Articulamos juntos o Bar Brazil, depois a D'Lira. sempre trocando informações e vislumbrando editar o material a partir do critério de qualidade. Depois, trabalhamos juntos em redação de jornal.

MUTUM CULTURAL: O que mais podemos falar de José Henrique da Cruz para que ele continue vivo em nossa memória?
   JORGE SANGLARD: É importante manter viva a poesia do José Henrique da Cruz. E é essencial manter viva a memória da grande pessoa que foi o Mutum. Foi um cara generoso, talentoso e que vivia a poesia. Juiz de Fora deve muito ao José Henrique da Cruz por ter ajudado a forjar um dos mais importantes movimentos poéticos a partir de meados dos anos 1970. A cidade passou a respirar poesia a partir do momento em que o Mutum resolveu espalhar poesia pelo Campus da UFJF e pelas ruas centrais de Juiz de Fora. 



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“O suor do seu corpo dormiu no meu corpo/como se fosse o meu suor/Este peso, lembrante de tempo e trabalho/amor/teceu quedas e delírios em mim/com um sabor de frutas e riquezas” 
José Henrique da Cruz