domingo, 10 de setembro de 2017

UM MUTUENSE CHEIO DE HISTÓRIAS

NOTA DO BLOG: Procurando por história de pessoas da nossa terra na internet deparamos com a história de José Luiz Dias, um mutuense que foi entrevistado pelo site Museu da Pessoa (Um Mineiro Cheio de Histórias) que relata sua vida em Mutum, precisamente no Córrego Seco.

Outro testemunho importante é sobre seu pai durante a Revolução Constitucionalista de 1932, quando Mutum ficou sem policiamento. Veja o vídeo abaixo:



Agora leia a postagem no site Museu da Pessoa a partir da entrevista fica com nosso conterrâneo em terras bandeirantes. Reproduzimos na íntegra:

Um mineiro cheio de histórias
História de: José Luiz Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2014

SINOPSE
Em seu depoimento, José Dias lembra sua infância na região de Córrego Seco, município de Mutum, Minas Gerais. Fala da casa de infância, das brincadeiras e de como o pai se tornou uma figura respeitada na região. Recorda os acontecimentos que levaram o pai a se matar ingerindo formicida.  Conta como casou aos 25 anos e constituiu família em Mutum, decidindo migrar para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Em São Paulo, trabalhou em várias empresas e criou sua família de 9 filhos. Finaliza falando sobre a sua cegueira, originada por um glaucoma não curado.

HISTÓRIA COMPLETA
Meu nome é José Luiz Dias, eu nasci dia 5 de junho de 1935, mas os funcionários públicos errarem. Quando eu fui pegar a minha aposentadoria por idade é que achamos aquela diferença. No documento está 5 de julho de 1935, mas o nascimento mesmo é 5 de junho. Eu nasci lá no Córrego Seco, no Distrito de Centenário, município de Mutum, MG. Fica lá na zona de Governador Valadares, já divisando com o Espírito Santo, à esquerda, na Estrada Vitória-Minas. Meus pais são de Santa Isabel do Rio Preto, estado do Rio. O nome do meu pai era Manuel Luiz Dias e minha mãe, Maria Neves Dias. Esse pessoal veio da zona norte do estado do Rio pra nossa zona lá. Quando eles começaram era tudo mata. O meu pai e mais outros abriram lá as matas e formaram suas lavouras. Ele trabalhou pra um fazendeiro de tropeiro. Antigamente, de onde a gente estava até o Aimorés, onde tem a estrada Vitória-Minas dá mais ou menos uns 70, 80 quilômetros. Se precisasse comprar sal, querosene, arame de cerca, tinha que ir buscar no carro de boi ou nas costas de burro. Então, dez burros era uma tropa, encangava aqui, punha a saca e descia, ia lá embaixo buscar, depois trazia. Meus pais se conheceram nas rezinhas da roça lá, católico conhece seus namorados lá na igreja, na reza. Porque rezava mês de Maria, a novena de Santa Luzia, São Sebastião, São José.
Minha casa era de interior, eram dez metros por 20 ou 25 assim. Aí subia o centro da casa, eles punham aqueles pau-a-pique que era cumeeira que falava. Era a casa que meu pai fez pra gente morar. Eu tenho oito irmãos, comigo nove que escapou, antes desses nove acho que morreu três filhos da minha mãe e do meu pai. Meu pai era baixinho, pequeninho, brabinho. A minha mãe também, calculo mais ou menos, acho que ela era da mesma altura do meu pai, um pouquinho mais alta. Mas nenhum deles era gordão. Como meu pai nasceu na roça, mexendo com burro, ele era pequeno, mas era forte, virou atleta. Depois que ele namorou e casou com a minha mãe foi lá pra esses cantos lá da roça, comprou esse pedaço de terra, derrubou mato, plantou café, fez casa. Ele chegou a fazer acho que seis casas de colônia. Esses cafés nossos, nessa época, quando começava lá, colhia ele, limpava e ia levar lá no Aimorés. Aí, depois mudou, melhorou, surgiram alguns proprietários, caras mais ricos, começou a aparecer o caminhão. Aí já vinha pro lado de Ipanema, Manhuaçu, lá tinha estrada de ferro que pegava e ia pro Rio.
Esse pedaço de terra, lugar que era isso aí, dava 12 alqueires e meio de terra. Embaixo, tinha umas várzeas, depois subia um morro assim, aquela pradaria, depois dava uma descida, aí outra planicezinha, ali ele fez a nossa casa. O papai ficou um homem de destaque, ele ficou conhecido. Como ele era tropeiro, estava sempre indo de fazenda em fazenda buscando café, levando cereais pra eles. Na Revolução de 32, o Governo de São Paulo pediu ao Governo de Minas pra ajudar e o Governo de Minas, então, juntou todos os soldados que ele tinha na capital. Aí as cidadezinhas do interior ficaram tudo sem autoridade, sem soldado, sem nada. Como papai era conhecido na cidade e as autoridades sabiam que ele era uma pessoa de destaque, de representação, chamaram ele lá e disseram: “Olha, seu Manuel, o senhor vai ser o bate pau daquela região ali. Se precisar prender alguém você vai prender e traz pra cá. Você vai ser uma autoridade ali”. Aí, terminou a revolução, ele foi tocando a vida, mas o nome dele ficou lá na delegacia. E quando terminou a revolução e normalizou tudo, cada um tomou seus postos. E nessas alturas o papai ficou conhecido. Mas a nossa casinha lá na roça, no Córrego Seco, ficou alembrada pra esses policiais.
Nessa época, dessa nossa casa até a cidade devia dar uns 70 quilômetros, mais ou menos. Morria gente cá, punha num banguê lá, não era nem nesse caixão que faz assim, levado na mão. Não tinha condição nem nada, levado na mão lá pra cidade. Então, houve a necessidade de fazer um cemitério lá. O papai e os outros amigos dele fizeram uma igrejinha lá. Papai pegou o cemitério de empreitada da prefeitura pra fazer. Mandou derrubar uma sapucaia lá, rachou e trouxe. Deve estar até hoje lá. E o papai fez o cemitério. Estava pronto o cemitério, morreu uma velha lá na cabeceira de Santa Elisa. Então, os homens logo: “Vem cá, morreu” “Traz pra cá”. Mas não tinha oficializado o cemitério, papai tinha terminado, mas as autoridades da prefeitura não vieram pra oficiar o cemitério, né? Então todo mundo ficou de acordo com papai, aí conversou lá com meu tio: “Não, não tem problema. Nós vamos enterrar aí e amanhã nós vamos dar baixa lá”. Assim ficou, fez o enterro. A primeira pessoa que foi enterrada lá foi uma senhora de idade, a mãe do Chico Espanhola, dona Antonieta, outra família lá.
Daí uns tempos a vida seguiu, o papai comprou outra propriedade lá no município de Pocrane, vindo pro lado de Aimorés e de Assaraí. Então, ele pôs uma outra fazendinha lá. Era uma fazenda que tinha máquina de limpar café, máquina de limpar arroz, rodas d’água, tinha também a eletricidade pra iluminar a fazenda. Meu lazer era ajudar meu pai. Eu tinha lá meus aninhos de escola, a gente descascava milho, debulhava e levava pra moer no moinho. Prendia bezerro, tirava leite, prendia os porcos, tratava dos porcos e terminava a obrigaçãozinha e ia pra escola. E chegava na escola a gente ia, a meninada ia bem antes de começar a escola pra jogar bola na frente da escola. A escola era na fazendinha de um fazendeirinho lá, até na frente assim da escola era cheio de esterco, bosta de boi, esse negócio. As primeiras bolas que a gente brincava eram bolas feitas de meia. Botava meia e enchia de pano velho. As mamães sempre costuravam aquela bolinha. Era o meu lazer aquilo.
O meu pai fez uma tragédia, ele se suicidou, ele tomou formicida Tatu. E ele está enterrado lá em Assaraí, no município de Pocrane. O meu sonho, se eu pudesse, ir lá conversar com os prefeitos de lá, fazer uma sepultura pro meu pai lá no cemitério que ele fez. Aquele túmulo que nós fizemos pra ele lá em Assaraí, está lá a foto dele, tirar os restos mortais dele e trazer pro Córrego Seco, pro cemitério que ele fez. Esse é um dos meus sonhos. Quando ele se matou eu tinha 18 anos, foi em 1952. O meu pai gostava de beber. O meu irmão montou um negócio de jogo, toda vida foi viciado em jogo. Então, tinha um joguinho num canto lá no quarto, ficou meu irmão lá jogando com uns caras. E tinha um cara lá que era soldado foragido, o cara fugiu da polícia. Naquela região ele batia em todo mundo, ele dominava todo mundo. E o meu irmão encrencou com esse cara e brigaram. Meu irmão saiu de casa, tirando a garrucha, saindo pra fora e o outro vinha com uma faca e um chicote na mão, um barbeiro foi tentar segurar o cara. Todo mundo escutou um tiro e caíram dois homens mortos no chão. Papai chamou o advogado, escondeu ele. Faltavam três meses pro júri, papai apresentou ele lá, prendeu, ficou três meses preso, entrou no júri e saiu livre, livre. Aí esse meu irmão ficou bravo, ficou valente, criava problema com todo mundo e o papai acudindo daqui, acudindo dali, e ele não foi morto porque papai era uma pessoa de nome, de respeito, consideração, as pessoas toleravam. Então um cara noivou com a minha irmã. E como esse meu irmão era um cara valentão, encrencou com o noivo da minha irmã. Esse rapaz chamou a minha irmã e terminou o noivado com ela. Quando o papai ficou sabendo já tinha acabado o casamento, aquilo foi uma tragédia na cabeça do meu pai, porque ele gostava muito desse rapaz. Quando acabou o casamento, passou poucos meses, aí ele só bebia, só bebia, saía, bebia. E aconteceu dele suicidar.
Eu casei em 1960, com 25 anos. A minha esposa é muito simples. Aquelas meninas antigas, aquele respeito dos pais, da mãe. Casei com ela por amor, por paixão. Eu vivi 53 anos, vivi apaixonado por ela. Fui honesto com ela. Eu tive muita namorada. Mas namorar de longe, fazendo frete. Eu abracei minha mulher na semana que nós fomos casar. Porque eu dei um abraço e tinha uma porção de menina perto, tudo vigiando. Quando eu casei eu tinha uma venda na casa. A gente era colega de escola, eu comprei uma vendinha que era na propriedade do meu sogro. Eu casei lá no Córrego Seco, fiquei dono daquela vendinha. Depois nós fizemos inventário lá, separou, comprei um outro pedaço de terra. E daquela terra peguei, vendi e fui pra dentro da cidade de Mutum. Lá eu pus venda e tal, depois comprei caminhão, uma vidona. Na verdade, antes de eu vir pra São Paulo eu queria ir pro Paraná. Eu já estava casado, estava no Mutum, tinha um caminhão, trabalhava. A minha esposa estava grávida do primeiro filho nosso que chama José Luiz Dias Filho. Ela foi na casa de outro irmão em uma outra propriedade pra baixo, foi de charrete. Ela estava barrigudona, foi junto com ela uma prima dela que era casada com meu irmão. Antes de chegar lá os arreios desarrumaram, foi em cima da égua, o animal que puxava a charrete e ela disparou morro abaixo, uma descida assim. O meu irmão e a minha cunhada pularam fora da charrete. A minha mulher, barriguda, agarrou o pé no estribo da charrete e foi arrastada. Eu estava na venda, peguei um jipe e levei pra Mutum. Mutum não tinha médico. Aí levamos pra Aimorés. Aí, deixaram ela internada lá na Santa Casa e eu voltei pra Mutum. Quando nasceu, fui lá buscar, fui pagar. Aí, fui lá paguei as despesas todas, pus ela no ônibus e viemos pra nossa casa. Esse é o primeiro filho, José Luiz Dias. Eu tive nove filhos. Lá no Mutum nasceu esse, José, e quando eu vim pra São Paulo nós trouxemos um menino com um ano e seis meses, chamado Geraldo, e ela trouxe na barriga a Marisa, a outra filha mais velha. Nós viemos em 1965. Quando eu estava no Mutum, o caminhão fazendo carreto e tudo, eu peguei uma mudança de uns caras lá pra levar pra Campo Mourão, no Paraná. E os outros companheiros, amigos da onça: “Ah, não vai com esse caminhão, esse caminhão vai quebrar com isso, vai encravar esse povão tudo aí, não faz isso, não”. Vendi o caminhão e passei a mudança pra outros caras fazerem. Então eu fiquei mais uns seis meses, lá no Mutum e de lá que eu vim pra São Paulo. Vim morar em Diadema. Eu estava no bairro do Jardim Portinari. Vieram uns primos meus que começaram a trabalhar na Padaria Santa Teresa, na Praça da Liberdade. Eles moravam lá na Piraporinha, então por intermédio desse primo meu que eu vim pra Diadema. Quando eu vim pra Piraporinha já tinha outros conterrâneos por ali. De um outro conterrâneo meu eu comprei esse terreno no Portinari, com casa e tudo. Uma luta aí.
Eu comprei uma barraquinha de fruta em frente a Forjaria São Bernardo e trabalhei uns quatro, cinco meses ali. E de lá de São Bernardo nós vínhamos fazer compra aqui no mercado. Tinha um bar perto, o cara tinha uma barraca de frutas e eu comprei do cara a barraca pra ir trabalhar. Aí achei que aquilo não era futuro, fiz conhecimento com o pessoal da firma lá. Trabalhei na Forjaria São Bernardo até eu ser demitido no dia 1º de abril de 70. Eu trabalhei quatro anos lá. A firma foi vendida. Desse trabalho, eu saí, fui trabalhar na Mercedes-Benz, trabalhando na profissão que eu aprendi na Forjaria, operador de Máquina. Quando eu trabalhava na Mercedes Benz, veio esse meu irmão, eles quebraram lá e vieram pra São Paulo. Ele comprou um terreno de um pernambucano lá em Diadema e deu uma parte em dinheiro e ficou devendo. Depois ele não arrumava o dinheiro, voltou lá em Minas e não teve um parente que emprestasse dinheiro. Ele fica me atentando, me xingando, vou cobrir ele na peixeira. Aí pedi ao chefe da forjaria da Mercedes Benz me mandar embora. Peguei o dinheiro, emprestei lá pra ele.  Logo em seguida eu já entrei na Volks. Trabalhei sete meses lá e pedi a conta. Fui trabalhar por conta, quebrei a cara. Deu tudo errado. Minha intenção era comprar uma máquina de raspar taco. É o que estava na moda naquela época, a gente raspava o taco, punha cascolac, sinteco, ficava o piso bonito. Aí comprei a máquina pra raspar, quando eu entrei no negócio, não explorei, nem nada, tinha raspador de taco pra tudo quanto é lado. Você dava um preço, o outro ia lá e dava o outro e dava o outro. A pessoa que trabalhasse mais barato fazia alguma coisa. Eu me ferrei. Aí passou, passou o tempo, parei de raspar taco e fui trabalhar de pedreiro. Fui trabalhar de pedreiro. Trabalhei de pedreiro e não progredi.
Sobre a minha vista a história é a seguinte. Comecei a tratar lá na Fundação ABC. Aí surgiu a propaganda das Clínicas: Mutirão da Catarata. Parei lá e vim pras Clínicas. Entrei aí, era uns dois mil velhos na portaria das Clínicas. Mas eles não fizeram o mutirão da catarata, não era pra curar ninguém, não. É pra levar bastante velho pra servir de cobaia praqueles médicos estudar. E eu fui um desses azarados que ele não me curou, me deixou jogado lá pro estudante e não passou médico especialista pra olhar minha vista e deixou o glaucoma acabar com a minha vista.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

UM POEMA PARA MUTUM

FOTO: MUTUM ON-LINE


MUTUM

Minha terra tem palmeiras
Onde cantam canários da terra
Onde a praça é doce
E a fonte traz lembranças

Minha terra é tão bela
Que todo o dia penso nela
Alegria de chegada
Tristeza de partida

Onde ausentes se tornam presentes
No meio certo do ano
Onde não existe engano
Ao declarar meu amor

Cidade invejada por muitos
Pedra fincada eterna
Onde fiz minha morada
Mesmo que no coração

Poesia em forma de praça
Saudade em forma de pedra
Felicidade em forma de ruas
Amor em forma de ave

Mutum, doce lembrança.


Wagner Fonseca

terça-feira, 8 de agosto de 2017

OS INDRISOS DE ANA HUBNER

Ana Hubner, uma poetisa a ser conhecida, estreia em nossa Pentalogia Poética nos presenteando com seus belos indrisos, esse novo estilo poético que tem cada vez mais chamado atenção de quem, condenado e aprisionado a ser instrumento da poesia, expressa a liberdade em versos.


Vagando pela seara dos sentimentos humanos, como tédio e anseio, Ana Hubner, mais que escuta, ausculta o silêncio e traduz em belos poemas o que esse incômodo e edificante companheiro tem a nós dizer.


ILUSÃO

Meus olhos desenham o doce querer
Embriagado pela ilusão
De viver o ato pleno de existir

Em sonho, acaricio o mapa lúdico
Ferindo a alma, a realidade é densa e cruel
Viajo na eternidade do tempo

Num espaço infinito vejo

Uma vã luta e seus ciclos



TÉDIO

No indelével espaço da alma
Todo o mistério do viver
Intensa angústia da existência

Entre a sombra e a luz
Contemplo o mar mudo
Água adormecida

Sou fonte, sou ferida

Anseio e tédio
  

VOCÊ

Você é meu raio de sol
Luz que desperta
Meu coração de pedra

Sem você, meus dias são escuros
Vazios do amor que sonhei
Esperei, espero, esperarei

Teu sorriso, uma prece

Teus olhos, meu farol!


O SILÊNCIO

Ergo o olhar da estrada
Sinto saudades do outono
Deito-me nua ao luar

Minhas mãos cheias de desenhos
Acolhem o silêncio
O vazio do existir

Entre mim e o que penso

Resta apenas a sombra do voo


VEJO

No silêncio calado de nós dois
No lapso indeciso do tempo
Renovo a esperança com olhos gastos

Com pupilas dilatadas vejo
A gota d’água, o papel, o fio de cabelo
A partícula do mundo

Sem refúgio, insisto ver o luar

Sonhando, sou eu só




OUTRAS PENTALOGIAS POÉTICAS





sexta-feira, 4 de agosto de 2017

BANDAS CAPIXABAS: REZA FORTE

FAZ PARTE DA HISTÓRIA CULTURAL DE MUTUM: A banda REZA FORTE foi fundada no final dos anos 70 em Cachoeiro de Itapemirim/ES. Durante décadas o Reza Forte lotou clubes por esse Brasil. Com varias formações, algumas clássicas, o grupo que fazia bailes, gravou LP’s e CD’s com canções próprias ao longo de sua existência. Fica aqui a lembrança do inesquecível Robson, um dos maiores cantores capixabas.







BANDAS CAPIXABAS: REZA FORTE: .

domingo, 30 de julho de 2017

A SINTONIA DO OLHAR FAUNÍSTICO DE JORGE ALVES

Essa pentalogia além de contemplar o poeta espirito-santense de São Mateus, mas residente em Vitória-ES, é também uma consideração ao nosso blog por um dos nossos leitores e parceiros, Juarez Mariano (Juarez da Lojinha) que nos apresentou o trabalho de Jorge Alves.

Durante o tempo que morou em terras capixabas, Juarez Mariano teve contato com vários escritores e pouco a pouco nos revela os trabalhos desses artistas.

Os poemas que reproduzimos são extraídos do livro Sintonia Do Olhar. O primeiro poema é o que dá título à obra e nos descreve o sol, fonte de energia para a vida na Terra. Os outros quatro têm em comum a descrição poética da fauna através das formigas, da preguiça, da relação entre as abelhas e suas classes sociais, uma metáfora das relações humanas. E por último aborda o desconforto do animal na selva de concreto. Boa leitura de cinco poemas em nossa série Pentalogia Poética.

SINTONIA DO OLHAR

Vemos o sol ao longe
nos giros que a terra dá
como um olho no universo
sempre a no acompanhar.
Iluminando nossos dias
e noites faz clarear,
em um flerte discreto
por trás do corpo lunar.
Trazendo o tempo para nós
sintonizados no seu olhar.


FORMIGAS

Formigas amigas, unidas
um exército a caminhar
apenas trabalham
não pensam em guerrear.

Carregam insetos
com a força que tem
e enormes vegetais
elas levam também.

O único objetivo
é alimentos guardar
para no inverno
poderem saborear.


PREGUIÇA

Lá vai ela
do seu jeito devagar
com braçadas preguiçosas
na árvore a escalar.
Sem preocupar-se com o tempo
nem hora de chegar
vendo espatifar no chão
frutas a se despencar.
Lá na ponta bem no alto
irá se refugiar
de predadores terrestres
que vierem lhe caçar.


DESLIZE NA COLMEIA

A rainha percebe
baixa produção
em uma das operárias
e quer saber a razão.
Rápida e discreta
começa a investigação
sendo surpreendida
com tamanha traição.
Descobre que a malandrinha
arranjou uma paixão
e ao invés do trabalho
vai namorar o zangão.
Abafa o acontecido
sem promover discussão
prendendo-os separadamente
matando-os de solidão.


BICHO SOLTO

Que lindo o mundo animal
quando se encontra
em seu habitat natural!
Presos em selva de pedras
leva uma vida infernal
são ditos de estimação
enquanto só têm ração
depois de cada apresentação.
Homens se dizem amigos
usando deturpação
e no curso da natureza

causando diminuição.


REGISTRO DO TRABALHO DE JUAREZ ALVES

OUTRAS PENTALOGIAS POÉTICAS AQUI NO MUTUM CULTURAL






terça-feira, 25 de julho de 2017

A ESCRITA CRIATIVA EM MUTUM - PARTE 3/3


Após a pausa do fim de semana, retornamos com as entrevistas da série Programa Especial Com Escritores Mutuenses dentro do Giro do Mutum, em comemoração ao Dia Nacional do Escritor. Abaixo as síntese das participações de Eni Gomes de Oliveira e José Ronaldo Siqueira, e nas considerações finais, o locutor Marcos Adriano.

ENI GOMES DE OLIVEIRA

24.07.2017

Eni Gomes de Oliveira, ou Tia Eni para muitos, compartilhou suas atividades de escritora e, sobretudo, poetisa, com os ouvintes da Rádio Cultura. Apesar de acreditar que escrever de forma criativa seja um dom, seu despertar para a literatura se deu com o saudoso professor Odilon através das redações na escola. Ainda da época de estudante, seus autores preferidos eram José de Alencar, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. Mas a obra que realmente lhe encantou foi O Pequeno Príncipe.

Ela expressou sua constante leitura para aumento do vocabulário. E em horas não esperada, o poema vem. E quando isso acontece, é preciso por no papel, senão passa.
Cita também como escritor da sua lista de leitura J.G. de Araújo Jorge, poeta acreano. Prefere os poemas com rimas.
Mutum se faz presente em seus poemas. Principalmente na sua única obra publicada até aqui, Poemas e Orações, publicação do próprio autor. Mesmo longe da nossa terra, nos Estados Unidos, por exemplo, é de Mutum que ela lembra. Da Matriz São Manoel, da praça principal e da pracinha em frente à casa de seus pais. Recorda, por exemplo, quando a igreja de São Sebastião era perto da pracinha (Praça Raul Soares, onde funciona a feirinha). Expressa, em seus versos, os sentimentos nas várias etapas da vida.


JOSÉ RONALDO SIQUEIRA

25.07.2017

Nossa série se completa com José Ronaldo Siqueira, que mesmo não sendo mutuense da gema, acabou sendo da clara. Segundo ele, despertou para a escrita quando aqui já morava. Um prelúdio das suas escritas foi quando no fundamental, uma redação sua foi lida várias vezes. Mas foi o
texto que escreveu perante uma discussão entre dois ex-colegas de faculdade, já morando aqui na terrinha da Guaxima, a centelha para enveredar-se na escrita criativa. O texto veio a ser publicado no jornal de literatura da sua faculdade. A partir daí escrever para ele virou cachaça.
Seu modus operandi é escrever com mais intensidade quando viaja. Há também a inspiração dentro de sala, enquanto seus alunos estão fazendo as tarefas.
Dos escritores brasileiros ele cita João Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Ele gosta dos textos que trazem fluxo de consciência quando o narrador vai e volta no tempo. Cita suas referências na literatura universal como James Joyce, Virgínia Woolf, William Faulkner entre outros. 
Como professor de Língua portuguesa, inglesa e espanhola e de literatura, José Ronaldo é fascinado pelo modo de expressar das pessoas. Ele percebeu que mesmo dentro do mesmo município, como Mutum, ele captou diversidade entre o linguajar do Himalaia para o linguajar de Roseiral, por exemplo. Esse modo diversificado de se expressar está presente em sua literatura.
Participa ativamente de concursos. Aconselha aos que querem divulgar seus textos, que também participe. Cita com exemplo o blog Concursos literários. Para ser escritor é preciso ser um bom leitor. Escreva, uma hora vai ser publicado se assim Deus quiser.
Com diversas participações em antologias, ele também destaca eu livro de contos O Prisioneiro e de microcontos, Historinha É O Escambau, fruto da sua bem sucedida participação no Prêmio Microcontos Escambau.

Nota: Em literatura, fluxo de consciência é uma técnica literária, usada primeiramente por Édouard Dujardin em 1888, em que se procura transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de ideias.


Mais sobre José Ronaldo Siqueira 
no blog Mutum Cultural:






AS CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essa série de entrevista não seria possível sem a comunicação objetiva do apresentador do Giro do Mutum. Nessa última postagem de uma série de três, é dele as considerações finais:
 
Marcos Adriano entrevistando nossos
convidade
No decorrer desses sete dias de entrevistas, eu e os ouvintes do Giro do Mutum, tivemos o privilégio de conhecer um pouco da vida e obra de alguns dos muitos escritores mutuenses e com eles adentrarmos ao mundo da literatura. Mundo esse tão desconhecido por nós brasileiros.

É um fato incontestável que não só em Mutum, mas que em todo nosso país há um resumido número de escritores que conseguem publicar seus escritos, e um número ainda menor de mecenas, amantes e financiadores da arte em geral, que apoiam os nossos escritores que, a ser desprovidos de tal apoio, permanecem na sombra do anonimato.

Para esses que “jazem” no anonimato, digo que perseverem e continuem a confessar suas inspirações para o mais fiel confidente que é o papel, e quem sabe, talvez em um futuro próximo ou distante, esse confidente fiel lhe traía a confiança e traga a tona suas mais profundas confissões.

Já para aqueles que têm suas obras publicadas, não digo sequer uma palavra diferente, mas por outro lado imploro a vocês que também perseverem no ofício da escrita, pois é isso que a própria escrita ou a arte em geral faz, persevera, rompe as barreiras do tempo como fizeram as obras homéricas. Perseverem e tornem eternas as impressões do homem nas páginas da História que nem sempre é fiel aos fatos, mas que nem assim deixa de ser nossa história.

Além de eternizar o homem, a arte da escrita também tem o papel de entretê-lo e por que não engajá-lo em uma demanda social contra as tiranias e em favor da liberdade. Liberdade essa que é uma das melhores definições para a escrita, pois essa, na minha sincera e humilde opinião, não deve seguir os padrões ortográficos e muito menos deve ser sistematizada em formatos previamente estabelecidos , cada qual deve escrever sendo fiel à sua identidade que só é conquistada com sua dita liberdade. Não sejamos hipócritas de desprezar verdadeiras pérolas, no bom sentido da palavra, como “a gente somos inútil” ou “seu doutor me dê licença pra minha história contar” ou “eu so fio do nordeste não nego meu naturá”. Versos como esses e muitos outros são confissões fiéis daqueles que as escreveram. Por isso, são a mais pura arte, afinal “pão e pães é questão de opiniães”.

Marcos Adriano se preparando para entrar no ar


Para terminar, agradeço aos que acompanharam as entrevistas e também aos que as cederam, e esses eu me dei ao trabalho de definí-los em poucas, porém descritivas palavras. Muito obrigado ao clássico Olívio Araújo, ao inusitado Francisco Fagundes, ao humilde Cláudio Mendes, ao devorador de rosas Gisélio Alencar, à fiel saudosista Patrícia Soares, à maior mutuense Eni Gomes e por fim ao “maior” escritor de todos esses, meu amigo, José Ronaldo. Obrigado!

Marcos Adriano (Locutor da Rádio Cultura)

NOTA DO BLOG: Contamos que em 2018 possamos novamente fazer essa parceria com a Cultura FM 87,9.



MAIS POSTAGENS SOBRE 

O DIA NACIONAL DO ESCRITOR:




DIA DO ESCRITOR


"Escrever é estar no extremo de si mesmo"
João Cabral de Melo Neto

Ser escritor não é uma tarefa fácil, e não são muitos os que o conseguem. Trabalhar com palavras pode ser uma dádiva nas mãos certas. Há algo mais poderoso que palavras?

As palavras tem o poder de nos mudar, nos fazer chorar e rir. Elas causam ódio e amor ao mesmo tempo. Escritores são criadores de um mundo fantástico, melhor do que o que habitamos. Um mundo chamado Terra da Imaginação.

Sim, imaginação. O escritor pode ser descrito exatamente assim: Uma pessoa que imagina e sente correr nas veias a necessidade de transmitir o que se sabe, o que se cria e o que se sente.

Os escritores são aqueles que proporcionam voos ao céu com os pés no chão, propiciam navegas por todos os mares do mundo, ainda desconhecidos. 25 de julho: Dia do Escritor. Queremos enaltecer toda a criatividade e inteligência daqueles que colocam todos em contato com novas culturas, novas vidas e novos mundos. Agradecer àqueles que contam histórias para dormir, histórias para refletir, histórias que fazem acordar para a vida. Seja fantasia, seja real, não há segredo, um bom livro pode mudar toda uma vida.

A todos vocês, escritores, nossa sincera homenagem!

(Mensagem de abertura da série de entrevista PROGRAMA ESPECIAL COM ESCRITORES MUTUENSES)

Heloísa Alves

segunda-feira, 24 de julho de 2017

UM POETA CHAMADO MUTUM

Entrevista com Jorge Sanglard
José Henrique da Cruz entre amigos em Juiz de fora,
a direita, Jorge Sanglard, o nosso entrevistado

Para ilustrar melhor nossas postagens a respeito do dia do escritor a ser celebrado amanhã, 25 de julho, buscando na internet sobre “literatura de Mutum”, deparamos com o TCC de Suzana Azevedo Reis, estudante de Comunicação Social na UFJF, Bar Brazil: A Contestação Estudantil Em Palavras entre outros poetas, Mutum. Em uma das páginas ela nos explica quem é Mutum. Trata-se de José Henrique da Cruz.
José Henrique da Cruz nasceu em 1957 na cidade de Carangola-MG. Viveu a partir de 1971, em Mutum-MG. Em 1972 mudou para Juiz de Fora para cursar o ensino médio, onde tomou contato com o professor e poeta Gilvan Ribeiro. Estudou Comunicação Social e trabalhou em vários jornais. Tornou-se um dos poetas locais mais reconhecidos. Morreu em 2003 em um acidente automobilístico ocorrido entre Mutum e Aimorés.
José Henrique da Cruz é um biografável por tudo que ele representou e ainda representa para quem o conheceu. No entanto, o recorte da nossa postagem é o seu produzir poético. Quem é esse poeta chamado Mutum? Para nos responder essa pergunta, o blog Mutum Cultural teve a honra de obter uma entrevista de um dos seus amigos e companheiros em Juiz de Fora-MG, Jorge Raimundo Sanglard de Paula.

A ENTREVISTA


 MUTUM CULTURAL: Antes de começarmos a falar do tema principal do nosso bate papo, José Henrique da Cruz, conhecido com Mutum, gostaríamos que você se apresentasse para o leitor do nosso blog Mutum Cultural.
 JORGE SANGLARD: Sou jornalista e pesquisador nas últimas quatro décadas em Juiz de Fora. Nasci em Juiz de Fora, morei desde pequeno e até 1971 em Manhuaçu, perto de Mutum. Em 1972 foi estudar Mineralogia em Ouro Preto e voltei a Juiz de Fora em 1975. Em 1976 iniciei o curso de Jornalismo na UFJF e encontrei o José Henrique da Cruz já no primeiro dia de aula e nos tornamos amigos e parceiros desde então. Atualmente, sou o Gerente do Departamento de Acervo Técnico do Museu Mariano Procópio. Coordenei a antologia "Poesia em Movimento", reunindo a produção poética de 42 autores contemporâneos com atuação em Juiz de Fora nos movimentos "Poesia", "Bar Brazil", "D' Lira" e "Abre Alas", entre 1975 e 2000, com destaque para a obra poética de José Henrique da Cruz. O livro conta com apresentações de Gilvan P. Ribeiro e Affonso Romano de Sant' Anna e foi publicado pela Editora UFJF em parceria com a Funalfa Edições pela Lei Municipal de Incentivo Murilo Mendes, em 2002.
   Iniciei minha carreira profissional na década de 1970, ao lado de José Henrique da Cruz, o Mutum, como um dos fundadores do jornal alternativo "Bar Brazil" e da revista "D’Lira". Ajudei, juntamente com o José Henrique da Cruz, a manter o movimento "Poesia". 
   Como jornalista, desencadeei nas páginas da Tribuna de Minas a campanha pelo resgate da importância cultural do Museu Mariano Procópio, o primeiro museu de Minas, que tem um dos mais significativos acervos do período colonial e imperial do país com mais de 55 mil peças.
   Como conselheiro do setor Literatura, por dois períodos, ajudei o Conselho Municipal de Cultura a formular o Plano Municipal de Cultura de Juiz de Fora aprovado na Câmara Municipal por unanimidade.
   Sou colaborador especial do jornal quinzenal “As Artes Entre As Letras”, no Porto, em Portugal. Fui assessor de imprensa na Ordem dos Advogados do Brasil Subseção Juiz de Fora. Colaborei, como pesquisador, com o Instituto Cultural Cravo Albin, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira / Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira (onde tive a honra de ser verbete como crítico de música), ajudando a redigir os perfis de compositores e músicos de Juiz de Fora e da Zona da Mata mineira, reconhecendo e valorizando nossos talentos musicais.
   Coordenei a realização da "Primeira Mostra de Arte Universitária Mineira", na UFJF, em 1977. Ajudei a articular o Som Aberto, realizado pelo DCE, na UFJF nas manhãs de sábado, a partir de 1976.
   A partir de meados dos anos 1970 e até 1981, produzi alguns dos principais shows do Circuito Universitário, em Juiz de Fora (MG), realizados por Gonzaguinha, Luiz Gonzaga, Elomar, Dércio Marques, Gilberto Gil, João do Vale, Alceu Valença e Aniceto do Império. Produziu também apresentações de Egberto Gismonti, Arthur Moreira Lima e Clara Sverner.
   Atuei, entre 1981 e 1997, como repórter de cultura e diagramador do "Caderno Dois" do jornal "Tribuna de Minas" e também trabalhei na Tribuna da Tarde.
   Em dezembro de 1998, co-produzi, no Theatro Central de Juiz de Fora, a pré-estréia do show "As cidades", de Chico Buarque.
   Como programador visual, ajudei a elaborar o projeto gráfico da "Tribuna da Tarde", criei a capa e o encarte dos discos "Alpendre", "Nuances" e "Intuitiva melodia", do compositor, violonista e guitarrista mineiro Chico Curzio, e a arte do encarte do disco "Traços na parede", também de Chico Curzio. Elaborei o projeto gráfico do CD "Sertão das Miragens", de Luizinho Lopes e Marcela Lobo, e assinei a apresentação dos CDs "Caminhos Gerais" (Ronaldo Cadeu & Daniel Morais), "Mamão com açúcar" (Armando Aguiar, o Mamão), e "Batuque de negro" (Geraldo Santana).
   Junto com o artista gráfico Jorge Arbach e com o crítico de literatura Gilvan P. Ribeiro mantive, semanalmente, uma página de literatura no "Caderno Dois" da "Tribuna de Minas" e na “Tribuna da Tarde". 
   Ao lado do jornalista e crítico de arte Walter Sebastião, ajudei a articular o movimento e a campanha "Mascarenhas, meu amor" que, no início dos anos 1980, mobilizou artistas e a comunidade para a transformação da pioneira Fábrica Bernardo Mascarenhas no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas em Juiz de Fora.
   A partir de 1993, atuei na pesquisa, na divulgação e na luta pelo tombamento e restauração de dois ícones da arte moderna a céu aberto em Juiz de Fora: o painel em azulejos "As Quatro Estações", criado em 1956, por Candido Portinari, para a fachada do Edifício Clube Juiz de Fora, e o "Marco do Centenário de Juiz de Fora", primeiro monumento abstrato e concretista em praça pública no Brasil, projetado em 1949 por Arthur Arcuri, engenheiro-arquiteto modernista, e trazendo ainda o primeiro mosaico em vidrotil na concepção modernista criado em praça pública no país, em 1950, por Di Cavalcanti, e inaugurado em 1951.
   Tive atuação decisiva na redescoberta e no resgate da cidadania cultural do compositor, cantor e violonista De Moraes, autor da letra de "Minas Gerais", o "hino" popular dos mineiros, canção eleita pelo voto popular como a música do século XX em Minas Gerais, pela TV Globo Minas. Realizei a pesquisa e ajudei a articular a edição do CD "De Moraes", lançado pela Allca Music, com produção de Cléber Camargo, recuperando, a partir de originais em 78 rpm, 14 canções de um dos principais compositores mineiros da era do rádio, nos anos 1940 e 1950.
   Fui autor do projeto e do texto do livro “JF Anos 80”, que reuniu fotos históricas de Juiz de Fora na década de 1980 de autoria de Humberto Nicoline, também publicado com apoio da UFJF pela Funalfa Edições, aprovado pela Lei Municipal de Incentivo Murilo Mendes.
   Integrei o Conselho Diretor do Cine-Theatro Central e, entre janeiro de
Antologia poética organizada por Jorge Sanglard
com participação de José Henrique da Cruz
1997 e junho de 2003, exerci a função de Assessor de Relações Públicas da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), em Juiz de Fora, onde editei a "Revista de Cultura AZ" e ajudei a editar o jornal “Orpheu”. Colaborei com o jornal musical "International Magazine" e com o "Jornal do Rock". Colaborei com os jornais "Movimento" e "Em Tempo", nas sucursais de Minas. Fui colaborador especial do caderno semanal “das Artes das Letras” do jornal O Primeiro de Janeiro, no Porto, em Portugal. Colaborei com o Portal Literário Cronópios, em São Paulo, e com o jornal literário "Rascunho", de Curitiba, além dos jornais mineiros "Hoje em Dia" e "Estado de Minas". Fui primeiro-secretário do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Juiz de Fora e seu representante junto à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).


MUTUM CULTURAL: Como você define José Henrique da Cruz?
   JORGE SANGLARD: José Henrique da Cruz encarnou a poesia como
poucos escritores. Viveu a poesia no dia a dia e ajudou a criar e a consolidar um dos mais importantes movimentos poéticos brasileiros a partir de meados dos anos 1970, com o folheto Poesia, o jornal Bar Brazil, e a revista D'Lira. Além de ser um grande poeta tinha um faro para editar poesia e ajudou a revelar muitos nomes que se consolidaram no universo poético e literário mineiro e brasileiro. Encontrei Mutum no primeiro dia de aula no curso de Jornalismo na UFJF e, desde esse dia, nos tornamos amigos e parceiros. 


MUTUM CULTURAL: Como foi a criação do folheto Poesia na UFJF?
   JORGE SANGLARD: A sensibilidade poética foi o fio condutor que reuniu, inicialmente, Gilvan P. Ribeiro e o saudoso José Henrique da Cruz (1957 – 2003) na articulação do folheto Poesia, em 1976, já na Universidade Federal de Juiz de Fora, após os sete primeiros exemplares terem sido editados com o apoio do Colégio Magister, em 1975. A partir daí, cada vez mais, foi sendo forjado o coletivo que deu sustentação ao
folheto Poesia, ao jornal Bar Brazil, ao folheto Abre Alas e à revista D’Lira. Ao conhecer Mutum, no primeiro dia de aula de Jornalismo na UFJF, conversamos sobre o que cada um de nós fazia e ele citou os folhetos Poesia editados no Colégio Magister por inspiração do professor de Literatura Gilvan P. Ribeiro. No segundo dia de aula, ele trouxe os folhetos e começamos a buscar a parceria de alguns novos poetas na UFJF. Na nossa sala mesmo encontramos a Raquel Scarlatelli. Assim, Minas Gerais viu florescer, a partir de 1975, em Juiz de Fora, uma geração de novos poetas e escritores que, hoje, são destaque no cenário contemporâneo da literatura brasileira: Luiz Ruffato, Iacyr Anderson Freitas, Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fábio Fiorese Furtado, José Santos, Sérgio Klein, Fabrício Marques, Eustáquio Gorgone, Júlio Polidoro, Knorr, Walter Sebastião, entre outros. Em 1975, trabalhando como professor de Português no Colégio Magister, Gilvan P. Ribeiro conseguiu articular o apoio da direção para fomentar um movimento de poesia, possível graças ao entusiasmo dos alunos. Em parceria com o Diretório Central dos Estudantes da UFJF, a partir de 1976, começaram a sair os folhetos com o título Poesia. Mimeografado no Colégio com papel cedido pelo DCE, o folheto funcionou como um ímã, ampliando-se bastante a partir da ideia inicial, dado o número de interessados que se manifesta na época. Distribuídos na rua, passaram a atrair mais gente. O grupo
Cartaz do evento musical Som Aberto
original, logo na Universidade Federal de Juiz de Fora, onde Gilvan P. Ribeiro já estava como professor de Literatura, se reorganizaria, adquirindo uma nova feição e ampliando o número de poetas. O folheto passaria a ser distribuído — sempre gratuitamente — nos espetáculos político-musicais chamados Som Aberto, organizados pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) e realizados na Universidade e sua distribuição ganhava também as ruas centrais de Juiz de Fora, sendo levado à população todas as semanas.

 
MUTUM CULTURAL:     Qual a importância do Professor Gilvan Procópio Ribeiro para provocar em vocês, estudantes, o interesse pela criação literária?
   JORGE SANGLARD: A importância do Gilvan foi total. Ele, desde os tempos do Colégio Magister, incentivou os alunos, que iam fazer vestibular, à leitura de poesia e também ao fazer poético. Despertou o interesse para a leitura da poesia e motivou a todos em escrever poesia. Articulou a reflexão à ação e isso foi fundamental para ajudar a fazer do movimento um núcleo expressivo de novos poetas. 

MUTUM CULTURAL:     Em 2015, a estudante de Comunicação Social, Jornalismo, Suzana Azevedo Reis intitula seu TCC  Bar Brazil: A Contestação Estudantil Em Palavras, onde ela tenta demonstrar que o Jornal mencionado tem com intenção contestar a ditadura militar. O que de fato foi o jornal Bar Brazil? Juntamente com D’lira e Abre-Alas, tratava-se de continuidade do movimento literário iniciado com o folheto Poesia?
   JORGE SANGLARD: Os poetas reunidos ora na Poesia, ora no Bar Brazil, passando pelo Abre Alas, ou ainda em torno da D’Lira, deflagraram uma pulsação irresistível nas manhãs de sábado, seja no Som Aberto, na Universidade Federal de Juiz de Fora, seja nas ruas centrais de Juiz de Fora. A interação entre poetas e leitores impregnou o sentimento coletivo de cumplicidade, que permeou essa poesia em movimento constante. Exemplo vivo de cultura como via de duas mãos, como troca de influências e de reciprocidades. Agora, o jornal Bar Brazil, além de publicar poesia, abriu espaço para ensaios, entrevistas, ilustrações, fotografias. Representou um passo paralelo ao folheto Poesia e ampliou o leque de parcerias. Foi um veículo de jornalismo cultural antenado com o seu tempo, portanto, foi um jornal crítico à ditadura, mas voltado para dar voz cultural a quem não tinha voz.
  
MUTUM CULTURAL: Qual a relação desse movimento nos anos 70 com a Geração Mimeógrafo?
   JORGE SANGLARD: A relação do movimento com a Geração Mimeógrafo foi intensa. Nós tínhamos contato com todo mundo que editava poesia no país e trocávamos as publicações via Correios. A intenção de todos que usavam o mimeógrafo como matriz para as edições era difundir a boa poesia e aí, Juiz de Fora projetou grandes poetas para Minas e para todo o país. E o Mutum foi um desses grandes poetas revelados em Juiz de Fora. 

MUTUM CULTURAL:     Qual a atuação de José Henrique da Cruz nessa efervescência? Ele, assim como os demais, tinha consciência da importância história de tal movimento em Juiz de Fora?
   JORGE SANGLARD: José Henrique da Cruz foi essencial para que tudo isso acontecesse. Ele era o poeta que dava sustentação às publicações. Ele tinha um bom olho para vislumbrar um poeta promissor e, com isso, abriu alas para muita gente boa divulgar a sua poesia e mostrar o seu talento poético. A consciência da importância histórica do movimento foi sendo forjada ao longo do tempo. O que o Mutum e eu sabíamos é que só seria publicada poesia de qualidade. E isso foi essencial pra filtrar o que era bom e dar peso literário ao movimento.  

MUTUM CULTURAL: Como você acompanhou a produção literária de José Henrique da Cruz?
  JORGE SANGLARD: Acompanhei a produção literária do José Henrique da Cruz desde o segundo dia de aula no curso de Jornalismo na UFJF, quando ele levou os primeiros sete folhetos da Poesia editados no Magister. Daí em diante nos tornamos grandes amigos e encaramos a parceria pra reativar o folheto Poesia e a criação do jornal Bar Brazil e da revista D'Lira. E, mesmo depois de sair da faculdade, acompanhei a produção poética do Mutum.

MUTUM CULTURAL: Como ele reagia ao ser chamado de Mutum?
  JORGE SANGLARD: Com naturalidade. Para nós, ele sempre foi o Mutum. Agora, assinava todos os poemas como José Henrique da Cruz.

MUTUM CULTURAL: O que você destaca em suas obras Pequenos Poemas, de 1979, e O Alfabeto do Poeta, de 1982?
  JORGE SANGLARD: É importante destacar o conjunto da obra poética
Obras da Editora Funalfa nos anos 70 e 80
do José Henrique da Cruz. O Mutum era fera nos pequenos poemas, na percepção do cotidiano em sua escrita. Desde os primeiros poemas na Poesia até as suas últimas criações poéticas, sua inventividade era imensa. Toda a poesia do José Henrique da Cruz tem densidade.  

MUTUM CULTURAL: Como vocês se relacionaram durante a fase em que ele esteve em São Paulo?
   JORGE SANGLARD: Nós sempre estávamos em contato. Quando editei a antologia "Poesia em Movimento", os poemas do José Henrique da Cruz foram os primeiros a serem escolhidos. O livro é uma homenagem a toda a trajetória do Mutum como poeta. E ele esteve presente no lançamento da antologia em Juiz de Fora e em São Paulo.

MUTUM CULTURAL: Você acompanhou o processo de edição de Manuscritos Azuis? E da reedição de O Alfabeto do Poeta?
  JORGE SANGLARD: Sim, ajudei a reunir os poemas do José Henrique da Cruz. Todo mundo que participou do movimento deu a sua contribuição.

MUTUM CULTURAL: Como a convivência com José Henrique da Cruz e as atividades culturais dos anos 70 influenciou na sua carreira de produtor cultural e jornalista?
  JORGE SANGLARD: Influenciou de todas as formas. A força da poesia do José Henrique da Cruz inspirava a todos. E eu, como parceiro mais próximo na escolha dos poemas para editar o folheto Poesia, vivenciei toda a criatividade do Mutum bem de perto.  Articulamos juntos o Bar Brazil, depois a D'Lira. sempre trocando informações e vislumbrando editar o material a partir do critério de qualidade. Depois, trabalhamos juntos em redação de jornal.

MUTUM CULTURAL: O que mais podemos falar de José Henrique da Cruz para que ele continue vivo em nossa memória?
   JORGE SANGLARD: É importante manter viva a poesia do José Henrique da Cruz. E é essencial manter viva a memória da grande pessoa que foi o Mutum. Foi um cara generoso, talentoso e que vivia a poesia. Juiz de Fora deve muito ao José Henrique da Cruz por ter ajudado a forjar um dos mais importantes movimentos poéticos a partir de meados dos anos 1970. A cidade passou a respirar poesia a partir do momento em que o Mutum resolveu espalhar poesia pelo Campus da UFJF e pelas ruas centrais de Juiz de Fora. 



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“O suor do seu corpo dormiu no meu corpo/como se fosse o meu suor/Este peso, lembrante de tempo e trabalho/amor/teceu quedas e delírios em mim/com um sabor de frutas e riquezas” 
José Henrique da Cruz