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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

JOÃO CARLOS ROSA: O FLORESCER DO POETA

 

JOÃO CARLOS ROSA: 
O FLORESCER DO POETA




SÉRIE: TEMPOS DE OURO DA LITERATURA MUTUENSE – I
 
“Há no poetizar deste autor a singeleza da fé nascida dos percalços e da contemplação do viver”

Trecho do prefácio do livro Uma vida de poemas, 
por Cláudio Antonio Mendes.
 
João Carlos Rosa nasceu em 23 de junho de 1960, casado, pai de cinco filhos, morador da comunidade Barra Longa desde nove anos de idade. Nasceu em Cabeceira de Laginha de Mutum, registrado em Centenário. É presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Mutum. Teve seu primeiro livro publicado pela Lei Federal nº 14.017/2020, denominada Lei Aldir Blanc, Uma vida de poemas.
 
A lida poética de João Carlos Rosa vem da adolescência. Seus poemas não estão presos a um tema específico. O cotidiano no meio rural, a militância pastoral e social e os sentimentos de afetos e amor se misturam e pautam o seu lazer/labor na escrita criativa.
 
Em entrevista concedida no mês de setembro de 2022, ele fala do seu trabalho literário.
 
MUTUM CULTURAL: Como é seu o hábito de leitura?
JOÃO CARLOS ROSA: Sempre gostei de ler e escrever. Escrevo desde os meus 15 anos. Alguns escritos já se perderam.
 
MUTUM CULTURAL: Fale sobre o seu processo de escrita?
JOÃO CARLOS ROSA: Escrevi mais poemas, mas também escrevia peças de teatro para o grupo de jovens. A inspiração é uma coisa interessante.  Às vezes uma frase, uma palavra surge e desencadeia o processo.
 
MUTUM CULTURAL: Você pretende produzir textos em prosa, como crônicas e contos?
JOÃO CARLOS ROSA: Sim, penso em produzir prosas. Tenho alguns causos que gostaria de contar por escrito. Tenho que ler mais prosa para me aprimorar nesta forma de narrativa.
 
MUTUM CULTURAL: Você participou da Lei Aldir Blanc. Qual foi a sensação quando recebeu a informação da possibilidade de ter seu primeiro livro publicado? Comente sobre Uma vida em poemas:
JOÃO CARLOS ROSA: Assustou de início. Não esperava ser contemplado. Foi um sonho que se realizou. De repente ver seu livro impresso foi muito bom. Foi como se fosse um sexto filho. Eu selecionei para o livro os poemas que foram mais fáceis de encontrar. Coloquei o poema Pedaços, publicado no jornal Desperta Povo na década de noventa, mas acabou ficando de fora. O livro se limitava a cem páginas no máximo. A foto na capa do livro é de Barra Longa, foi para retratar o local onde moro desde meus nove anos.
 
João Carlos Rosa participando da Retomada Literária,
O Cafezeiro, dez/2021


MUTUM CULTURAL: Qual a sua interação com os outros escritores de Mutum?
JOÃO CARLOS ROSA: Já li muita coisa dos nossos autores. São bons livros. A literatura mutuense é bem promissora. Participamos recentemente da Retomada Literária n’O Cafezeiro. Tenho mais livros do Cláudio Antonio Mendes.
 
MUTUM CULTURAL: O que você planeja para esta nova década? E o que você espera da cultura municipal?
JOÃO CARLOS ROSA: Publicar mais livros. Participar de alguns projetos, alguma coletânea de forma cooperativa. A nossa cultura mutuense precisa investir mais em nossos autores, em nossos músicos, por exemplo. Nossos artistas deveriam ser mais valorizados pelo poder público. Não investir tanto e só em artistas de fora. Investir naquilo que é da cultura mutuense. Talvez as gerações futuras não vão valorizar o que temos por desconhecer nossas manifestações culturais.
 
 
NOTA DO BLOG: Esta postagem é parte do material levantado para TEMPOS DE OURO DA LITERATURA MUTUENSE – I (2011-2020).

Foto inicial: divulgação da obra na loja IBI LITERRÁRIO


PENTALOGIA POÉTICA EM
 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

PENTALOGIA POÉTICA: ZÉ RONALDO EM VIDA É ESTE INFERNO DE GUERRA QUE SE PERDE TODO SANTO DIA

 

PEQUENOS ESTILHAÇOS DA GUERRA COTIDIANA

PENTALOGIA POÉTICA DE JOSÉ RONALDO SIQUEIRA em VIDA É ESTE INFERNO DE GUERRA QUE SE PERDE TODO SANTO DIA

 

EDITORA: LIBERTINAGEM

ANO DE PUBLICAÇÃO: 2022

 

Somos soldados em uma guerra diária pela sobrevivência. Isto é fato. Então cada um veste sua farda, suas farpas, sua armadura, alma-dura, e parte para o campo de batalha. Seja no emprego, seja no empréstimo. Seja na produção, seja na prostituição. Tudo é consumo e todos somos insumos. É uma das conclusões possíveis em Vida é este inferno de guerra que se perde todo santo dia. Livro de poema lançando este ano pelo escritor residente em Mutum José Ronaldo Siqueira. Seus poemas sãos estilhaços desta guerra. Optamos nesta pentalogia por poemas menores, não pelo tamanho, mas pela concisão e pela temática/pólvora contida nos versos do poeta.

Os cactos também se abraçam

Línguo a presalização da fera

Empedregulho o lacrimar do tempo:

A ansiolitização das esquinavidas

Os premeditos do desejosamente

O enluvamento do luto-líquido

O arf-arfar no onomatópico do leito-leitoso

Inimprecisar o lapsamente do almar

As harpias só andam, agora, de Uber

Elas já não sabem mais

(Ou não querem)

Conjugar a terceira pessoa do plural

Do verbo

Coração. 

 

Dá nisso mesmo

Às vezes

Oxigênio

Mancha meu pulmão

De

Vida...

 

Poesia de combustão

Palavras queimadas

Não geram poemas

A gênese da poesia

Se encontra

Na alma

Incendiária.

 

Náufrago

Eu

Na casa de mim

Evitando as enchentes

Evitando as nascentes

Evitando-me.

O vago opaco

Eu

No corpo dos outros

Na alma alheia

Defendendo

De mim.

Espelho reverso

Reflexo da sombra

O vago opaco

Esquecido por ti.


Estamos na trincheira da cultura, pois sabemos que “é só a arte para nos defender” como escreve o prefaciador Whisner Fraga.


COMO ADQUIRIR O LIVRO?

instagram do autor: @zeronaldo_siqueira


Nota do blog: Esta postagem foi publicada originalmente no blog Resenhas do Cláudio. Republicada aqui por ser um autor que reside em Mutum.

sábado, 20 de agosto de 2022

DESTINO: A ESCRITA CRIATIVA DE SYLVIA LAIGNIER

 
DESTINO: A ESCRITA CRIATIVA DE SYLVIA LAIGNIER

 

A imersão de Sylvia Laignier no universo do mercado literário com sua obra comercializada em forma digital na Amazon é mais uma evidência de que Mutum é uma terra literária para além de Guimarães Rosa.
 
Neste pequeno bate-papo, a autora de Para onde ir? nos fala do seu primeiro livro da série Universo Segredos para o blog Mutum Cultural.
 
Quando e como surgiu o seu envolvimento com a escrita criativa?
Meu envolvimento com escrita começou na infância, logo que aprendi a escrever. Eu passava muito tempo com a minha avó paterna, enquanto meus pais trabalhavam, consequentemente como ela sempre foi envolta com leitura e escrita, nós duas passávamos horas escrevendo prosas e poesias.
 
E a ideia da série Universo Segredos? Ela veio antes ou depois de Para onde ir?
Esta questão foi engraçado. Quando eu tinha uns 13 anos estava totalmente indignada que os personagens masculinos dos romances que eu lia nos livros não eram muito legais, por exemplo, ciúmes, palavras torpes e etc, eu tinha ficado com raiva e minha amiga apenas disse "se está ruim, faz você algo melhor", meio que eu levei isso ao pé da letra e acabei fazendo um personagem com falhas, mas ainda sim uma ótima pessoa, por isso que o Ismael surgiu.
 
O que o leitor encontrará em Para onde ir?
Uma leitura mais fluída e calma, conflitos familiares, risadas, romance água com açúcar e indícios de amores para toda vida com os meninos.
 
Os quatro personagens principais, Marcos, Hugo, Yuri e Ismael surgiram independentes ou juntos na criação do Romance?
Então, voltando à pergunta, veio primeiro o Ismael. Mas, eu sempre fiquei chateada com o ponto dos protagonistas nunca terem mais de um amigo, por isso veio os outros, cada vez que eu explorava mais a escrita no livro do Ismael as ideias vieram para os dos outros, até montar tudo certinho com o roteiro.

O enredo nos parece ser adaptado em uma cidade grande, como Belo Horizonte.
É sim, adaptado em Belo Horizonte, porque eu sou mineira, escritora nacional e queria reinventar os clichês dos livros, então por que iria seguir aquela risca de se passar em outro país com o Brasil tão bonito para ser explorado?
 
O relançamento será sexta-feira, dia 26 de agosto de 2022. O que te levou a fazer este relançamento?
Foi o meu perfeccionismo. Eu queria fazer tudo certinho, por causa que tive problemas com revisão, arrumei algumas coisas que tive de fazer e deixei a versão ainda mais completa com o epílogo.

***
 
Então temos um destino, a leitura do livro de Sylvia Laignier que está à venda na Amazon: PARA ONDE IR?


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

UM MUTUENSE DE MUITO CORAÇÃO

 
Livro do escritor na Amazon

ENTREVISTA COM JOSÉ ARAUJO DE SOUZA
 
Completando a trilogia de postagens sobre o livro Operação Mutum de José Araujo de Souza, trazemos uma entrevista com o autor, alguém que gosta muito da nossa amada terrinha.
 
José Araujo de Souza nasceu em 29 de Outubro de 1945, Assaraí, pertencente hoje ao município de Pocrane, sendo que quando nasceu, tanto Assaraí como Pocrane eram distritos de Ipanema.
 
Aos dois meses de idade, seus pais Simplício Albano de Souza e Geracy Araujo de Souza mudaram-se de Assaraí para Aimorés, passando por Mutum. Segundo relatos que contaram para o nosso entrevistado, ele ficou em Mutum, por ter adoecido, aos cuidados dos seus avós, Olívio Araujo e Dona Cotinha, até que tivesse condições de voltar para a companhia dos seus pais. O que nunca mais aconteceu. Em Mutum ele seguiu morando até concluir o Segundo Grau. Indo para Belo Horizonte em 1966. Em Mutum ficou conhecido pelo apelido de Buté.
 
Em 2007, José Araujo de Souza sentiu-se honrado em ter Travessia lançado e exposto para vendas ao público no Stand da Oficina de Livros, durante a realização da XIII Bienal do Livro, no Rio de Janeiro.
 
Sua literatura é produzida cotidianamente, não tem um escritor de referência. Suas obras são solos. Já até produziu em outros campos da arte, mas apenas para fins didáticos quando lecionava. Mutum está presente em outros textos além de Operação Mutum como no Poema dedicado à terra do seu Coração
 
MUTUM
 
Há um pedaço de dor
encravado entre as montanhas
desenhadas contra o céu
(ainda será azul?)
e um rio nascendo dos olhos
formando na queda a cachoeira.
(ainda será fria e funda?).
 
Há um começo vermelho de noite
correndo ao encontro do encanto da lua.
(ainda será dos namorados a velha rua?)
 
Há no peito embrutecido uma suave saudade
e um coração ferido comandando o sangue
que flui para o corpo.
 
Lá, por certo, o tempo se incumbiu
de sucumbir tudo.
 
E ninguém mais se lembra de olhar
a montanha encantada e pedir um querer
de madrugada.
 
Nem flutua no rio a escura canoa
e nenhum menino desafia mais o remanso
ao entardecer.
 
Por certo, só existe a saudade que sinto de Mutum.
 
 
ENTREVISTA
(Entremeada com parágrafos de SOLIDOR, de autoria do entrevistado)
 
Qual a sua relação sentimental com Mutum? Você tem parentes aqui?
Eu sempre digo que sou mutuense. Desde que me entendo por gente, sou mutuense. Eu só vivi fora de Mutum, antes de vir para Belo Horizonte, por dois meses após ter nascido em Assaraí. Fui registrado lá. Sou, portanto, mutuense nascido em Assaraí. Digamos que, na dúvida entre o local onde nasci pertencer geograficamente a Ipanema ou a Pocrane, escolhi ser de Mutum, onde sempre vivi.
Tenho em Mutum meu querido irmão Olívio de Souza Araujo, Olivinho. O mais velho dos meus irmãos. Também tenho primos. A família Araujo é muito grande.
 
“Solidor é a solidão nascida de uma dor de não se ter mais. Surgida como por encanto, no final de um sonho, no começo de uma noite de chuva ou, até mesmo, na hora da morte. É a falta permanente ou passageira deixando marcas e maracás em cada batida surda do coração. É o vermelho do sangue correndo pelas veias dilaceradas, num contínuo fluir e refluir, pelo corpo cansado.”
 

Qual a sua formação e atuação profissional?
Minha formação profissional foi toda direcionada para o Magistério. Fiz o Curso Normal em Mutum, no Colégio Normal Dionísio Costa (grafado com i). Fui o primeiro homem a fazer o Curso Normal em Mutum. Eu era o único homem em uma sala de mulheres maravilhosas, a quem devo a conclusão dessa etapa. Sem a ajuda que tive delas, eu não teria conseguido concluir o curso. Fiz o Curso Superior de História na UFMG.  Depois, Pós Graduação em Metodologia do Ensino Superior. E, finalmente, fiz Mestrado em Educação. Lecionei em todos os três níveis de ensino. Primeiro e Segundo Graus, Superior e Pós.
 
“Solidor é fruto da paixão, desespero, vingança e ódio. É resultado de um amor. Um poema inacabado por falta de espaço no papel. Uma canção cantada baixinho, no ouvido direito da amada. É um lamento, um suspiro ou um nome soprado baixinho a se perder no vento. No nada.”

 
Como e quando foi seu interesse pela literatura?
Comecei a ler muito cedo.  Revistas em quadrinhos. Minha mãe era professora, então não faltavam material para leitura. De Monteiro Lobato a Jorge Amado. Na casa dos meus avós morava um médico, Dr. Bião, que me "mandava" sempre ler algumas revistas técnicas variadas, que assinava especialmente uma: Seleções de Raeder's Digest. Tinha de tudo. Contos, poesia, novelas, piadas, artigos científicos, enfim, uma verdadeira enciclopédia. Como era poliglota, o Dr. Bião insistia para que eu lesse algumas de suas revistas em outras línguas. O que eu não conseguia e me frustrava. Não sei, exatamente, quando comecei a escrever mas sei que sempre gostei.
 
“É solidor a saudade de não se estar mais na cidade natal. Ou quando se perde um pedaço da vida na morte de alguém. Quando, de um lugar qualquer distante no tempo, repentinamente, ressurge o cheirinho gostoso de comida caseira, feita pelas mãos da mãe que já não temos mais.”
 
 
Quando surgiu a ideia de escrever Operação Mutum?
A ideia me veio ao ler notícia de que os Estados Unidos assinaram um acordo com a Espanha, assumindo o compromisso de descontaminar a área atingida por bombas deixadas cair por um avião militar, em um acidente aéreo ocorrido em 1966, em Palomares, no sul da Espanha. Cinquenta anos depois, a população ainda continuava sofrendo os riscos de radiação. Imaginei, então, como seria se acontecesse a mesma situação em uma região montanhosa como a de Mutum. E fui criando a história na minha cabeça. Os personagens foram nascendo e o enredo sendo desenvolvido. Usei imagens da minha infância. Quando criança, muitas vezes fiquei olhando para o céu, altas horas da noite, acompanhando o piscar de luzes dos aviões que passavam sobre Mutum, vindo de não sei onde e indo para algum lugar desconhecido. Faziam parte dos mistérios da minha infância. Assim, apenas criei situações que imaginei para dar forma a uma história fantasiosa que já tinha começo meio e fim na minha cabeça.

 
“Solidor é chocolate escaldado em fogão de lenha. Bala de coco redondinha coberta de açúcar. Bola de meia rolando na poeira. Enchente de rio manso. Gabiroba do mato. Manga espada com terebentina na casca. Goiaba vermelha. É tristeza.”
 
 
Você tem outras publicações além de Operação Mutum?
Escrevi e publiquei outros livros. TRAVESSIA; CONSENOR; CANÇÃO PARA JULIANA; PELOS CAMINHOS DO TEU CORPO; DELES E DELAS; DELES; DELAS; MALDÍVIA; CONTOS ERÓTICOS DE QUALIDADE; OPERAÇÃO MUTUM; O LEÃO DE JUDÁ. São contos e poemas, contos eróticos e romances de ficção.
 
“Solidor é boneca de pano, rasgada, deixada num canto de um quarto. É calor de colo. Carinho de mão tocando de leve nos cabelos. Caminho de roça, cheio de mato. Preguiça gostosa de depois do almoço. Brinquedo de infância. É brincar de pique. É balanço. É cobra cega. Casamento de jeca. Pipoca. Balão aceso no céu. Lua cheia. Carnaval de rua. Banco de escola primária. É trança de menina. É Igreja na praça. Refresco de canudinho. Caldo de cana tirado na hora. É barquinho de papel descendo na enxurrada.”
 

Como é a sua rotina de produção literária?
Tenho um computador instalado no meu quarto. Assim, gosto de escrever quando a vontade me pega, sem um horário preestabelecido. Quase sempre, tenho mais de um trabalho começado, inacabado e arquivado à espera de que eu o termine. Não escrevo com um tempo determinado para concluir o que comecei. O certo é que posso acordar no meio da noite e dar sequência a alguma coisa que já comecei a escrever e deixei num arquivo qualquer. Ou posso, simplesmente, começar alguma coisa nova.
 
“Solidor é palavra inventada, que nunca esteve em dicionário. Mas que existe viva dentro de cada um de nós. É a saudade danada de uma coisa que incomoda. Mas que não queremos perder nunca, nunca, nunca..."
 

Fale sobre Travessias e quais são os projetos literários para o futuro?
O Projeto Travessia tem como objetivo distribuir gratuitamente, através das redes sociais, 10.000 (dez mil) exemplares em PDF, dos livros digitais de minha autoria, com versões em Português, Inglês e Espanhol. Esta é uma forma que encontrei de facilitar a vida das pessoas que se encontram em casa, impossibilitadas de manterem convívio social até com parentes mais próximos, por causa do risco de contágio com o COVID-19, essa praga que está dizimando grande parte da população mundial. Procuro deixar com essas pessoas os meus livros, para que possam ocupar um pouco mais do tempo ocioso que terão. Ler é uma boa forma de passar o tempo. Enquanto eu as ajudo, elas, em troca, me fazem mais conhecido.
Estou, no momento, concluindo mais dois livros. Ainda sem títulos. Um de poemas. O outro, de faroeste, uma história envolvendo bandidos e mocinhos no Oeste americano, mais precisamente no Estado de Nevada. Lá pelos idos de mil novecentos e pouco. Já estão bem avançados, mas sem prazo estabelecido para terminar. Vou caminhando, na velocidade que o tempo das histórias exigir.

***

O blog Mutum Cultural agradece ao escritor José Araujo de Souza por nos conceder tão enriquecedora entrevista.


DOIS LIVROS DO AUTOR NA AMAZON



FAZEM PARTE DA TRILOGIA SOBRE
OPERAÇÃO MUTUM
AS POSTAGENS:

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

OS ESCRITORES MUTUENSES, QUEM SÃO?

 

OS ESCRITORES MUTUENSES, QUEM SÃO?


Imagem: blog Rodrigo Gurgel


Ao registrar no nosso blog a Década de Ouro da Literatura Mutuense surge para nós uma questão sobre o recorte da nossa pesquisa. Quem pode ser considerado escritor mutuense?

Nossa intenção é não deixar ninguém de fora. Para tanto vamos organizar didaticamente quatro situações em que alguém que tem alguma produção literária, ainda que não esteja impressa, possa entrar na pauta. E aí surge outra questão. Vamos considerar apenas quem escreve ficção? E quem escreve história ou biografia, entra também? Artigos e trabalhos sobre educação, por exemplo? Com certeza todos que chegarem ao nosso conhecimento terá seu espaço nas nossas menções.

São as quatro situações:

  •       O escritor nasceu e mora em Mutum;
  •     O escritor não nasceu em Mutum, mas atualmente mora em Mutum;
  •     O escritor nasceu em Mutum, mas atualmente não mora em Mutum;
  •     O escritor não nasceu em Mutum e atualmente não mora em Mutum, mas já morou em algum momento da sua vida por algum tempo em nosso município.


Se você conhece alguém que se encaixa em uma das quatro situações acima, colabore e mencione-o para nós. Assim você estará colaborando com o nosso blog.

Sabemos que vai ficar bem abrangente, mas vai enriquecer muito nosso levantamento. O objetivo é conversar com todo mundo sobre literatura para que tenhamos mais uma década de ouro.

 

 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

SEXTA-FEIRA TEREMOS LIVRO SENDO LANÇADO

 SEXTA-FEIRA TEREMOS LIVRO SENDO LANÇADO
 


Acsa da Luz Mendes fará o lançamento do seu livro Boas Novas De Um Novo Tempo. Trata-se de uma obra que traz textos tanto em verso quanto em prosa, mas nunca abrindo mão da poesia e da percepção de realidade da jovem autora.

O Evento será na Casa de Cultura, dia 07 de Janeiro de 2022, a partir das 19:30 horas. Vamos valorizar este momento ímpar da literatura mutuense.

 Segue a mini-entrevista que fizemos com a autora.

Quando você começou a escrever?
Comecei a escrever em 2016, com 16 anos, inspirada por uma imensa paixão pela filosofia e espiritualidade, e pela vontade de registrar as ideias que eu acessava em minhas meditações, para refleti-las, e mais tarde quem sabe, publicá-las.
 
BOAS NOVAS DE UM NOVO TEMPO é o seu primeiro livro?
Boas novas de um novo tempo é meu primeiro livro, já tem outro em andamento, continuo registrando essas ideias que tanto me servem, com o genuíno intuito de que sirva também aos leitores que irão adquirir a obra
 
Como foi o processo de publicação?
No processo de publicação participei ativamente junto com a editora, embora o tempo dado pelo edital fosse curto, fizemos um belo trabalho, que me permitiu realizar um grande sonho.
 
O que o leitor encontrará em seu livro?
No meu livro você há de encontrar textos e poemas expressos com grande clareza, que trazem em si o que chamo de grafia dos anjos, quando as palavras servem a um propósito mais elevado e se tornam meios de trazer elucidações, sentimentos nobres. Isto será percebido pelo leitor, gosto de dizer que os textos são inspirados e canalizados dos céus para que sirvam ao nosso desenvolvimento, e ao propósito divino que é criar um novo tempo para a humanidade, e através da elevação de nossas consciências, trazer à realidade o Reino de Deus, uma forma também de fortalecer a fé e a esperança diante dos dias difíceis que passamos, visando percebê-los como os sintomas de uma ferida, que se não fosse percebida nos levaria à morte, dói para que a percebamos e procuremos a cura.
 
Fale sobre o lançamento e suas expectativas para o evento:
Estou imensamente feliz por realizar essa apresentação, senti de organizar também uma exposição de artesanatos, para também presentear meus convidados através de sorteios no decorrer do evento, o mesmo farei com alguns livros, não estou preparando palestra, o que houver de ser dito será baseado nos sentimentos que me serão dados a perceber ao me apresentar, de antemão, sinto imenso prazer, honrada em compartilhar com meu povo essa obra tão importante e inspirada, sinto também uma grande alegria por reunir na nossa Casa de Cultura alguns dos meus mais queridos conterrâneos, dentre eles professores que participaram de minha educação, diretoras das escolas públicas que estudei, representantes políticos da nossa casa legislativa e alguns membros da administração da cidade, também se encontraram presentes os prezados poetas mutuenses, escritores que publicaram livros com recursos da Lei Aldir Blanc, dentre outros, será um evento memorável, um dia marcante para mim e para quem estiver presente, prestigiando esse passo importante na  ascensão da literatura de Mutum!

EVENTO: Lançamento do livro Boas Novas De Uma Nova Era
AUTORA: Acsa Da Luz Mendes
QUANDO: Sexta-feira, 07 de Janeiro de 2022.
ONDE: Casa de Cultura
HORÁRIO: A partir das 19:30 horas.

sábado, 1 de maio de 2021

ANATOMIA POLIDA: ATLAS DOS NOSSOS MUNDOS P(OL)UÍDOS

 

José Ronaldo Siqueira é um carioca que reside em Mutum. Atlas anatômico para almas puídas é seu quarto livro (o segundo pela Editora Patuá). Também são seus os livros: O prisioneiro (2012); Historinha é o escambau! (2016); Manual não injuntivo de como criar um monstro (2018), também pela Patuá, foi finalista (3º lugar) no concurso da Biblioteca Nacional em 2019, na categoria romance.

 

Vamos deixar que o autor falar da sua obra, com seu jeito franco, nesta mini entrevista.

                                                                    CABEÇA


“Morri. Morro. Acordei. Acordei? Acho que sim. Mas como assim, acho, não tenho certeza se acordei? Como não ter certeza?"


MUTUM CULTURAL: Atlas anatômico para ideias puídas é um livro de contos. O que o leitor pode encontrar nas páginas da sua obra? Há um fio condutor que interliga os contos?

ZÉ RONALDO: Há. Mas no tocante ao motivo. O Atlas é um livro que versa sobre esperança/desesperança. Sabe aquela história de que no fundo do poço ainda há um alçapão, pois então, quanto mais nos afundamos no desespero e na falta de um vislumbre qualquer de lume, mais forte e crescente é, ao mesmo tempo, a sensação de que tudo ainda pode, de uma maneira que não imaginamos qual seja, dar certo. Essa desesperança acaba por, de certa forma, alimentando nossa esperança. O Atlas é o segundo livro de uma trilogia. O Manual foi o primeiro. O terceiro já está pronto. Talvez o lance ano que vem, ou espere um pouco mais.



                                            TRONCO


“Ah, disso eu tenho minhas dúvidas. Dissimulada e expert na chantagem emocional, como você sempre foi, não me admiraria...”



MUTUM CULTURAL: É seu segundo livro pela Patuá, uma editora bem conceituada no mercado editorial. A que você credita este feito?

ZÉ RONALDO: Olha, imagino que o que me possibilitou lançar novamente pelo selo da Patuá, tenha sido o fato de que o Manual ficou em 3º lugar no concurso da Biblioteca Nacional, que é um dos 5 concursos do grand slam da literatura nacional (Oceanos, Prêmio São Paulo, Jabuti, BN - Biblioteca Nacional - e Sesc - este último, só para autores ainda não publicados). Só vejo por aí. O livro anterior, o Manual, não vendeu muito pelo site (a Patuá não distribui os livros em livrarias, diz que não dá lucro para a editora, por isso opta apenas pela venda online, no próprio site da editora), foi só os que eu vendi no lançamento e alguns poucos depois. Sou melhor autor do que vendedor, hahahahahahahaha. 

                                                                        

                                                                     MEMBROS                                                              

“E se fugir? E se eu sair de casa? Será que esse bicho me segue? Será que vem atrás de mim? E se eu me escondesse em um bosque ou uma floresta, onde não houvesse paredes?"

 


MUTUM CULTURAL: Como o leitor pode adquirir sua obra?

ZÉ RONALDO: Como eu já disse, uma das formas de adquiri-lo é através do site da Editora Patuá, e, sempre tenho alguns comigo também, para quem quiser já tê-lo autografado, podem me encontrar no facebook .




NOTAS DO BLOG:

I) Estamos idealizando uma série de postagens intitulada por enquanto de Década Fértil: A produção literária de 2011-2020. Valorize os autores de Mutum. Somos destaque na região em termos de produção literária.

II) Como foi dito na mini entrevista, Atlas anatômico para almas puídas é o 2º livro de uma trilogia. Vamos aguardar o terceiro para podermos fazer uma postagem envolvendo toda trilogia.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

VERSOS DA VIDA DE JOÃO PINTO DE MOURA

 


João Pinto de Moura é um daqueles poetas que não rompem o cordão umbilical com sua terra e com a cultura do seu povo. Seus versos, rimados, procuram contar histórias vivenciadas por ele. Chega a ser a epopeia de um mutuense que celebra suas vitórias com júbilo que as transmitem em cada estrofe da sua poesia de fácil compreensão e de profundas reminiscências que nos levam a viajar a através do tempo.
 
Pessoas e lugares que habitam a sua memória dão vida a seus poemas. É por isso que seu jeito de poetizar provoca saudades. Podemos pescar no amplo ribeirão do seu livro Histórias de uma vida em versos menção a fatos que servem de base para reconstruir histórias, como o grupo de adolescentes Atalaia. O livro de João Pinto de Moura também é um álbum de lembranças especiais da sua vida que trazem em segundo plano ambientes de tempos idos que ficaram aqui eternizados.
 
Como proposta da nossa série, abrimos nossa pentologia com Histórias de uma vida, o primeiro poema, como um prefácio do que vamos encontrar em cada página, e por último o poema Registrei para vocês, que serve de posfácio.
 
Os outros três poemas foram de difícil escolha. Quisemos representar a pluralidade de assuntos. Escolhermos Charola para lembrar uma das atividades culturais de cunho religioso que faz parte da sua realidade atual. Já A pracinha – igrejinha de São Sebastião nos trás uma parte da história do catolicismo em Mutum que nem todo mundo conhece.
 
Tia Juraci
é uma bela homenagem a uma pessoa que foi, para muitos, sinônimo de simpatia, serenidade e caridade. Acredito que João Pinto de Moura tem muito mais a falar de sua tia. Quem sabe em um próximo livro.
 
Antes de ter a oportunidade de publicar seu livro através da Lei Aldir Blanc (Lei Federal Nº 14.017/2020), seus poemas já foram objeto de leitura e comentário em uma das nossas sessões do Café Literário. Foi a única experiência que tivemos com escritores  ainda não publicado.
 
Vamos aos cinco poemas que escolhemos para esta pentalogia.









HISTÓRIAS DE MINHA VIDA

Vou contar para vocês
Não é tudo que passou
É, parte de minha história
Desde quanto começou
 
Eu nasci em um recanto
Num cantinho beira mata
Onde passei minha infância
No córrego Ponte Alta
 
Nossa casa era pequena
Mas era muito singela
Pra buscar água na bica
Atravessava uma pinguela
 
Construída de pau a pique
Amarrada de cipó
Com telhado de tabuinha
Bem pertinho da vovó
 
   

CHAROLA

Na música sou sertanejo
Também gosto da popular
Gosto muito da charola
Pra meus versos entoar
 
As histórias desses Santos
Escrevi com dedicação
Dois mártires da nossa igreja
Manoel e Sebastião
 
 

A PRACINHA – IGREJINHA DE SÃO SEBASTIÃO

A Praça Raul Soares
Me deixou muitas lembranças
Que hora em poeira ou barro
É onde brincavam as crianças
 
Onde hoje é o sindicato
Tenho grande recordação
É ali que existia
A igrejinha de São Sebastião
 
Tinha também um coreto
Em boa conservação
Onde ali o povo usava
Para arrematar o leilão
 
 
TIA JURACI
 
Falando em caridade
Lembro da Tia Juraci
Que fazia o bem a todos
E até esquecida de si
 
Ajudava o povo inteiro
A todos sem distinção
Se batiam em sua porta
Abria de coração
 
Acolhia as famílias
Os doentes do hospital
E também muitas gestantes
Pra ganhar o seu Natal
 
Quantas vezes em minha casa
Ela muito ajudava
Cuidando da sobrinha Celsa
Quando os meninos ganhava
 
Não tinha dia nem hora
Era até de madrugada
Só saía pra ir embora
Quando tudo se ajeitava
 
Acredito que teve no céu
Um cantinho reservado
Pois tudo de bom que fez
Lá foi bem recompensado
 
 
 
REGISTREI PARA VOCÊS
 
Eu contei para vocês
Não foi tudo que passou
Foi parte da minha vida
Desde quando começou
 
Um pouquinho de cada coisa
De tamanha gratidão
Dos amigos, do tempo passado
Coisas da recordação
 
Ao terminar estes versos
De verdadeira expressão
Que é parte do meu passado
Sinto alegria e emoção



PENTALOGIAS POÉTICAS


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A PERGUNTA QUE TODOS FAZEMOS


ENTREVISTA COM SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA


O convidado para o primeiro Café Literário de 2020 é o Pós-doutorado em Psicologia Social, graduado em Pedagogia e Ciências Sociais, sócio-diretor do Instituto Educacional Athena, Sérgio Rodrigues de Souza.



A sua obra O que farei da minha vida ao sair daqui? Um ensaio sobre pedagogia carcerária, publicado pela editora Appris em 2018, começou a ser gestada a partir de suas anotações em 2008, durante uma aula na Cadeia Pública de Mutum (Centro de Detenção Provisória) cujo tema tornou-se título do livro.

Foram dez anos de amadurecimento. A obra nos faz refletir sobre essa pergunta. Estamos sempre saindo de algum lugar, alguma situação. Planejamos, mas nem sempre o destino nos possibilita realizar o que pautamos para o tempo vindouro.

Vale a pena conhecer essa obra através do Café Literário, dia 15 de fevereiro a partir das 08:00 hs.

Leia a entrevista com o autor:

ENTREVISTA

MUTUM CULTURAL: Na apresentação do livro é dito que uma das finalidades é mudar o EU. Quais as principais lições que o leitor pode tirar ao ler seu livro?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA É muito difícil dizer que mudanças ocorrerão nas estruturas cognitivas e intelectuais de alguém a partir da leitura de um livro e muito mais complexo é determinar uma mudança comportamental. Cada indivíduo representa um mundo e este EU, a que me refiro é a representação de uma conjuntura gnosiológica.
Mas, arrisco-me a apresentar algumas importantes lições que podem ser extraídas:

1) A família, solidamente formada, é tudo para o ser humano;

2) Educação é um princípio social, não um direito subjetivo, onde eu faço uso ou não de acordo com a minha vontade deliberada;

3) A única forma eficiente de combate à delinquência é a prevenção; qualquer outra é mero paliativo, eufemismo. Entre os russos, existe um ditado interessante: ‘o que deixa bêbado é o primeiro gole, não o último’.

4) Assim como Aristóteles (384-322a.C.) já havia afirmado, o ser humano sente ânsia de pertença a um conjunto social e M. Foucault (1926-1984) vem afirmar que o ser humano deseja ser reconhecido e para isto realiza coisas incríveis, indo desde criações úteis à sociedade, inúteis e mesmo nocivas. Nisto, todo o cuidado é pouco para que este desejo pathológico [sentimental profundo] de reconhecimento social não se transforme em um desejo patológico [doentio] de reconhecimento individual, onde os fins passam a justificar os meios.

5) O ser humano necessita de um objetivo na vida que o transcenda. Nossos pais são mais felizes que nós, porque realizaram seus objetivos em grande medida. Seus objetivos eram ter filhos, vê-los crescer, formar uma família unida e se alguém quiser me rebater alegando que muitos construíram grandes coisas, realizaram grandes feitos, tudo isto foi feito em nome da família, em prol dela e em torno da mesma.


MUTUM CULTURAL: Sem fazer juízo sobre sua ideologia política, há uma leitura interessante sobre o tempo em que Adolf Hitler passou encarcerado e a contribuição deste para a sistematização das suas ideias no livro Mein Kampf. Que paralelo você faz sobre o encarceramento vivido por Hitler e o encarceramento vivido aqui no Brasil?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A título de esclarecimento, minha análise não é nem ideológica e muito menos político-ideológica. Ela é antropológica, fundamentada nos princípios da Epigenética. Eu busco ali analisar o espírito do homem quando sob condições extremas, alijado do contato com a cultura ampla, em que ele se volta para a cultura micro que, para sua maldição, não dá conta de proporcionar-lhe contato com um universo de coisas, sentimentos, frustrações e experiências.
Na vida, não é a experiência que se vive que provoca transformações no espírito. É a forma como se é atravessado por esta experiência que vai determinar as mutações, a curto, médio e longo prazos. Esta observação valeu a Frederico Nietzsche (1844-1900) a afirmação de que nossa personalidade é caracterizada muito mais pelas experiências que não vivemos.
O livro de A. Hitler (1889-1945) é um tratado escrito fundamentado sobre uma narrativa sociológica e antropológica, onde ele analisa o homem alemão de fins do Século XIX e início do Século XX, capturado e imerso em um ambiente completamente diferente do que estava acostumado a viver e a batalhar. No entanto, não eram mais indivíduos dotados de espírito revolucionário, capazes de pegar em armas e derrubar tudo, para começar do zero.
Como nórdicos, estavam anestesiados e alienados, mas bastou que alguém o incite para a destruição que aderiram sem pensar muito, porque o próprio autor já havia percebido este sentimento de indiferença quanto às rebeliões e ao caos, quando o indivíduo é submetido por muito tempo à opressão.
Infelizmente, Hitler utiliza a máquina estatal para fazer despertar este sentimento no povo, o que faz com que a maioria [quase absoluta] enxergue o seu ato como uma política ideológica. Ele fez uso da Psicologia Social, que aliás provou ser conhecedor e exímio manipulador.
O engodo mais intrigante da nossa era é o de crer na ideia ingênua de que o Estado está à margem de nós, o povo, ou que nós, o povo, vivamos à margem dele. É o povo quem dita as regras das políticas de Estado e não este quem dita a forma como o povo irá se comportar. O ethos social é um componente variante do ethos cultural, fundamentado sobre princípios muito sólidos, sobre os quais estão os fundamentos filogenéticos e ontogenéticos.
Quando Hitler é apresentado ao povo alemão como seu chanceler, o grande gênio Sigmund Freud (1856-1939), escreveu um texto alertando para o fato de que dias muito sombrios se abateriam sobre a Alemanha.
Quando Hitler cai preso, em 1923, ele tinha uma única certeza, a de que seria morto, afinal, estava condenado por crime de estado, nisto se transforma na criatura mais perigosa que existe, na concepção de Goethe, aquele que já não tem mais nada a perder. Isto influenciou, sobremaneira, na carga pathológica que deposita em seu livro, descrevendo cada detalhe, cada centímetro quadrado da vida de Viena, o que viveu, o que viu e o que teve que fazer para sobreviver.
Seu livro Mein Kempf (Minha Luta) é o único tratado sociológico, na história da humanidade, que narra a condição de miséria do ser humano que vivia nos guetos e sarjetas, a partir da experiência miserável que esta condição de vida e ausência de qualquer perspectiva de futuro podia proporcionar-lhes. Ele se fundamenta e provoca o seu leitor a compreender a realidade social alemã a partir da falta de uma visão de futuro, a anomia. Por isto que fomenta o espírito nacionalista no povo alemão e todo o discurso de patriotismo alemão puro.

MUTUM CULTURAL: O questionamento feito aos detentos em 2008 “o que farei da minha vida ao sair daqui?” poderia ser feito aos estudantes de nossas escolas, independente do contexto?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Sem dúvidas. Porque esta pergunta é de caráter retórico e tão comum ao ser humano, até a geração a qual pertence nossos pais e em grau muito diminuto, ela é feita pela geração que tem menos de 40 anos de idade, momento em que acontece um interessante paradoxo onde alguns eruditos sem ter o que fazer da vida, resolveram dizer que as crianças e os jovens deveriam ser livres para pensar suas vidas como bem entendessem. Fizeram todas as besteiras da vida que a sociedade permitiu, mas na hora de pagar a conta, cadê a potência para isto? Foram transformados em homens de palha (parafraseando Nietzsche); mas voltando à questão original, esta foi a pergunta feita pelo Primeiro Homem, Adam, quando recebeu a sua sentença do Pai Criador.
Trata-se da construção de uma visão de futuro, de um ideal, entendendo o ideal não como uma utopia, mas como um fato social ambicionado e pelo qual se luta, na expectativa de o alcançar, de o conquistar e não simplesmente de conseguir.
O estudante deve entender que educação acadêmico-escolar não é um direito que ele assume; trata-se de um dever social, uma responsabilidade que ele assume e que o acompanhará por toda a sua existência, logo, se ele não tem uma visão de futuro é porque a sociedade na qual está inserido, também não possui e o condenou a este vazio existencial.
Sócrates argumentava que a vida desprovida de um profundo exame antropológico não é digna de ser vivida.

CONVITE: CAFÉ LITERÁRIO




SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA