segunda-feira, 5 de abril de 2021

VALE A PENA ESCUTAR

             

       O simples fato de ser um artista morador da nossa sonora Mutum, já é motivo de sobra para ouvir. Mas inspirado no título de uma canção do EP Moça de João Luiz, podemos afirmar com total convicção que vale a pena escutar.

Este produto cultural é mais uma realização de um dos nossos artistas oportunizado pela Lei Aldir Blanc (Lei Federal Nº 14.017/2020).  

João Luiz concedeu uma pequena entrevista ao Mutum Cultural em que fala do seu trabalho como artista.


AS MOÇAS DE JOÃO LUIZ

Como surgiu seu interesse pela música?

Quando fiz 10 anos meu pai começou a me ensinar a tocar vilão. Já na adolescência minha mãe me incentivava a escrever sobre as coisas que eu gostava ou não entendia. Juntando tudo isso, comecei a escrever minhas próprias letras pra poder cantar e tocar no violão.

O seu EP é composto de quais músicas?

Encalistrado, Vizinha de janela, É pra você, Vem ser meu amor, Será que vale a pena tentar? e Tudo pode acontecer.

 

Quem são os compositores?

Eu escrevi todas as letras.

 

Por que o título Moça?

Poderia ser Moças também. Foi uma tentativa de criar uma personagem para o EP, fazer dele uma história. Como cada música foi escrita em um momento diferente e as letras para pessoas diferentes, tentar fazer delas uma só seria mais interessante para a história do EP.

 

Qual foi o papel da Lei Aldir Blanco na realização do seu projeto?

Papel de único fomentador.

 

Você já tem outros trabalhos gravados?

Audíveis dois, Amor gourmet e Ela é real. Entretanto, tenho mais algumas composições que nunca tornei públicas.

 

Qual é o seu próximo projeto musical?

Ainda não tem data, estou tentando juntar algumas músicas pra montar outro EP. As músicas eu já tenho, preciso organizá-las de modo a fazer sentido como um álbum, ou seja, criar a história e buscar uma sonoridade coesa.

 


    A relação amorosa se faz presente na música de João Luiz como podemos ver em versos de músicas presentes no EP.

 

"... Eu podia ser seu namorado. Eu sei tudo dela porque a janela dela é a minha TV..."

Vizinha de janela

 

"... Vem ser meu amor. Vamos vencer, meu amor..."

Vem ser meu amor

 

"... Talvez você tenha até sentido o mesmo, mas acabou fugindo de medo ou faltou coragem de se permitir sentir algo novo..."

É pra você

 

    E como vale a pena escutar canções de letras bem elaboradas como Será que vale a pena tentar? (Participação de Ester Teixeira), o EP nos proporciona a uma viagem aos nossos momentos de timidez, paqueras, dúvidas e outras situações em que o coração nos imprime.


ESCUTE O EP


LINK PARA:

SPOTIFY


BLOG: VEJA TAMBÉM POSTAGEM SOBRE EP: TEM XOTE E TEM BAIÃO DE LÍVIA LACERDA

AS PÍLULAS POÉTICAS DE TONY MARQUES

 


 

            Tony Marques é mutuense que reside em Contagem-MG. Ele consegue em versos curtos sintetizar sua visão peculiar da natureza e da história. É um poeta que traz na retina uma visão pastoril, ainda que viva na urbanidade seus dias de garimpagem por aquilo que alimenta a alma humana. Mas tem nos dedos a capacidade de encapsular em números mínimos de versos o que captura daqueles detalhes que ainda nos encantam.

            Tony Marques usa as redes sociais, facebook e instagram, como meio para compartilhar conosco as suas criações. É assim que ele espalha suas pílulas poéticas para amenizar nossos temores nas tardes cinzas e nas noites de ventos uivantes.

POEMA I


    

POEMA II

POEMA III

POEMA IV


POEMA V




NOTA DO BLOG:  Entrevista com TONY MARQUES


OUTRAS PENTALOGIAS

OLÍVIO DE SOUZA ARAÚJO

FRANCISCO FAGUNDES

ITAJACI CORRÊA

sábado, 12 de setembro de 2020

UMA COLETÂNEA, DOIS MUTUENSES


Foi coincidência dois mutuenses selecionados para a mesma coletânea literária do projeto Apparere, ligado à editora PerSe. Foi o que ocorreu em agosto, quando os escritores Cláudio Antonio Mendes e Sérgio Rodrigues de Souza tiveram seus textos aprovados para participar da coletânea Meus filhos, meu maior tesouro!

 

Cláudio Antonio Mendes participa dessa coletânea com o poema No abraço dos rebentos. Nele, o poeta fala da força de uma mãe que carrega nos ombros o desprezo do mundo, a desilusão  e todo tipo de sortilégio encontra no abraço dos seus filhos para ainda continuar respirando.

 

Sérgio Rodrigues de Souza integra a coletânea com o texto tendo o mesmo título da coletânea. Ele faz um mergulho em vários aspectos, incluindo o filosófico, para enriquecer a reflexão que devemos fazer sobre o que de fato um filho é para seus pais. Faz distinção entre dádiva e presente e que os pais também têm muito a aprender com os filhos. Filhos são tesouros não por carregar a herança genética do pai, mas pelo que o filho oferece aos pais.

 

Ambos já participaram de outras coletâneas do projeto Apparere além de terem livros publicados e vendidos na plataforma da editora.

 

Livros vendidos pelos autores na PerSe:

Cláudio Antonio Mendes

Sérgio Rodrigues de Souza


Link para o projeto: 

APPARERE


Link para adquirir o livro: 

Coletânea Meus Filhos, meu maior Tesouro!

domingo, 2 de agosto de 2020

NOSSA LITERATURA E O CONTEXTO REGIONAL

         

    Para celebrar o dia do escritor, 25 de julho, a Associação Sociocultural de Conceição de Ipanema-MG (Concipa) realizou a série de lives denominada Semana Literária: Espaços e perspectivas para a produção literária no interior, nos dias 21 a 24 de julho de 2020. O evento foi organizado e mediado pelo Professor José Aristides da Silva Gamito.

         Participaram dessa atividade dois escritores de Mutum-MG, Cláudio Antonio Mendes no dia 21 com o tema O processo de produção literária e o prazer da leitura e José Ronaldo Siqueira no dia 24 com o tema O poder da literatura: A relação escritor/leitor e os benefícios da leitura. Foram entremeados com a participação de Romildo Alves, de Pocrane-MG, com o tema Falando de quem gosta de escrever!, no dia 23.

         A Concipa, que tem realizado uma série de lives como a Semana online de filosofia e Seminários de educação política, trouxe para a discursão as temáticas próprias da literatura, contribuindo para que a nossa região pudesse ter acesso a aspectos relevantes da produção literária no Brasil e seus desafios.

O Professor José Aristides da Silva Gamito concedeu ao blog Mutum Cultural entrevista falando sobre o evento:


Mutum Cultural: Como surgiu a ideia da Semana Literária?

José Aristides da Silva Gamito: A ideia surgiu da necessidade de dar continuidade ao projeto de incentivo à escrita e à leitura que a Associação Concipa vem fazendo desde 2018. O trabalho foi interrompido pela pandemia. Então, pensei no recurso das transmissões online (lives) para prosseguir com o projeto e utilizar as lives para entrevistar os escritores das cidades vizinhas que já possuem experiências. O projeto foi uma iniciativa minha com o apoio da Associação Sociocultural Concipa.

 

Mutum Cultural: Que outras atividades a Concipa já desenvolveu em relação à literatura? Em relação a outras atividades artísticas?

José Aristides da Silva Gamito: As atividades de valorização da arte acontecem através de uma agenda cultural anual. A cada dois meses, realizamos o Sarau Cultural. Nas demais ocasiões, aproveitamos as datas comemorativas para alcançar todas as formas de arte. Já realizamos exposições de pintura e escultura, festival de música, produção de curta-metragem, concurso de desenho, intercâmbio cultural. No campo específico da literatura, realizamos a publicação artesanal de suas coletâneas de poetas de Conceição de Ipanema. Além de haver em todos os saraus o cantinho da poesia.

 

Mutum Cultural: Qual a contribuição que a Semana Literária deu para alavancar a literatura na nossa região?

 

José Aristides da Silva Gamito: A primeira contribuição que esperamos é a motivação para que pessoas comuns mostrem seus talentos na escrita, que tenham coragem de escrever e de divulgar seus textos. Depois, esperamos criar vínculos com as cidades vizinhas para trocar experiência entre escritores. E também, gerar meios de amparo e de fortalecimento dos escritores do interior. Por isso, fiquei muito grato por receber na semana dois escritores mutuenses, Cláudio e José Ronaldo, e um escritor pocranense, Romildo!


         Para o professor e escritor Cláudio Antonio Mendes, iniciativas como essa contribuem como estímulo a quem escreve em nossa região. Com o advento das comunicações através da internet o caminho entre o escritor e os meios de produção editorial ficou mais curto, porém, com mais encruzilhadas. Didaticamente, o autor de obras como Uni versos, Decalogias poéticas e Duas noites de vingança salientou os cinco meios de produção em que um escritor poderá percorrer até ver sua produção literária transformada em produto para estar disponível para o leitor, Mas alertou para o entusiasmo em demasia, achando que vai conquistar centenas de leitores a partir de uma única obra. Ele também falou resumidamente do encanto de se ler, citando Monteiro Lobato como ilustração. Cláudio Antonio Mendes também falou sobre a importância de uma associação de escritores regionais.

         Cláudio Antonio Mendes ainda destacou a Lei Aldir Blanc como possibilidade de alavancar a produção no interior.

 

         Outro mutuense, de habitat, que participou foi José Ronaldo Siqueira, autor de O prisioneiro, Historinha é o escambau! e Manual não injuntivo de como criar um monstro. O blog também ouviu esse lavrador das narrativas que tem sido exitoso em concursos literários Brasil afora.

Na última semana, participei, juntamente com o amigo, colega de trabalho e irmão de pena e tinta, o Cláudio Mendes, de uma semana literária, idealizada e mediada pelo também amigo e colega José Gamito, de Conceição de Ipanema. A proposta era de se entrevistar autores da região, através de lives, sobre a forma de produção e a visão de escritores do interior sobre a literatura brasileira contemporânea e a exclusão ou não dos autores independentes interioranos no contexto nacional.

         Conversei sobre como é meu modus operandi quanto à concepção da história, como eu faço para produzir meus livros (o processo todo, desde a idealização até a publicação), onde eu comento, inicialmente, que o importante é se fazer um portfólio do seu material através de concursos literários espalhados por todo o país. Quando se coletar uma certa quantidade de textos premiados, pode-se ir atrás de uma editora. E, o mais importante de tudo: um escritor e´, antes de mais nada, um leitor em potencial. Não existe escritor que não consuma literatura (nacional ou não). O hábito de leitura é instrumento mais do que essencial nesse assunto.

         Foi algo realmente muito, mas muito interessante e importante a semana literária de Conceição de Ipanema. Pudemos nos divulgar, mesmo que com uma plateia singela, mas o mais importante: pontapé inicial foi dado para a divulgação do nosso trabalho e de que, saibam por aí, que o interior tem gente escrevendo, sim. Escrevendo e publicando.

 

Durante o evento foram sorteados dois livros Uni Versos contendo poemas de Cláudio Antonio Mendes. Os contemplados foram Phillipi Carlos Gonçalves, de Pocrane-MG, e Cleuza Dias de Assis Bernardes, de Alto São Luiz, Conceição de Ipanema-MG.  

         O fomento da nossa produção literária a nível regional deu um sobressalto a partir desse evento.

    

AGRADECIMENTO

O blog, na pessoa do presidente da Concipa, Alexandre Lima, ressalta o empenho de todos os integrantes da entidade promotora do evento.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A PERGUNTA QUE TODOS FAZEMOS - PARTE II




Nessa segunda parte da entrevista, o autor do livro O Que Farei Da Minha Vida Ao Sair Daqui? Um Ensaio Sobre Pedagogia Carcerária, que abrilhantará o Café Literário, no próximo sábado, a partir das 08:00 hs, na Biblioteca Municipal, evento promovido pela Secretaria de Cultura de Mutum.
         Sérgio Rodrigues de Souza nos conta sobre a iniciativa de escrever essa obra em que filosofia, antropologia, psicologia social e pedagogia se encontram para analisar o homem em suas prisões a partir da busca de perspectiva para a vida.
         O autor também fala da sua expectativa para o Café Literário quando poderá compartilhar com os participantes, cara a cara, sobre a história do seu livro que traz em seu bojo parte da sua história e da sua concepção de vida.



ENTREVISTA


MUTUM CULTURAL: O seu livro surgiu a partir de uma experiência pedagógica em um ambiente específico. Comente sobre essa prática que te levou à reflexão:

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: No ano de 2008, a Professora Márcia Luzia Pires de Sá, à época Secretária Municipal de Educação de Mutum, junto à Inspetora Meyre Ribeiro, me convidaram para trabalhar, como professor regente de turma, na Unidade Prisional de Mutum.
Na oportunidade, iniciei um trabalho de registro das atividades pedagógicas, de observação-participante, de depoimentos dos detentos [na condição de estudantes], entrevistas, histórias pessoais, coletivas e sobre todo este material, construí uma investigação acadêmico-científica fundamentada no estudo de autores clássicos nos campos da Antropologia, da Psicologia, da Filosofia e da Sociologia.
Em 2014, fui estudar sob a orientação do Professor Dr. Luis Eligio Martelly, em Havana, que é pesquisador na área de educação prisional e a maior autoridade mundial no assunto, tendo criado métodos inéditos de pesquisa neste campo. Na oportunidade, pude conhecer o sistema educacional cubano, o sistema prisional daquele país e assim, elaborar propostas pedagógicas para adolescentes em condições de privação de liberdade.
Em 2016, fui estudar com a eminente Professora Drª. Amelia Haydèe Imbriano, na Universidad Kennedy (Buenos Aires), a mais conceituada cientista internacional em crimes violentos cometidos por crianças e adolescentes, autora de vários clássicos que trazem reflexões profundas sobre o tema. Neste momento, é que elaboro meus estudos sobre a questão da delinquência juvenil como forma de busca por reconhecimento individual e coletivo, mais uma forma estranha de compensar a ausência da autoridade e da presença parental concreta.
Neste mesmo ano (2016), tenho a oportunidade e a honra de orientar um estudante de Mestrado da Universidad Del salvador (Buenos Aires), o Sr. Belarmino Oliveira, que estudava e pesquisava sistema de educação na Penitenciária de Viana (ES). Este representou um momento ímpar, porque era a hora de observar o trabalho sobre prisões a partir de uma lente externa.

MUTUM CULTURAL: Na sua percepção, o que a perda da liberdade pode provocar no homem?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A primeira coisa que a perda de liberdade provoca é um alijamento social, o que por si só, já representa um fardo muito intenso e bruto para um ser humano suportar, porque desde muito cedo, somos educados e educamos para uma vida em comunidade, em companhia de outros e isto, a pertença grupal é um sentimento instintivo mais antigo que o próprio ser humano, porque a estrutura cerebral reptiliana antecede em centenas de milhões de anos à estrutura cortical consciente. Estar afastado da sociedade significa, em termos primitivos, a uma condenação existencial.
Na esteira disto, ocorre a perda de alguns sentimentos, como a perda de empatia, transformando o que antes poderia ser um ser humano em qualquer coisa, chegando ao ponto de ser classificado como monstro, ou seja, uma casaca vazia que não sente nada por ninguém.
A perda de noção de tempo é outra parte do processo, as paredes brancas tendem a ir desgastando o senso de mudança das horas e estações até que não exista mais, no indivíduo, a capacidade de determinação do espaço-tempo pensado de forma abstrata como é possível fazer. Ocorre, ainda perda da racionalidade, alterações psicológicas, estas difíceis de prever, porque cada ser irá reagir de forma singular quando privado de sua condição de liberdade.
O pertencimento social conduz a obediência a leis e costumes que dado o seu constante exercício forma o que se chama de consciência social, princípios morais, obediência civil, civilidade, urbanidade, ética. Quando se afasta o indivíduo deste processo, aos poucos seus sentimentos com relação a estas situações vão desaparecendo, uma vez que não são praticados e o que resta é um ser que segue suas próprias leis, este que Aristóteles (384-322a.n.e. [2007] classifica como não sendo humano, chegando a afirmar que ou é um deus ou é um animal, porque somente os deuses e os animais podem viver sem leis e/ou sozinhos.

MUTUM CULTURAL: O que precisa ser aprimorado no nosso sistema prisional?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A estrutura de cumprimento da sentença, em que a maioria dos condenados fica sem ter o que fazer, perdidos em pensamentos espúrios e vazios. Nisto, surge a necessidade de que se aprimore na questão de proporcionar atividades laborais concretas, destinadas a produzir bens de consumo próprio e que possam gerar divisas para o Estado.
A questão do ensino e das atividades físicas, religiosas, também necessita ser pensadas de forma a que os detentos tenham acompanhamento profissional adequado e isto não se trata de dar a eles, nenhum tipo de privilégio, mas parte da ideia de proporcionar auxílio para que possam ter o mínimo possível de condições de reabilitar-se socialmente.
Quando o sistema deixa o indivíduo entregue à sua própria sorte, crente de que a natureza divina cuida de proteger os homens do mau, direcionando-os para caminhos virtuosos, tem-se a produção de criaturas estranhas e sem medidas que seguirão seus próprios princípios de fé e de verdade.
Atividades laborais irão contribuir para o aperfeiçoamento e mesmo para uma profissionalização do apenado, porque em sua maioria não possuem profissões de ofício, a começar que são detidos em tenra idade; agrega-se a isto, o nosso combalido sistema educacional que, ao estrangular o ensino técnico, entrega para a sociedade, um jovem de 18 anos de idade que não possui uma profissão oficializada, ainda. Dispõe na sociedade um sujeito crítico, mas que não sabe fazer absolutamente nada!



MUTUM CULTURAL: Ao construir sua narrativa, é utilizado a logopeia de Ezra Pound, ou seja, a comparação com narrativas da cultura universal. Dois exemplos são a velha história árabe d’O Gênio Na Garrafa e o Minotauro da mitologia grega. Qual a importância dessas narrativas universais para a compreensão do ser humano na sociedade hoje?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A garrafa representa o que hoje se preconizou chamar de bolha, onde todos nascem, crescem, formam uma personalidade virtual, reproduzem um vazio intelectual e espiritual, tudo isto na ausência mais completa de qualquer relação de empatia, porque não existe contato físico, como se tal coisa fosse transmitir uma doença crônica mortal.
Assim é que, no aniversário dos amigos e mesmo das pessoas mais próximas como marido, esposa, namoradas, filhos, manda-se um emoj de flores, de abraço, de beijo, uma oração [re]copiada de algum site qualquer, tudo isto em nome do tempo, da falta de tempo, etc... Em pouquíssimos anos, todos à volta são estranhos, o que faz com que quando ocorre um atropelamento, todos querem tirar fotos e selfies com a vítima arrebentada, ao invés de chamar a ajuda especializada.
Com o tempo, torna-se avesso ao contato humano, ao ponto de que se alguém vem com a intenção de dar um abraço isto já é interpretado como assédio e um processo judicial ou um empurrão aguarda o indivíduo inocente. Perde-se a humanidade quando se passa muito tempo afastado do contato humano com seres humanos, lidando tão somente com situações mecânicas de relacionamentos.
Com relação ao Minotauro, o labirinto representa esta existência vazia, sem sentido e que não mostra a menor possibilidade de uma fuga em que o ser humano percorre não se sabe que vias, em busca sabe-se lá de quê, sozinho, porque teme procurar ajuda e nisto admitir que está perdido, porque o seu companheiro, mais perdido que ele, procura em si esta condição de força e de coragem. F. Nietzsche tem um aforismo onde diz: “Eu sou o valor que dou a mim mesmo!” E o valor que a igualdade pode auferir ao ser humano é isto: o nada!, a solidão, o vazio, a ausência de sentido completa para si mesmo. A vida e a existência não podem ser reduzidas a um labirinto sem saída, porque o fracasso constante embrutece até o ponto de ver-se entregue a um estado deplorável de psicopatia.

MUTUM CULTURAL: Em que situações da vida atual o ser humano sente-se como encarcerado e não ousa fazer a pergunta que intitula o livro?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: No Século XXI, a todo instante. E tornou-se escravo desta condição porque teme a resposta que virá de si mesmo; ele não sabe o que fazer de sua vida no instante seguinte, dado que a existência e toda a liberdade porque o ser humano lutou desde fins da década de 1960, transformou-o em um autômato, uma criatura anômica, sem saber o que quer da vida, vivendo de acordo com a gíria: seguindo o fluxo.
Para fazer tal pergunta, é preciso ousar e saber que a resposta pode ser um simples não sei e isto não significa estado de decadência, devendo ser tomado como princípio para buscar uma resposta. Em Filosofia, toda grande descoberta parte de uma pergunta, para a qual inicialmente não se tem resposta alguma, às vezes, nada mais que hipóteses, suposições, elucubrações. O valor encontra-se na coragem de se fazer a pergunta e ao deparar-se com uma incerteza ou um vazio, compreender que faz-se necessário preencher estes espaços em branco e isto somente se consegue enfrentando a realidade, por mais cruel que possa parecer e mesmo apresentar-se ao indivíduo.
O fato de evitar fazer tal pergunta representa despreparo para com a existência, medo de ter que enfrentar a vida e fracassar. No entanto, fracasso e sucesso são faces da mesma moeda, produtos da ação. Como diria o Zaratustra de Nietzsche: “Eis a vida! Então, vamos à vida!”    

MUTUM CULTURAL: O que este livro diz para os trabalhadores na educação como professores, especialistas, diretores e serviçais, bem como os gestores, no exercício da sua profissão?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Educação é um compromisso social, não um direito como se quer fazer acreditar; é um dever cívico. A comunidade escolar deve tomar para si a missão de formar um homem em sua integralidade. E isto implica em construir valores concretos, tendo em vista a história daqueles que nos antecederam e a pretensão de construir um Estado melhor, não abstendo da tradição clássica e nem dos princípios humanísticos que permitiriam ao homem resistir a tantas e tantas mudanças radicais.
À escola cabe ensinar aos estudantes como aplicar seu intelecto para o crescimento individual e social e nisto inclui o respeito e a obediência àquilo que mais se possui de valor na sociedade: O Outro. Nietzsche expressa sobre isto o seguinte: “Quando se julga um criminoso, diz-se que ele falhou com a sociedade. engano fatal. Foi a família, a escola, o padre, o pastor, todos que falharam com ele” (2007) e, por consequência, todos falharam ainda com a sociedade que passa a temer este indivíduo e a sofrer em suas mãos.

MUTUM CULTURAL: Quais são as suas expectativas para o Café Literário no dia 15 desse mês, na Biblioteca Municipal?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Minha expectativa é a de que os participantes entendam que o livro é uma expressão de que existe uma necessidade premente de discussão sobre uma problemática e não sobre um problema isolado. Todo o texto traz uma discussão em torno de uma situação factual, presente e crescente e que a não intervenção eleva o custo social da existência, onde todos estão se tornando escravos da própria inépcia social, no que se refere ao assunto posto.

 PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA: MUTUM CULTURAL


                      O blog Mutum Cultural reforça o convite para o Café Literário.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A PERGUNTA QUE TODOS FAZEMOS


ENTREVISTA COM SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA


O convidado para o primeiro Café Literário de 2020 é o Pós-doutorado em Psicologia Social, graduado em Pedagogia e Ciências Sociais, sócio-diretor do Instituto Educacional Athena, Sérgio Rodrigues de Souza.



A sua obra O que farei da minha vida ao sair daqui? Um ensaio sobre pedagogia carcerária, publicado pela editora Appris em 2018, começou a ser gestada a partir de suas anotações em 2008, durante uma aula na Cadeia Pública de Mutum (Centro de Detenção Provisória) cujo tema tornou-se título do livro.

Foram dez anos de amadurecimento. A obra nos faz refletir sobre essa pergunta. Estamos sempre saindo de algum lugar, alguma situação. Planejamos, mas nem sempre o destino nos possibilita realizar o que pautamos para o tempo vindouro.

Vale a pena conhecer essa obra através do Café Literário, dia 15 de fevereiro a partir das 08:00 hs.

Leia a entrevista com o autor:

ENTREVISTA

MUTUM CULTURAL: Na apresentação do livro é dito que uma das finalidades é mudar o EU. Quais as principais lições que o leitor pode tirar ao ler seu livro?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA É muito difícil dizer que mudanças ocorrerão nas estruturas cognitivas e intelectuais de alguém a partir da leitura de um livro e muito mais complexo é determinar uma mudança comportamental. Cada indivíduo representa um mundo e este EU, a que me refiro é a representação de uma conjuntura gnosiológica.
Mas, arrisco-me a apresentar algumas importantes lições que podem ser extraídas:

1) A família, solidamente formada, é tudo para o ser humano;

2) Educação é um princípio social, não um direito subjetivo, onde eu faço uso ou não de acordo com a minha vontade deliberada;

3) A única forma eficiente de combate à delinquência é a prevenção; qualquer outra é mero paliativo, eufemismo. Entre os russos, existe um ditado interessante: ‘o que deixa bêbado é o primeiro gole, não o último’.

4) Assim como Aristóteles (384-322a.C.) já havia afirmado, o ser humano sente ânsia de pertença a um conjunto social e M. Foucault (1926-1984) vem afirmar que o ser humano deseja ser reconhecido e para isto realiza coisas incríveis, indo desde criações úteis à sociedade, inúteis e mesmo nocivas. Nisto, todo o cuidado é pouco para que este desejo pathológico [sentimental profundo] de reconhecimento social não se transforme em um desejo patológico [doentio] de reconhecimento individual, onde os fins passam a justificar os meios.

5) O ser humano necessita de um objetivo na vida que o transcenda. Nossos pais são mais felizes que nós, porque realizaram seus objetivos em grande medida. Seus objetivos eram ter filhos, vê-los crescer, formar uma família unida e se alguém quiser me rebater alegando que muitos construíram grandes coisas, realizaram grandes feitos, tudo isto foi feito em nome da família, em prol dela e em torno da mesma.


MUTUM CULTURAL: Sem fazer juízo sobre sua ideologia política, há uma leitura interessante sobre o tempo em que Adolf Hitler passou encarcerado e a contribuição deste para a sistematização das suas ideias no livro Mein Kampf. Que paralelo você faz sobre o encarceramento vivido por Hitler e o encarceramento vivido aqui no Brasil?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A título de esclarecimento, minha análise não é nem ideológica e muito menos político-ideológica. Ela é antropológica, fundamentada nos princípios da Epigenética. Eu busco ali analisar o espírito do homem quando sob condições extremas, alijado do contato com a cultura ampla, em que ele se volta para a cultura micro que, para sua maldição, não dá conta de proporcionar-lhe contato com um universo de coisas, sentimentos, frustrações e experiências.
Na vida, não é a experiência que se vive que provoca transformações no espírito. É a forma como se é atravessado por esta experiência que vai determinar as mutações, a curto, médio e longo prazos. Esta observação valeu a Frederico Nietzsche (1844-1900) a afirmação de que nossa personalidade é caracterizada muito mais pelas experiências que não vivemos.
O livro de A. Hitler (1889-1945) é um tratado escrito fundamentado sobre uma narrativa sociológica e antropológica, onde ele analisa o homem alemão de fins do Século XIX e início do Século XX, capturado e imerso em um ambiente completamente diferente do que estava acostumado a viver e a batalhar. No entanto, não eram mais indivíduos dotados de espírito revolucionário, capazes de pegar em armas e derrubar tudo, para começar do zero.
Como nórdicos, estavam anestesiados e alienados, mas bastou que alguém o incite para a destruição que aderiram sem pensar muito, porque o próprio autor já havia percebido este sentimento de indiferença quanto às rebeliões e ao caos, quando o indivíduo é submetido por muito tempo à opressão.
Infelizmente, Hitler utiliza a máquina estatal para fazer despertar este sentimento no povo, o que faz com que a maioria [quase absoluta] enxergue o seu ato como uma política ideológica. Ele fez uso da Psicologia Social, que aliás provou ser conhecedor e exímio manipulador.
O engodo mais intrigante da nossa era é o de crer na ideia ingênua de que o Estado está à margem de nós, o povo, ou que nós, o povo, vivamos à margem dele. É o povo quem dita as regras das políticas de Estado e não este quem dita a forma como o povo irá se comportar. O ethos social é um componente variante do ethos cultural, fundamentado sobre princípios muito sólidos, sobre os quais estão os fundamentos filogenéticos e ontogenéticos.
Quando Hitler é apresentado ao povo alemão como seu chanceler, o grande gênio Sigmund Freud (1856-1939), escreveu um texto alertando para o fato de que dias muito sombrios se abateriam sobre a Alemanha.
Quando Hitler cai preso, em 1923, ele tinha uma única certeza, a de que seria morto, afinal, estava condenado por crime de estado, nisto se transforma na criatura mais perigosa que existe, na concepção de Goethe, aquele que já não tem mais nada a perder. Isto influenciou, sobremaneira, na carga pathológica que deposita em seu livro, descrevendo cada detalhe, cada centímetro quadrado da vida de Viena, o que viveu, o que viu e o que teve que fazer para sobreviver.
Seu livro Mein Kempf (Minha Luta) é o único tratado sociológico, na história da humanidade, que narra a condição de miséria do ser humano que vivia nos guetos e sarjetas, a partir da experiência miserável que esta condição de vida e ausência de qualquer perspectiva de futuro podia proporcionar-lhes. Ele se fundamenta e provoca o seu leitor a compreender a realidade social alemã a partir da falta de uma visão de futuro, a anomia. Por isto que fomenta o espírito nacionalista no povo alemão e todo o discurso de patriotismo alemão puro.

MUTUM CULTURAL: O questionamento feito aos detentos em 2008 “o que farei da minha vida ao sair daqui?” poderia ser feito aos estudantes de nossas escolas, independente do contexto?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Sem dúvidas. Porque esta pergunta é de caráter retórico e tão comum ao ser humano, até a geração a qual pertence nossos pais e em grau muito diminuto, ela é feita pela geração que tem menos de 40 anos de idade, momento em que acontece um interessante paradoxo onde alguns eruditos sem ter o que fazer da vida, resolveram dizer que as crianças e os jovens deveriam ser livres para pensar suas vidas como bem entendessem. Fizeram todas as besteiras da vida que a sociedade permitiu, mas na hora de pagar a conta, cadê a potência para isto? Foram transformados em homens de palha (parafraseando Nietzsche); mas voltando à questão original, esta foi a pergunta feita pelo Primeiro Homem, Adam, quando recebeu a sua sentença do Pai Criador.
Trata-se da construção de uma visão de futuro, de um ideal, entendendo o ideal não como uma utopia, mas como um fato social ambicionado e pelo qual se luta, na expectativa de o alcançar, de o conquistar e não simplesmente de conseguir.
O estudante deve entender que educação acadêmico-escolar não é um direito que ele assume; trata-se de um dever social, uma responsabilidade que ele assume e que o acompanhará por toda a sua existência, logo, se ele não tem uma visão de futuro é porque a sociedade na qual está inserido, também não possui e o condenou a este vazio existencial.
Sócrates argumentava que a vida desprovida de um profundo exame antropológico não é digna de ser vivida.

CONVITE: CAFÉ LITERÁRIO




SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA

sábado, 1 de setembro de 2018

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: CENAS DE UM VOO (PARTE I)






Você já ouviu falar do Grupo Teatral Liberdade de Expressão? É um dos grupos de teatro com maior tempo de existência em Mutum.

Essa postagem pretende ser a primeira da série que tem por objetivo contar a história dessa bela iniciativa.

O texto a seguir faz parte da apresentação do grupo para a Secretária de Desenvolvimento Social, com algumas intervenções do blog. Agradecemos aqui a colaboração de José Alves Pinheiro para essa primeira postagem da série.

Teatro de São Sebastião - 2018



História do Grupo: 

Grupo Teatral 
Liberdade de Expressão

         Entre os anos de 1993 a 2000, no município de Mutum MG, neste período a pastoral da juventude, movimento pastoral da igreja católica, mais precisamente, os grupos de jovens existentes na zona rural e urbana da paróquia de São Manoel de Mutum.
         Os Grupos de Jovens Escalada e JESP desenvolviam em suas reuniões, dinâmicas encenações e pequenos teatros, onde os Jovens desenvolviam seus dons e aptidões, descobrindo nas artes cênicas uma nova realidade.
         Três jovens, José Manoel de Oliveira, Adriano de Carvalho e João Batista Alves, participando destes grupos de jovens e atuando nestes teatros juvenis, pegaram gosto pela arte e procurando aprender e desenvolver-se cada vez mais, atuando, dirigindo e escrevendo peças teatrais.
         Agrupando-se com outros jovens também com talento para arte, e com os mesmos ideais, decidiram por bem, no dia 10 de outubro de 2001 a formação de um grupo teatral amador, com o apoio do Pároco Padre Silas de Paula Barros, nesta noite também foi feita a eleição da diretoria do grupo, tendo como objetivo, se apresentar nas comunidades, escolas, festas e etc.
         Pretende-se também emocionar, as pessoas, com dramas, comédias e peças relacionadas a assuntos atuais na sociedade.
         No dia 13 de novembro de 2001, reunimos o Grupo Teatral, para escolhermos um nome para o mesmo, feito à eleição o nome mais votado foi: “Liberdade de Expressão” com o lema “O homem não é nada sem liberdade, liberte-se de suas fraquezas e tenha atitudes”.

INCURSÃO PELA SÉTIMA ARTE

VINGANÇA NA MONTANHA

         No ano de 2002, com roteiro próprio, o grupo teatral Liberdade de Expressão ensaiou e gravou um filme amador, denominado Vingança na Montanha, com poucos recursos, gasto do próprio bolso. Foi filmado na Pedra Invejada, ponto turístico de Mutum, em um único dia foi gravado todo o filme, por uma questão financeira e por falta de tempo mesmo, já que todos os 15 artistas têm seus trabalhos e ocupações.
         Precisamente no dia 03/11/2002 foi feito a filmagem, e depois de duas montagens, na cidade de Lajinha e depois Ipanema, teve seu lançamento nas locadoras do município de Mutum no dia 22/03/2003, grande parte da população assistiu, e entre elogios e criticas, teve o filme de Ação “Vingança na Montanha”, a sua exibição no canal 13, TV Mutum.

 QUARTETO SAPECÃO

         Cinco anos depois em 2008, o grupo Teatral Liberdade de Expressão, também com roteiro próprio, gravou o segundo filme, desta vez com patrocínio de alguns empresários, e com participação de 29 pessoas, entre atores, atrizes e figurantes.
         O filme de comédia, Quarteto Sapecão foi filmado entre os dias 04 de setembro a 12 de outubro de 2008 em 5 dias alternados de gravação.no dia 23/02/2009, o filme teve seu lançamento nas locadoras de Mutum, desta vez teve uma aceitação maior do público, com muitos elogios e poucas criticas. O filme Quarteto Sapecão, foi o mais locado e adquirido pela população em 30 dias consecutivos.


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