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segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

PENTALOGIA POÉTICA: ZÉ RONALDO EM VIDA É ESTE INFERNO DE GUERRA QUE SE PERDE TODO SANTO DIA

 

PEQUENOS ESTILHAÇOS DA GUERRA COTIDIANA

PENTALOGIA POÉTICA DE JOSÉ RONALDO SIQUEIRA em VIDA É ESTE INFERNO DE GUERRA QUE SE PERDE TODO SANTO DIA

 

EDITORA: LIBERTINAGEM

ANO DE PUBLICAÇÃO: 2022

 

Somos soldados em uma guerra diária pela sobrevivência. Isto é fato. Então cada um veste sua farda, suas farpas, sua armadura, alma-dura, e parte para o campo de batalha. Seja no emprego, seja no empréstimo. Seja na produção, seja na prostituição. Tudo é consumo e todos somos insumos. É uma das conclusões possíveis em Vida é este inferno de guerra que se perde todo santo dia. Livro de poema lançando este ano pelo escritor residente em Mutum José Ronaldo Siqueira. Seus poemas sãos estilhaços desta guerra. Optamos nesta pentalogia por poemas menores, não pelo tamanho, mas pela concisão e pela temática/pólvora contida nos versos do poeta.

Os cactos também se abraçam

Línguo a presalização da fera

Empedregulho o lacrimar do tempo:

A ansiolitização das esquinavidas

Os premeditos do desejosamente

O enluvamento do luto-líquido

O arf-arfar no onomatópico do leito-leitoso

Inimprecisar o lapsamente do almar

As harpias só andam, agora, de Uber

Elas já não sabem mais

(Ou não querem)

Conjugar a terceira pessoa do plural

Do verbo

Coração. 

 

Dá nisso mesmo

Às vezes

Oxigênio

Mancha meu pulmão

De

Vida...

 

Poesia de combustão

Palavras queimadas

Não geram poemas

A gênese da poesia

Se encontra

Na alma

Incendiária.

 

Náufrago

Eu

Na casa de mim

Evitando as enchentes

Evitando as nascentes

Evitando-me.

O vago opaco

Eu

No corpo dos outros

Na alma alheia

Defendendo

De mim.

Espelho reverso

Reflexo da sombra

O vago opaco

Esquecido por ti.


Estamos na trincheira da cultura, pois sabemos que “é só a arte para nos defender” como escreve o prefaciador Whisner Fraga.


COMO ADQUIRIR O LIVRO?

instagram do autor: @zeronaldo_siqueira


Nota do blog: Esta postagem foi publicada originalmente no blog Resenhas do Cláudio. Republicada aqui por ser um autor que reside em Mutum.

sábado, 20 de agosto de 2022

DESTINO: A ESCRITA CRIATIVA DE SYLVIA LAIGNIER

 
DESTINO: A ESCRITA CRIATIVA DE SYLVIA LAIGNIER

 

A imersão de Sylvia Laignier no universo do mercado literário com sua obra comercializada em forma digital na Amazon é mais uma evidência de que Mutum é uma terra literária para além de Guimarães Rosa.
 
Neste pequeno bate-papo, a autora de Para onde ir? nos fala do seu primeiro livro da série Universo Segredos para o blog Mutum Cultural.
 
Quando e como surgiu o seu envolvimento com a escrita criativa?
Meu envolvimento com escrita começou na infância, logo que aprendi a escrever. Eu passava muito tempo com a minha avó paterna, enquanto meus pais trabalhavam, consequentemente como ela sempre foi envolta com leitura e escrita, nós duas passávamos horas escrevendo prosas e poesias.
 
E a ideia da série Universo Segredos? Ela veio antes ou depois de Para onde ir?
Esta questão foi engraçado. Quando eu tinha uns 13 anos estava totalmente indignada que os personagens masculinos dos romances que eu lia nos livros não eram muito legais, por exemplo, ciúmes, palavras torpes e etc, eu tinha ficado com raiva e minha amiga apenas disse "se está ruim, faz você algo melhor", meio que eu levei isso ao pé da letra e acabei fazendo um personagem com falhas, mas ainda sim uma ótima pessoa, por isso que o Ismael surgiu.
 
O que o leitor encontrará em Para onde ir?
Uma leitura mais fluída e calma, conflitos familiares, risadas, romance água com açúcar e indícios de amores para toda vida com os meninos.
 
Os quatro personagens principais, Marcos, Hugo, Yuri e Ismael surgiram independentes ou juntos na criação do Romance?
Então, voltando à pergunta, veio primeiro o Ismael. Mas, eu sempre fiquei chateada com o ponto dos protagonistas nunca terem mais de um amigo, por isso veio os outros, cada vez que eu explorava mais a escrita no livro do Ismael as ideias vieram para os dos outros, até montar tudo certinho com o roteiro.

O enredo nos parece ser adaptado em uma cidade grande, como Belo Horizonte.
É sim, adaptado em Belo Horizonte, porque eu sou mineira, escritora nacional e queria reinventar os clichês dos livros, então por que iria seguir aquela risca de se passar em outro país com o Brasil tão bonito para ser explorado?
 
O relançamento será sexta-feira, dia 26 de agosto de 2022. O que te levou a fazer este relançamento?
Foi o meu perfeccionismo. Eu queria fazer tudo certinho, por causa que tive problemas com revisão, arrumei algumas coisas que tive de fazer e deixei a versão ainda mais completa com o epílogo.

***
 
Então temos um destino, a leitura do livro de Sylvia Laignier que está à venda na Amazon: PARA ONDE IR?


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

SEXTA-FEIRA TEREMOS LIVRO SENDO LANÇADO

 SEXTA-FEIRA TEREMOS LIVRO SENDO LANÇADO
 


Acsa da Luz Mendes fará o lançamento do seu livro Boas Novas De Um Novo Tempo. Trata-se de uma obra que traz textos tanto em verso quanto em prosa, mas nunca abrindo mão da poesia e da percepção de realidade da jovem autora.

O Evento será na Casa de Cultura, dia 07 de Janeiro de 2022, a partir das 19:30 horas. Vamos valorizar este momento ímpar da literatura mutuense.

 Segue a mini-entrevista que fizemos com a autora.

Quando você começou a escrever?
Comecei a escrever em 2016, com 16 anos, inspirada por uma imensa paixão pela filosofia e espiritualidade, e pela vontade de registrar as ideias que eu acessava em minhas meditações, para refleti-las, e mais tarde quem sabe, publicá-las.
 
BOAS NOVAS DE UM NOVO TEMPO é o seu primeiro livro?
Boas novas de um novo tempo é meu primeiro livro, já tem outro em andamento, continuo registrando essas ideias que tanto me servem, com o genuíno intuito de que sirva também aos leitores que irão adquirir a obra
 
Como foi o processo de publicação?
No processo de publicação participei ativamente junto com a editora, embora o tempo dado pelo edital fosse curto, fizemos um belo trabalho, que me permitiu realizar um grande sonho.
 
O que o leitor encontrará em seu livro?
No meu livro você há de encontrar textos e poemas expressos com grande clareza, que trazem em si o que chamo de grafia dos anjos, quando as palavras servem a um propósito mais elevado e se tornam meios de trazer elucidações, sentimentos nobres. Isto será percebido pelo leitor, gosto de dizer que os textos são inspirados e canalizados dos céus para que sirvam ao nosso desenvolvimento, e ao propósito divino que é criar um novo tempo para a humanidade, e através da elevação de nossas consciências, trazer à realidade o Reino de Deus, uma forma também de fortalecer a fé e a esperança diante dos dias difíceis que passamos, visando percebê-los como os sintomas de uma ferida, que se não fosse percebida nos levaria à morte, dói para que a percebamos e procuremos a cura.
 
Fale sobre o lançamento e suas expectativas para o evento:
Estou imensamente feliz por realizar essa apresentação, senti de organizar também uma exposição de artesanatos, para também presentear meus convidados através de sorteios no decorrer do evento, o mesmo farei com alguns livros, não estou preparando palestra, o que houver de ser dito será baseado nos sentimentos que me serão dados a perceber ao me apresentar, de antemão, sinto imenso prazer, honrada em compartilhar com meu povo essa obra tão importante e inspirada, sinto também uma grande alegria por reunir na nossa Casa de Cultura alguns dos meus mais queridos conterrâneos, dentre eles professores que participaram de minha educação, diretoras das escolas públicas que estudei, representantes políticos da nossa casa legislativa e alguns membros da administração da cidade, também se encontraram presentes os prezados poetas mutuenses, escritores que publicaram livros com recursos da Lei Aldir Blanc, dentre outros, será um evento memorável, um dia marcante para mim e para quem estiver presente, prestigiando esse passo importante na  ascensão da literatura de Mutum!

EVENTO: Lançamento do livro Boas Novas De Uma Nova Era
AUTORA: Acsa Da Luz Mendes
QUANDO: Sexta-feira, 07 de Janeiro de 2022.
ONDE: Casa de Cultura
HORÁRIO: A partir das 19:30 horas.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

RETOMADA LITERÁRIA


RETOMADA LITERÁRIA

 


            Ocorreu dia 14 de Dezembro de 2021 na cafeteria O Cafezeiro encontro de poetas da cidade de Mutum para celebrar a retomada das atividades literárias coletivas na cidade, observando os protocolos de segurança, claro.

            Estiveram presente os poetas Cláudio Antonio Mendes, Gisélio Jacinto de Alencar, Acsa da Luz Mendes, João Carlos Rosa, Ana Hübner e José Ronaldo Siqueira. Acsa recitou os poemas de Wagner Lopes que não pode comparecer.

            A organização do encontro lembra que vários outros poetas da cidade não foram convidados neste primeiro momento por ser um evento experimental. A pretensão é promover outros eventos iguais a este com os demais para que a troca de experiências tanto no produzir poético quanto na divulgação de seus trabalhos para que a chamada Década de Ouro da Literatura Mutense (2011-2020) siga luzente nos próximos dez anos.

            José Ronaldo Siqueira, idealizador da Retomada Literária falou da necessidade de não deixarmos Mutum sem espaço para os fazedores de literatura. Criar eventos para que cada poeta possa expor seu jeito de poetizar. Em seguida Cláudio Antonio Mendes disse que projetos para o ano vindouro estão sendo pensados no sentido demonstrar que em Mutum há muito talento silencioso e que poderemos estar sempre incentivando que cada um coloque suas ideias e sua criatividade em versos.

            Em seguida foi organizado três rodadas de leituras/recitações de poemas, sendo a 1ª e a 3ª com três poemas de cada poeta e a 2ª com quatro.

            João Carlos Rosa comentou sobre a diversidade do noso fazer poético. Mas que todos nós trabalhamos com as palavras e expressamos através de rimas ou figuras de linguagem e construção sua inspiração. Houve sorteio e distribuição de livros de brinde para quem esteve presente.

 

ACSA DA LUZ MENDES

Que nesse caminho de sombra e sol

Pensar seja o nosso farol

E que nossa missão de cada dia

Seja viver a FILOSOFIA

 

***

Aflora tua sensibilidade

Se orgulhe da vaidade

Das minúcias e detalhes

O que lhe invade é a perfeição

Á procura de expressão 

            A poetisa Acsa da Luz Mendes nos apresentou textos em formas poemas e também prosa poética do seu livro Boas Nova de Um Novo Tempo, publicado pela lei Aldir Blanc e que será lançado dia 07 de Janeiro próximo. Esperamos que Acsa continue nos produzindo e partilhando sua reflexão sobre o mundo tanto em versos como em prosa.

 

ANA HÜBNER

Maduro silêncio corta o instante

Busco abrigo em mim mesma

Sem memória

Encontro o vazio

***

Sobre a solidão do mar

Flutua o sol em ociosas sombras

A apagar a luz, a vida

Uma espera que se foi na asa do vento. 

            Ana Hübner, que publicou o livro Cantos Poéticos: A(mar) pela Lei Aldir Blanc nos presenteou com a profundidade de suas metáforas em poemas viscerais, tanto com os já publicados em seu livro quanto com novos trabalhos. O mar e a lua, o desejo e a busca estão sempre pautando os seus poemas em belíssimas construções.

 

CLÁUDIO ANTONIO MENDES

Caminhar sobre a relva e tropeçar em vão

Nos erros que afloram diante dos pés gastos

Cambaleante penso que passos são palavras

Escrevendo poemas em praças de guerra.

 

***

Você não percebe meu sopro sobre as centelhas

Por mais que eu não queira, elas se apagam

Não adianta medir esforços para me salvar

Acolho minha sentença como inspiro oxigênio.

            Poeta que também publicou pela Lei Aldir Blanc o livro Versos Infectantes: (MÓ)mentos de uma pandemia, apresentou novos poemas postados em sua página no Recanto das Letras e escolhidos para fazer parte de antologias como Entrelinhas do Silêncio. Os trabalhos são poemas que farão parte de uma futura obra por ora denominada Edição Extra – 2.


GISÉLIO JACINTO DE ALENCAR

Em certa estrada de terra amarela,

eu certa vez por ali a passear,

E ouvi uma voz que me dizia

bem debaixo da cancela:

- Quero hoje com o moreno duelar.

Confesso que não sou muito medroso

e nem de uma boa briga eu sou de correr,

Mais no momento o desafio do tinhoso,

pôs todo o sangue das minas veias ferver. 

            O autor de Fragmentos Perdidos e Um Olhar Para o Horizonte, também contemplado pela Lei Aldir Blanc em que publicou seu livro de fantasia juvenil AS Aventuras de Lale, abriu sua participação com um belo cordel recheado de religiosidade e cultura popular. Na sequência nos trouxe poemas anotados em seus cadernos, por enquanto.

 

JOÃO CARLOS ROSA

As presilhas

Amarradas com palhas

Não aceito o seu preconceito

Que invade o meu roçado

Pois carrego fome pendurada

No meu jeito capiau.

 

***

Somos chamados de pai

Outros de avô

Vamos acumulando pontos

Na corrida do tempo

Com essa sabedoria divina

Guardada no paiol da vida.

João Carlos Rosa, residente em Barra Longa, outro contemplado pela Lei Aldir Blanc, publicou Uma vida de Poemas em 2020, assim como os demais contemplados aqui mencionados. Seus poemas versam em geral sobre a peleja e vivências do homem do campo enriquecendo com suas metáforas bem construídas a nossa cultura mutuense.

 

JOSÉ RONALDO SIQUEIRA

Quando as rodas do ontem

Te atropelam hoje

Amanhã será velório?

Amanhã será batismo?

Amanhã, será?

 

***

Ser mineiro

É ter um nó no pescoço

(gravata ou forca?)

Sonhando com a liberdade

Libertas

Ainda que tardia

        O idealizador do nosso encontro com grandes trabalhos na prosa, nos presenteia com seus versos agudos. Pedras no caminho, pedras angulares que são basilares na reflexão sobre a vida e seus desafios. Valoriza aqui e ali nosso jeito mineiro de ser, ainda sendo ele carioca. Seus versos nos enche de indagações sobre nossas decisões e omissões perante um mundo tecido por segundas intenções.

 

 

WAGNER LOPES FONSECA

Seus olhos.

Ahhh!!! Seus olhos

Esses sim, razão de sua alma

Janela do vento

 

***

Tenho um coração de pedra

De pedra invejada

Coração do meu lugar

Adornos são feitos de granito.

        Wagner Lopes, que justificou sua ausência, deu a incumbência a Acsa que apresentou poemas. Podemos ouvir da lavra do poeta obras que alternam amor pelo nosso município e versos repletos de romantismo/sensualismo. Sem obra publicada, por enquanto, mas que já compartilhou em parte seu trabalho pelas redes sociais, ele é mais um admirador da arte de versejar na constelação dos nossos bardos.

       O blog Mutum Cultural deseja que em 2022 tenhamos mais eventos regados da boa poesia inspirada em nosso município, e que tantos outros poetas possam estar abrilhantando os encontros e compartilhando seu poetizar e seus desafios no ofício de tornar a vida mais respirável através de versos inebriantes.

 


    Por iniciativa de Ana Hübner, os poemas recitados foram dispostos para quem quiser leva-los para casa no recinto da cafeteira O CAFEZEIRO. Se você gosta de poemas, passe lá e pegue uma de nossas produções e deguste sem moderação.

    A coordenação do evento também agradece a cafeteria O Cafezeiro por ter cedido o espaço e pelo apoio ao evento. 

sábado, 1 de maio de 2021

ANATOMIA POLIDA: ATLAS DOS NOSSOS MUNDOS P(OL)UÍDOS

 

José Ronaldo Siqueira é um carioca que reside em Mutum. Atlas anatômico para almas puídas é seu quarto livro (o segundo pela Editora Patuá). Também são seus os livros: O prisioneiro (2012); Historinha é o escambau! (2016); Manual não injuntivo de como criar um monstro (2018), também pela Patuá, foi finalista (3º lugar) no concurso da Biblioteca Nacional em 2019, na categoria romance.

 

Vamos deixar que o autor falar da sua obra, com seu jeito franco, nesta mini entrevista.

                                                                    CABEÇA


“Morri. Morro. Acordei. Acordei? Acho que sim. Mas como assim, acho, não tenho certeza se acordei? Como não ter certeza?"


MUTUM CULTURAL: Atlas anatômico para ideias puídas é um livro de contos. O que o leitor pode encontrar nas páginas da sua obra? Há um fio condutor que interliga os contos?

ZÉ RONALDO: Há. Mas no tocante ao motivo. O Atlas é um livro que versa sobre esperança/desesperança. Sabe aquela história de que no fundo do poço ainda há um alçapão, pois então, quanto mais nos afundamos no desespero e na falta de um vislumbre qualquer de lume, mais forte e crescente é, ao mesmo tempo, a sensação de que tudo ainda pode, de uma maneira que não imaginamos qual seja, dar certo. Essa desesperança acaba por, de certa forma, alimentando nossa esperança. O Atlas é o segundo livro de uma trilogia. O Manual foi o primeiro. O terceiro já está pronto. Talvez o lance ano que vem, ou espere um pouco mais.



                                            TRONCO


“Ah, disso eu tenho minhas dúvidas. Dissimulada e expert na chantagem emocional, como você sempre foi, não me admiraria...”



MUTUM CULTURAL: É seu segundo livro pela Patuá, uma editora bem conceituada no mercado editorial. A que você credita este feito?

ZÉ RONALDO: Olha, imagino que o que me possibilitou lançar novamente pelo selo da Patuá, tenha sido o fato de que o Manual ficou em 3º lugar no concurso da Biblioteca Nacional, que é um dos 5 concursos do grand slam da literatura nacional (Oceanos, Prêmio São Paulo, Jabuti, BN - Biblioteca Nacional - e Sesc - este último, só para autores ainda não publicados). Só vejo por aí. O livro anterior, o Manual, não vendeu muito pelo site (a Patuá não distribui os livros em livrarias, diz que não dá lucro para a editora, por isso opta apenas pela venda online, no próprio site da editora), foi só os que eu vendi no lançamento e alguns poucos depois. Sou melhor autor do que vendedor, hahahahahahahaha. 

                                                                        

                                                                     MEMBROS                                                              

“E se fugir? E se eu sair de casa? Será que esse bicho me segue? Será que vem atrás de mim? E se eu me escondesse em um bosque ou uma floresta, onde não houvesse paredes?"

 


MUTUM CULTURAL: Como o leitor pode adquirir sua obra?

ZÉ RONALDO: Como eu já disse, uma das formas de adquiri-lo é através do site da Editora Patuá, e, sempre tenho alguns comigo também, para quem quiser já tê-lo autografado, podem me encontrar no facebook .




NOTAS DO BLOG:

I) Estamos idealizando uma série de postagens intitulada por enquanto de Década Fértil: A produção literária de 2011-2020. Valorize os autores de Mutum. Somos destaque na região em termos de produção literária.

II) Como foi dito na mini entrevista, Atlas anatômico para almas puídas é o 2º livro de uma trilogia. Vamos aguardar o terceiro para podermos fazer uma postagem envolvendo toda trilogia.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

VERSOS DA VIDA DE JOÃO PINTO DE MOURA

 


João Pinto de Moura é um daqueles poetas que não rompem o cordão umbilical com sua terra e com a cultura do seu povo. Seus versos, rimados, procuram contar histórias vivenciadas por ele. Chega a ser a epopeia de um mutuense que celebra suas vitórias com júbilo que as transmitem em cada estrofe da sua poesia de fácil compreensão e de profundas reminiscências que nos levam a viajar a através do tempo.
 
Pessoas e lugares que habitam a sua memória dão vida a seus poemas. É por isso que seu jeito de poetizar provoca saudades. Podemos pescar no amplo ribeirão do seu livro Histórias de uma vida em versos menção a fatos que servem de base para reconstruir histórias, como o grupo de adolescentes Atalaia. O livro de João Pinto de Moura também é um álbum de lembranças especiais da sua vida que trazem em segundo plano ambientes de tempos idos que ficaram aqui eternizados.
 
Como proposta da nossa série, abrimos nossa pentologia com Histórias de uma vida, o primeiro poema, como um prefácio do que vamos encontrar em cada página, e por último o poema Registrei para vocês, que serve de posfácio.
 
Os outros três poemas foram de difícil escolha. Quisemos representar a pluralidade de assuntos. Escolhermos Charola para lembrar uma das atividades culturais de cunho religioso que faz parte da sua realidade atual. Já A pracinha – igrejinha de São Sebastião nos trás uma parte da história do catolicismo em Mutum que nem todo mundo conhece.
 
Tia Juraci
é uma bela homenagem a uma pessoa que foi, para muitos, sinônimo de simpatia, serenidade e caridade. Acredito que João Pinto de Moura tem muito mais a falar de sua tia. Quem sabe em um próximo livro.
 
Antes de ter a oportunidade de publicar seu livro através da Lei Aldir Blanc (Lei Federal Nº 14.017/2020), seus poemas já foram objeto de leitura e comentário em uma das nossas sessões do Café Literário. Foi a única experiência que tivemos com escritores  ainda não publicado.
 
Vamos aos cinco poemas que escolhemos para esta pentalogia.









HISTÓRIAS DE MINHA VIDA

Vou contar para vocês
Não é tudo que passou
É, parte de minha história
Desde quanto começou
 
Eu nasci em um recanto
Num cantinho beira mata
Onde passei minha infância
No córrego Ponte Alta
 
Nossa casa era pequena
Mas era muito singela
Pra buscar água na bica
Atravessava uma pinguela
 
Construída de pau a pique
Amarrada de cipó
Com telhado de tabuinha
Bem pertinho da vovó
 
   

CHAROLA

Na música sou sertanejo
Também gosto da popular
Gosto muito da charola
Pra meus versos entoar
 
As histórias desses Santos
Escrevi com dedicação
Dois mártires da nossa igreja
Manoel e Sebastião
 
 

A PRACINHA – IGREJINHA DE SÃO SEBASTIÃO

A Praça Raul Soares
Me deixou muitas lembranças
Que hora em poeira ou barro
É onde brincavam as crianças
 
Onde hoje é o sindicato
Tenho grande recordação
É ali que existia
A igrejinha de São Sebastião
 
Tinha também um coreto
Em boa conservação
Onde ali o povo usava
Para arrematar o leilão
 
 
TIA JURACI
 
Falando em caridade
Lembro da Tia Juraci
Que fazia o bem a todos
E até esquecida de si
 
Ajudava o povo inteiro
A todos sem distinção
Se batiam em sua porta
Abria de coração
 
Acolhia as famílias
Os doentes do hospital
E também muitas gestantes
Pra ganhar o seu Natal
 
Quantas vezes em minha casa
Ela muito ajudava
Cuidando da sobrinha Celsa
Quando os meninos ganhava
 
Não tinha dia nem hora
Era até de madrugada
Só saía pra ir embora
Quando tudo se ajeitava
 
Acredito que teve no céu
Um cantinho reservado
Pois tudo de bom que fez
Lá foi bem recompensado
 
 
 
REGISTREI PARA VOCÊS
 
Eu contei para vocês
Não foi tudo que passou
Foi parte da minha vida
Desde quando começou
 
Um pouquinho de cada coisa
De tamanha gratidão
Dos amigos, do tempo passado
Coisas da recordação
 
Ao terminar estes versos
De verdadeira expressão
Que é parte do meu passado
Sinto alegria e emoção



PENTALOGIAS POÉTICAS


sábado, 12 de setembro de 2020

UMA COLETÂNEA, DOIS MUTUENSES


Foi coincidência dois mutuenses selecionados para a mesma coletânea literária do projeto Apparere, ligado à editora PerSe. Foi o que ocorreu em agosto, quando os escritores Cláudio Antonio Mendes e Sérgio Rodrigues de Souza tiveram seus textos aprovados para participar da coletânea Meus filhos, meu maior tesouro!

 

Cláudio Antonio Mendes participa dessa coletânea com o poema No abraço dos rebentos. Nele, o poeta fala da força de uma mãe que carrega nos ombros o desprezo do mundo, a desilusão  e todo tipo de sortilégio encontra no abraço dos seus filhos para ainda continuar respirando.

 

Sérgio Rodrigues de Souza integra a coletânea com o texto tendo o mesmo título da coletânea. Ele faz um mergulho em vários aspectos, incluindo o filosófico, para enriquecer a reflexão que devemos fazer sobre o que de fato um filho é para seus pais. Faz distinção entre dádiva e presente e que os pais também têm muito a aprender com os filhos. Filhos são tesouros não por carregar a herança genética do pai, mas pelo que o filho oferece aos pais.

 

Ambos já participaram de outras coletâneas do projeto Apparere além de terem livros publicados e vendidos na plataforma da editora.

 

Livros vendidos pelos autores na PerSe:

Cláudio Antonio Mendes

Sérgio Rodrigues de Souza


Link para o projeto: 

APPARERE


Link para adquirir o livro: 

Coletânea Meus Filhos, meu maior Tesouro!

domingo, 2 de agosto de 2020

NOSSA LITERATURA E O CONTEXTO REGIONAL

         

    Para celebrar o dia do escritor, 25 de julho, a Associação Sociocultural de Conceição de Ipanema-MG (Concipa) realizou a série de lives denominada Semana Literária: Espaços e perspectivas para a produção literária no interior, nos dias 21 a 24 de julho de 2020. O evento foi organizado e mediado pelo Professor José Aristides da Silva Gamito.

         Participaram dessa atividade dois escritores de Mutum-MG, Cláudio Antonio Mendes no dia 21 com o tema O processo de produção literária e o prazer da leitura e José Ronaldo Siqueira no dia 24 com o tema O poder da literatura: A relação escritor/leitor e os benefícios da leitura. Foram entremeados com a participação de Romildo Alves, de Pocrane-MG, com o tema Falando de quem gosta de escrever!, no dia 23.

         A Concipa, que tem realizado uma série de lives como a Semana online de filosofia e Seminários de educação política, trouxe para a discursão as temáticas próprias da literatura, contribuindo para que a nossa região pudesse ter acesso a aspectos relevantes da produção literária no Brasil e seus desafios.

O Professor José Aristides da Silva Gamito concedeu ao blog Mutum Cultural entrevista falando sobre o evento:


Mutum Cultural: Como surgiu a ideia da Semana Literária?

José Aristides da Silva Gamito: A ideia surgiu da necessidade de dar continuidade ao projeto de incentivo à escrita e à leitura que a Associação Concipa vem fazendo desde 2018. O trabalho foi interrompido pela pandemia. Então, pensei no recurso das transmissões online (lives) para prosseguir com o projeto e utilizar as lives para entrevistar os escritores das cidades vizinhas que já possuem experiências. O projeto foi uma iniciativa minha com o apoio da Associação Sociocultural Concipa.

 

Mutum Cultural: Que outras atividades a Concipa já desenvolveu em relação à literatura? Em relação a outras atividades artísticas?

José Aristides da Silva Gamito: As atividades de valorização da arte acontecem através de uma agenda cultural anual. A cada dois meses, realizamos o Sarau Cultural. Nas demais ocasiões, aproveitamos as datas comemorativas para alcançar todas as formas de arte. Já realizamos exposições de pintura e escultura, festival de música, produção de curta-metragem, concurso de desenho, intercâmbio cultural. No campo específico da literatura, realizamos a publicação artesanal de suas coletâneas de poetas de Conceição de Ipanema. Além de haver em todos os saraus o cantinho da poesia.

 

Mutum Cultural: Qual a contribuição que a Semana Literária deu para alavancar a literatura na nossa região?

 

José Aristides da Silva Gamito: A primeira contribuição que esperamos é a motivação para que pessoas comuns mostrem seus talentos na escrita, que tenham coragem de escrever e de divulgar seus textos. Depois, esperamos criar vínculos com as cidades vizinhas para trocar experiência entre escritores. E também, gerar meios de amparo e de fortalecimento dos escritores do interior. Por isso, fiquei muito grato por receber na semana dois escritores mutuenses, Cláudio e José Ronaldo, e um escritor pocranense, Romildo!


         Para o professor e escritor Cláudio Antonio Mendes, iniciativas como essa contribuem como estímulo a quem escreve em nossa região. Com o advento das comunicações através da internet o caminho entre o escritor e os meios de produção editorial ficou mais curto, porém, com mais encruzilhadas. Didaticamente, o autor de obras como Uni versos, Decalogias poéticas e Duas noites de vingança salientou os cinco meios de produção em que um escritor poderá percorrer até ver sua produção literária transformada em produto para estar disponível para o leitor, Mas alertou para o entusiasmo em demasia, achando que vai conquistar centenas de leitores a partir de uma única obra. Ele também falou resumidamente do encanto de se ler, citando Monteiro Lobato como ilustração. Cláudio Antonio Mendes também falou sobre a importância de uma associação de escritores regionais.

         Cláudio Antonio Mendes ainda destacou a Lei Aldir Blanc como possibilidade de alavancar a produção no interior.

 

         Outro mutuense, de habitat, que participou foi José Ronaldo Siqueira, autor de O prisioneiro, Historinha é o escambau! e Manual não injuntivo de como criar um monstro. O blog também ouviu esse lavrador das narrativas que tem sido exitoso em concursos literários Brasil afora.

Na última semana, participei, juntamente com o amigo, colega de trabalho e irmão de pena e tinta, o Cláudio Mendes, de uma semana literária, idealizada e mediada pelo também amigo e colega José Gamito, de Conceição de Ipanema. A proposta era de se entrevistar autores da região, através de lives, sobre a forma de produção e a visão de escritores do interior sobre a literatura brasileira contemporânea e a exclusão ou não dos autores independentes interioranos no contexto nacional.

         Conversei sobre como é meu modus operandi quanto à concepção da história, como eu faço para produzir meus livros (o processo todo, desde a idealização até a publicação), onde eu comento, inicialmente, que o importante é se fazer um portfólio do seu material através de concursos literários espalhados por todo o país. Quando se coletar uma certa quantidade de textos premiados, pode-se ir atrás de uma editora. E, o mais importante de tudo: um escritor e´, antes de mais nada, um leitor em potencial. Não existe escritor que não consuma literatura (nacional ou não). O hábito de leitura é instrumento mais do que essencial nesse assunto.

         Foi algo realmente muito, mas muito interessante e importante a semana literária de Conceição de Ipanema. Pudemos nos divulgar, mesmo que com uma plateia singela, mas o mais importante: pontapé inicial foi dado para a divulgação do nosso trabalho e de que, saibam por aí, que o interior tem gente escrevendo, sim. Escrevendo e publicando.

 

Durante o evento foram sorteados dois livros Uni Versos contendo poemas de Cláudio Antonio Mendes. Os contemplados foram Phillipi Carlos Gonçalves, de Pocrane-MG, e Cleuza Dias de Assis Bernardes, de Alto São Luiz, Conceição de Ipanema-MG.  

         O fomento da nossa produção literária a nível regional deu um sobressalto a partir desse evento.

    

AGRADECIMENTO

O blog, na pessoa do presidente da Concipa, Alexandre Lima, ressalta o empenho de todos os integrantes da entidade promotora do evento.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A PERGUNTA QUE TODOS FAZEMOS - PARTE II




Nessa segunda parte da entrevista, o autor do livro O Que Farei Da Minha Vida Ao Sair Daqui? Um Ensaio Sobre Pedagogia Carcerária, que abrilhantará o Café Literário, no próximo sábado, a partir das 08:00 hs, na Biblioteca Municipal, evento promovido pela Secretaria de Cultura de Mutum.
         Sérgio Rodrigues de Souza nos conta sobre a iniciativa de escrever essa obra em que filosofia, antropologia, psicologia social e pedagogia se encontram para analisar o homem em suas prisões a partir da busca de perspectiva para a vida.
         O autor também fala da sua expectativa para o Café Literário quando poderá compartilhar com os participantes, cara a cara, sobre a história do seu livro que traz em seu bojo parte da sua história e da sua concepção de vida.



ENTREVISTA


MUTUM CULTURAL: O seu livro surgiu a partir de uma experiência pedagógica em um ambiente específico. Comente sobre essa prática que te levou à reflexão:

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: No ano de 2008, a Professora Márcia Luzia Pires de Sá, à época Secretária Municipal de Educação de Mutum, junto à Inspetora Meyre Ribeiro, me convidaram para trabalhar, como professor regente de turma, na Unidade Prisional de Mutum.
Na oportunidade, iniciei um trabalho de registro das atividades pedagógicas, de observação-participante, de depoimentos dos detentos [na condição de estudantes], entrevistas, histórias pessoais, coletivas e sobre todo este material, construí uma investigação acadêmico-científica fundamentada no estudo de autores clássicos nos campos da Antropologia, da Psicologia, da Filosofia e da Sociologia.
Em 2014, fui estudar sob a orientação do Professor Dr. Luis Eligio Martelly, em Havana, que é pesquisador na área de educação prisional e a maior autoridade mundial no assunto, tendo criado métodos inéditos de pesquisa neste campo. Na oportunidade, pude conhecer o sistema educacional cubano, o sistema prisional daquele país e assim, elaborar propostas pedagógicas para adolescentes em condições de privação de liberdade.
Em 2016, fui estudar com a eminente Professora Drª. Amelia Haydèe Imbriano, na Universidad Kennedy (Buenos Aires), a mais conceituada cientista internacional em crimes violentos cometidos por crianças e adolescentes, autora de vários clássicos que trazem reflexões profundas sobre o tema. Neste momento, é que elaboro meus estudos sobre a questão da delinquência juvenil como forma de busca por reconhecimento individual e coletivo, mais uma forma estranha de compensar a ausência da autoridade e da presença parental concreta.
Neste mesmo ano (2016), tenho a oportunidade e a honra de orientar um estudante de Mestrado da Universidad Del salvador (Buenos Aires), o Sr. Belarmino Oliveira, que estudava e pesquisava sistema de educação na Penitenciária de Viana (ES). Este representou um momento ímpar, porque era a hora de observar o trabalho sobre prisões a partir de uma lente externa.

MUTUM CULTURAL: Na sua percepção, o que a perda da liberdade pode provocar no homem?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A primeira coisa que a perda de liberdade provoca é um alijamento social, o que por si só, já representa um fardo muito intenso e bruto para um ser humano suportar, porque desde muito cedo, somos educados e educamos para uma vida em comunidade, em companhia de outros e isto, a pertença grupal é um sentimento instintivo mais antigo que o próprio ser humano, porque a estrutura cerebral reptiliana antecede em centenas de milhões de anos à estrutura cortical consciente. Estar afastado da sociedade significa, em termos primitivos, a uma condenação existencial.
Na esteira disto, ocorre a perda de alguns sentimentos, como a perda de empatia, transformando o que antes poderia ser um ser humano em qualquer coisa, chegando ao ponto de ser classificado como monstro, ou seja, uma casaca vazia que não sente nada por ninguém.
A perda de noção de tempo é outra parte do processo, as paredes brancas tendem a ir desgastando o senso de mudança das horas e estações até que não exista mais, no indivíduo, a capacidade de determinação do espaço-tempo pensado de forma abstrata como é possível fazer. Ocorre, ainda perda da racionalidade, alterações psicológicas, estas difíceis de prever, porque cada ser irá reagir de forma singular quando privado de sua condição de liberdade.
O pertencimento social conduz a obediência a leis e costumes que dado o seu constante exercício forma o que se chama de consciência social, princípios morais, obediência civil, civilidade, urbanidade, ética. Quando se afasta o indivíduo deste processo, aos poucos seus sentimentos com relação a estas situações vão desaparecendo, uma vez que não são praticados e o que resta é um ser que segue suas próprias leis, este que Aristóteles (384-322a.n.e. [2007] classifica como não sendo humano, chegando a afirmar que ou é um deus ou é um animal, porque somente os deuses e os animais podem viver sem leis e/ou sozinhos.

MUTUM CULTURAL: O que precisa ser aprimorado no nosso sistema prisional?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A estrutura de cumprimento da sentença, em que a maioria dos condenados fica sem ter o que fazer, perdidos em pensamentos espúrios e vazios. Nisto, surge a necessidade de que se aprimore na questão de proporcionar atividades laborais concretas, destinadas a produzir bens de consumo próprio e que possam gerar divisas para o Estado.
A questão do ensino e das atividades físicas, religiosas, também necessita ser pensadas de forma a que os detentos tenham acompanhamento profissional adequado e isto não se trata de dar a eles, nenhum tipo de privilégio, mas parte da ideia de proporcionar auxílio para que possam ter o mínimo possível de condições de reabilitar-se socialmente.
Quando o sistema deixa o indivíduo entregue à sua própria sorte, crente de que a natureza divina cuida de proteger os homens do mau, direcionando-os para caminhos virtuosos, tem-se a produção de criaturas estranhas e sem medidas que seguirão seus próprios princípios de fé e de verdade.
Atividades laborais irão contribuir para o aperfeiçoamento e mesmo para uma profissionalização do apenado, porque em sua maioria não possuem profissões de ofício, a começar que são detidos em tenra idade; agrega-se a isto, o nosso combalido sistema educacional que, ao estrangular o ensino técnico, entrega para a sociedade, um jovem de 18 anos de idade que não possui uma profissão oficializada, ainda. Dispõe na sociedade um sujeito crítico, mas que não sabe fazer absolutamente nada!



MUTUM CULTURAL: Ao construir sua narrativa, é utilizado a logopeia de Ezra Pound, ou seja, a comparação com narrativas da cultura universal. Dois exemplos são a velha história árabe d’O Gênio Na Garrafa e o Minotauro da mitologia grega. Qual a importância dessas narrativas universais para a compreensão do ser humano na sociedade hoje?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A garrafa representa o que hoje se preconizou chamar de bolha, onde todos nascem, crescem, formam uma personalidade virtual, reproduzem um vazio intelectual e espiritual, tudo isto na ausência mais completa de qualquer relação de empatia, porque não existe contato físico, como se tal coisa fosse transmitir uma doença crônica mortal.
Assim é que, no aniversário dos amigos e mesmo das pessoas mais próximas como marido, esposa, namoradas, filhos, manda-se um emoj de flores, de abraço, de beijo, uma oração [re]copiada de algum site qualquer, tudo isto em nome do tempo, da falta de tempo, etc... Em pouquíssimos anos, todos à volta são estranhos, o que faz com que quando ocorre um atropelamento, todos querem tirar fotos e selfies com a vítima arrebentada, ao invés de chamar a ajuda especializada.
Com o tempo, torna-se avesso ao contato humano, ao ponto de que se alguém vem com a intenção de dar um abraço isto já é interpretado como assédio e um processo judicial ou um empurrão aguarda o indivíduo inocente. Perde-se a humanidade quando se passa muito tempo afastado do contato humano com seres humanos, lidando tão somente com situações mecânicas de relacionamentos.
Com relação ao Minotauro, o labirinto representa esta existência vazia, sem sentido e que não mostra a menor possibilidade de uma fuga em que o ser humano percorre não se sabe que vias, em busca sabe-se lá de quê, sozinho, porque teme procurar ajuda e nisto admitir que está perdido, porque o seu companheiro, mais perdido que ele, procura em si esta condição de força e de coragem. F. Nietzsche tem um aforismo onde diz: “Eu sou o valor que dou a mim mesmo!” E o valor que a igualdade pode auferir ao ser humano é isto: o nada!, a solidão, o vazio, a ausência de sentido completa para si mesmo. A vida e a existência não podem ser reduzidas a um labirinto sem saída, porque o fracasso constante embrutece até o ponto de ver-se entregue a um estado deplorável de psicopatia.

MUTUM CULTURAL: Em que situações da vida atual o ser humano sente-se como encarcerado e não ousa fazer a pergunta que intitula o livro?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: No Século XXI, a todo instante. E tornou-se escravo desta condição porque teme a resposta que virá de si mesmo; ele não sabe o que fazer de sua vida no instante seguinte, dado que a existência e toda a liberdade porque o ser humano lutou desde fins da década de 1960, transformou-o em um autômato, uma criatura anômica, sem saber o que quer da vida, vivendo de acordo com a gíria: seguindo o fluxo.
Para fazer tal pergunta, é preciso ousar e saber que a resposta pode ser um simples não sei e isto não significa estado de decadência, devendo ser tomado como princípio para buscar uma resposta. Em Filosofia, toda grande descoberta parte de uma pergunta, para a qual inicialmente não se tem resposta alguma, às vezes, nada mais que hipóteses, suposições, elucubrações. O valor encontra-se na coragem de se fazer a pergunta e ao deparar-se com uma incerteza ou um vazio, compreender que faz-se necessário preencher estes espaços em branco e isto somente se consegue enfrentando a realidade, por mais cruel que possa parecer e mesmo apresentar-se ao indivíduo.
O fato de evitar fazer tal pergunta representa despreparo para com a existência, medo de ter que enfrentar a vida e fracassar. No entanto, fracasso e sucesso são faces da mesma moeda, produtos da ação. Como diria o Zaratustra de Nietzsche: “Eis a vida! Então, vamos à vida!”    

MUTUM CULTURAL: O que este livro diz para os trabalhadores na educação como professores, especialistas, diretores e serviçais, bem como os gestores, no exercício da sua profissão?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Educação é um compromisso social, não um direito como se quer fazer acreditar; é um dever cívico. A comunidade escolar deve tomar para si a missão de formar um homem em sua integralidade. E isto implica em construir valores concretos, tendo em vista a história daqueles que nos antecederam e a pretensão de construir um Estado melhor, não abstendo da tradição clássica e nem dos princípios humanísticos que permitiriam ao homem resistir a tantas e tantas mudanças radicais.
À escola cabe ensinar aos estudantes como aplicar seu intelecto para o crescimento individual e social e nisto inclui o respeito e a obediência àquilo que mais se possui de valor na sociedade: O Outro. Nietzsche expressa sobre isto o seguinte: “Quando se julga um criminoso, diz-se que ele falhou com a sociedade. engano fatal. Foi a família, a escola, o padre, o pastor, todos que falharam com ele” (2007) e, por consequência, todos falharam ainda com a sociedade que passa a temer este indivíduo e a sofrer em suas mãos.

MUTUM CULTURAL: Quais são as suas expectativas para o Café Literário no dia 15 desse mês, na Biblioteca Municipal?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Minha expectativa é a de que os participantes entendam que o livro é uma expressão de que existe uma necessidade premente de discussão sobre uma problemática e não sobre um problema isolado. Todo o texto traz uma discussão em torno de uma situação factual, presente e crescente e que a não intervenção eleva o custo social da existência, onde todos estão se tornando escravos da própria inépcia social, no que se refere ao assunto posto.

 PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA: MUTUM CULTURAL


                      O blog Mutum Cultural reforça o convite para o Café Literário.