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quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

ERA SÓ DE MANHÃ: ENTREVISTA COM LUCAS BARBOSA

 Lucas Barbosa é um músico mutuense que vem conquistando espaço e expandindo seu trabalho em nossa região. Em dezembro ele lançou sua segunda música autoral, Era só de manhã.

Nesta entrevista ele nos fala sobre sua nova música e o evento de lançamento. Confira:


Você fez o lançamento da sua segunda música dia 13 de dezembro no Bar do Vilmar. Qual a diferença para você entre uma apresentação corriqueira e um lançamento?

O lançamento de uma música tem um peso maior porque é algo muito importante pra carreira, além do fato de que o lançamento foi junto com um evento que eu e minha equipe que organizamos. Tudo traz ainda mais uma responsabilidade por que tem todo o processo de produzir o evento.


“Era só de manhã” é uma canção em qual estilo musical?

Ela pode ser considerada uma MPB pela estrutura harmônica, meu primo João Luiz que foi o compositor da música chama de “EmoPB”, uma brincadeira com o emo que é meio melancólico/triste.


A letra aborda qual tema?

A letra é aquela clássica sofrência de amor, de forma abstrata em alguns versos, literais em outros.

 

O que você pontua de relevante no lançamento de “Era só de manhã” em relação ao lançamento do single “Tempo” em 2021?

Pontuo um amadurecimento musical, a música “Tempo” tem uma pegada mais pop/rock, foi meu primeiro lançamento, tudo era novo. A “Era só de manhã” é uma música mais profunda e complexa na composição e letra. E esse amadurecimento também se reflete no timbre da voz, pela idade e na interpretação por ter mais anos de experiência com a minha voz.

 

O lançamento correspondeu a sua expectativa? Se sim, em quais aspectos?

O evento de lançamento superou minhas expectativas, confesso que não imaginava que íamos superlotar o Bar do Vilmar, isso mostra a força do meu público/fãs em Mutum, fiquei muito feliz.

O lançamento da música também correspondeu positivamente as expectativas, tive muitos feedbacks positivos, apesar de que muitas pessoas esperavam de mim algo diferente, e eu entendo, foi um pouco chocante para alguns um cantor de rock lançar uma MPB com uma melodia triste, de fato é um pouco incoerente.


Foi uma apresentação mais intimista. O que te motivou a selecionar um repertório que inclui, entre outros artistas, Djavan e Fagner?

Eu precisava fazer com que o público entrasse em sintonia com a música nova, se eu tocasse meu repertório padrão, quando apresentasse a música “era só de manhã" o choque do estilo seria muito grande, o show estaria em uma vibe, e a música a outra. Por isso decidi relembrar as raízes cantando músicas de artistas que tenham um estilo parecido, a ideia era levar o evento e o lançamento como uma unidade. E foi um acerto muito grande, diversas pessoas elogiaram o repertório, e muitos não conheciam esse meu lado musical, quando comecei toquei muita MPB nos bares.


Também foi apresentado o vídeo oficial da música. Ele foi produzido por sua equipe?

Sim, a ideia do clipe foi minha, e foi gravado pela minha esposa Andressa Bernardo com auxílio do João Luiz. Devido a falta de tempo e recurso fui em busca de ideias fáceis de executar, o intuito era gravar um clipe a “custo zero”, tive a ideia de usar um projetor com imagens que tivessem haver com a música e uma parede branca, gravamos na varanda do estúdio e deu certo.


“Era só de manhã” é uma composição de João Luiz Barbosa. Como você tomou conhecimento desta música composta pelo seu primo?

O João veio no estúdio há uns 2 anos e me contratou pra produzir essa música, gravamos tudo, até a voz, a ideia inicial era gravar outras 3 músicas e transformar em um EP. como o João não tem vontade de ir para os palcos, e sua ideia de gravar era apenas por prazer o projeto ficou engavetado, em determinado momento fiz uma proposta pra ele me passar o direito de gravar a música, e assim fizemos, não alterei nenhum arranjo, gravei a voz, refizemos a masterização da música, até por isso ela tem essa roupagem, a música não foi feita para o meu estilo musical, mas a melodia e harmonia sempre me agradaram muito por isso quis lançar em minha carreira.


Durante o lançamento você mencionou que está trabalhando uma nova música. Ela tem a mesma pegada de “Era só de manhã”?

Estamos trabalhando em uma música nova sim, também de composição do João Luiz, gravamos o videoclipe ao vivo no Réveillon 2025 na Praça Benedito Valadares em Mutum.

A música nova se chama “Ela é linda”, e tem uma estilo musical totalmente diferente da “Era só de manhã” porque como falei anteriormente, a “Era só de manhã” não foi feita pra mim, já a “Ela é linda” eu pude colocar minha identidade, opinar em tudo, e está em um estilo mais pop rock com uma mistura de rock reggae, pegamos referências atuais como a banda Lagum, Forfun e também bandas mais antigos como Charlie Brown Jr, Jota Quest.

 

Fique à vontade para acrescentar algo que você julga necessário e não foi contemplado pelas perguntas.

Quero agradecer a você Cláudio por esse espaço, é sempre muito importante poder compartilhar um pouco mais do nosso trabalho, assim mais pessoas conhecem e nos ajudam nessa caminhada. Agradeço também a todos os leitores do blog, todos que ouviram e gostaram da música “Era só de manhã”, fico imensamente feliz com todo carinho e atenção, Um beijo e abraço a todos.


NOTA DO BLOG: Agradecemos a Lucas Barbosa pela entrevista e que venha mais lançamentos.



ERA SÓ DE MANHÃ

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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

A ARTE COM OS ARES DO CAPARAÓ

 

A ARTE COM OS ARES DO CAPARAÓ

 


Argilano Rodrigues é artista plástico de Iúna-ES. Ele promove o evento BIENAL EXPOART LITERÁRIA ARGILANO ART'S.

A próxima edição será no próximo mês, dia 17. E nesta edição terá a participação do poeta mutuense Cláudio Antonio Mendes com o poema Um baú de histórias, inspirado na sua obra Casarão Rural, Casarão do Café, entre outros escritores e formadores de opinião convidados pelo artista.

Para conhecer um pouco sobre o evento o blog fez uma pequena entrevista com o artista iunense.

 


No dia 17 de setembro deste ano você estará promovendo em Iúna a IV BIENAL EXPOART LITERÁRIA 22. De que se trata este evento?

A BIENAL EXPOR ARTE LITERÁRIA ARGILANO ART'S, é uma exposição de Arte Plástica (óleo sobre tela) que começou despretensiosa e cresceu. Como tenho muitos amigos (as) escritores e outros, não escritores, e sim formadores de opinião, pessoas pensantes ...

Aí tive a ideia de convidá-los para comentar as obras com textos, resenhas, poesias, sonetos, crônicas ... E na abertura da exposição com o sarau poético recital, com todos os participantes. Junção perfeita com arte plástica e a literatura.

 ***

Como surgiu a ideia de unir arte plástica e literatura? Você tem alguma produção literária?

Foi uma ideia despretensiosa, na verdade eu sempre tive muitos amigos da literatura, escritores, poetas.... Talvez seja mais por isso mesmo.

E deu muito certo esse formato.

Mas eu não tenho nenhuma produção literária.

 ***

Qual ou quais outras atividades artísticas você já participou e produziu?

Sobre outras atividades artísticas que já participei, eu tive uma banda de Rock/punkmetal e tocava bateria...

 ***

Como foram as Bienais Expoart Literárias anteriores? Cite fatos que foram significativos para você?

Sempre foram muito boas nos dois sentidos, sempre com um bom público, e o sarau muito emocionante, Tenho planos de lançar um livro das BIENAIS EXPOR ARTE LITERÁRIA ARGILANO ART'S em 2023.

 ***

Na IV BIENAL EXPOART LITERÁRIA ARGILANO ART'S 22 você contará com a participação de um poeta de Mutum, houve participações de poetas mineiros antes?

Sim, sempre tem um poeta de Belo Horizonte.

 ***



O que o público encontrará no evento dia 17 de setembro?

O público que for na exposição BIENAL EXPO ARTE LITERÁRIA ARGILANO ART'S 22, no dia 17 de setembro, encontrará 30 obras a óleo sobre tela que foram produzidas nos anos de 2020, 2021 e 2022.

Não existe um tema específico, A coleção está dívida em:

·       Santos

·       Paisagens

·       Figurativos e outros

E um sarau poético recital maravilhoso que vai emocionar e dialogar com todos no seu íntimo, tanto no passado, presente e futuro.



sábado, 20 de agosto de 2022

DESTINO: A ESCRITA CRIATIVA DE SYLVIA LAIGNIER

 
DESTINO: A ESCRITA CRIATIVA DE SYLVIA LAIGNIER

 

A imersão de Sylvia Laignier no universo do mercado literário com sua obra comercializada em forma digital na Amazon é mais uma evidência de que Mutum é uma terra literária para além de Guimarães Rosa.
 
Neste pequeno bate-papo, a autora de Para onde ir? nos fala do seu primeiro livro da série Universo Segredos para o blog Mutum Cultural.
 
Quando e como surgiu o seu envolvimento com a escrita criativa?
Meu envolvimento com escrita começou na infância, logo que aprendi a escrever. Eu passava muito tempo com a minha avó paterna, enquanto meus pais trabalhavam, consequentemente como ela sempre foi envolta com leitura e escrita, nós duas passávamos horas escrevendo prosas e poesias.
 
E a ideia da série Universo Segredos? Ela veio antes ou depois de Para onde ir?
Esta questão foi engraçado. Quando eu tinha uns 13 anos estava totalmente indignada que os personagens masculinos dos romances que eu lia nos livros não eram muito legais, por exemplo, ciúmes, palavras torpes e etc, eu tinha ficado com raiva e minha amiga apenas disse "se está ruim, faz você algo melhor", meio que eu levei isso ao pé da letra e acabei fazendo um personagem com falhas, mas ainda sim uma ótima pessoa, por isso que o Ismael surgiu.
 
O que o leitor encontrará em Para onde ir?
Uma leitura mais fluída e calma, conflitos familiares, risadas, romance água com açúcar e indícios de amores para toda vida com os meninos.
 
Os quatro personagens principais, Marcos, Hugo, Yuri e Ismael surgiram independentes ou juntos na criação do Romance?
Então, voltando à pergunta, veio primeiro o Ismael. Mas, eu sempre fiquei chateada com o ponto dos protagonistas nunca terem mais de um amigo, por isso veio os outros, cada vez que eu explorava mais a escrita no livro do Ismael as ideias vieram para os dos outros, até montar tudo certinho com o roteiro.

O enredo nos parece ser adaptado em uma cidade grande, como Belo Horizonte.
É sim, adaptado em Belo Horizonte, porque eu sou mineira, escritora nacional e queria reinventar os clichês dos livros, então por que iria seguir aquela risca de se passar em outro país com o Brasil tão bonito para ser explorado?
 
O relançamento será sexta-feira, dia 26 de agosto de 2022. O que te levou a fazer este relançamento?
Foi o meu perfeccionismo. Eu queria fazer tudo certinho, por causa que tive problemas com revisão, arrumei algumas coisas que tive de fazer e deixei a versão ainda mais completa com o epílogo.

***
 
Então temos um destino, a leitura do livro de Sylvia Laignier que está à venda na Amazon: PARA ONDE IR?


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

UM MUTUENSE DE MUITO CORAÇÃO

 
Livro do escritor na Amazon

ENTREVISTA COM JOSÉ ARAUJO DE SOUZA
 
Completando a trilogia de postagens sobre o livro Operação Mutum de José Araujo de Souza, trazemos uma entrevista com o autor, alguém que gosta muito da nossa amada terrinha.
 
José Araujo de Souza nasceu em 29 de Outubro de 1945, Assaraí, pertencente hoje ao município de Pocrane, sendo que quando nasceu, tanto Assaraí como Pocrane eram distritos de Ipanema.
 
Aos dois meses de idade, seus pais Simplício Albano de Souza e Geracy Araujo de Souza mudaram-se de Assaraí para Aimorés, passando por Mutum. Segundo relatos que contaram para o nosso entrevistado, ele ficou em Mutum, por ter adoecido, aos cuidados dos seus avós, Olívio Araujo e Dona Cotinha, até que tivesse condições de voltar para a companhia dos seus pais. O que nunca mais aconteceu. Em Mutum ele seguiu morando até concluir o Segundo Grau. Indo para Belo Horizonte em 1966. Em Mutum ficou conhecido pelo apelido de Buté.
 
Em 2007, José Araujo de Souza sentiu-se honrado em ter Travessia lançado e exposto para vendas ao público no Stand da Oficina de Livros, durante a realização da XIII Bienal do Livro, no Rio de Janeiro.
 
Sua literatura é produzida cotidianamente, não tem um escritor de referência. Suas obras são solos. Já até produziu em outros campos da arte, mas apenas para fins didáticos quando lecionava. Mutum está presente em outros textos além de Operação Mutum como no Poema dedicado à terra do seu Coração
 
MUTUM
 
Há um pedaço de dor
encravado entre as montanhas
desenhadas contra o céu
(ainda será azul?)
e um rio nascendo dos olhos
formando na queda a cachoeira.
(ainda será fria e funda?).
 
Há um começo vermelho de noite
correndo ao encontro do encanto da lua.
(ainda será dos namorados a velha rua?)
 
Há no peito embrutecido uma suave saudade
e um coração ferido comandando o sangue
que flui para o corpo.
 
Lá, por certo, o tempo se incumbiu
de sucumbir tudo.
 
E ninguém mais se lembra de olhar
a montanha encantada e pedir um querer
de madrugada.
 
Nem flutua no rio a escura canoa
e nenhum menino desafia mais o remanso
ao entardecer.
 
Por certo, só existe a saudade que sinto de Mutum.
 
 
ENTREVISTA
(Entremeada com parágrafos de SOLIDOR, de autoria do entrevistado)
 
Qual a sua relação sentimental com Mutum? Você tem parentes aqui?
Eu sempre digo que sou mutuense. Desde que me entendo por gente, sou mutuense. Eu só vivi fora de Mutum, antes de vir para Belo Horizonte, por dois meses após ter nascido em Assaraí. Fui registrado lá. Sou, portanto, mutuense nascido em Assaraí. Digamos que, na dúvida entre o local onde nasci pertencer geograficamente a Ipanema ou a Pocrane, escolhi ser de Mutum, onde sempre vivi.
Tenho em Mutum meu querido irmão Olívio de Souza Araujo, Olivinho. O mais velho dos meus irmãos. Também tenho primos. A família Araujo é muito grande.
 
“Solidor é a solidão nascida de uma dor de não se ter mais. Surgida como por encanto, no final de um sonho, no começo de uma noite de chuva ou, até mesmo, na hora da morte. É a falta permanente ou passageira deixando marcas e maracás em cada batida surda do coração. É o vermelho do sangue correndo pelas veias dilaceradas, num contínuo fluir e refluir, pelo corpo cansado.”
 

Qual a sua formação e atuação profissional?
Minha formação profissional foi toda direcionada para o Magistério. Fiz o Curso Normal em Mutum, no Colégio Normal Dionísio Costa (grafado com i). Fui o primeiro homem a fazer o Curso Normal em Mutum. Eu era o único homem em uma sala de mulheres maravilhosas, a quem devo a conclusão dessa etapa. Sem a ajuda que tive delas, eu não teria conseguido concluir o curso. Fiz o Curso Superior de História na UFMG.  Depois, Pós Graduação em Metodologia do Ensino Superior. E, finalmente, fiz Mestrado em Educação. Lecionei em todos os três níveis de ensino. Primeiro e Segundo Graus, Superior e Pós.
 
“Solidor é fruto da paixão, desespero, vingança e ódio. É resultado de um amor. Um poema inacabado por falta de espaço no papel. Uma canção cantada baixinho, no ouvido direito da amada. É um lamento, um suspiro ou um nome soprado baixinho a se perder no vento. No nada.”

 
Como e quando foi seu interesse pela literatura?
Comecei a ler muito cedo.  Revistas em quadrinhos. Minha mãe era professora, então não faltavam material para leitura. De Monteiro Lobato a Jorge Amado. Na casa dos meus avós morava um médico, Dr. Bião, que me "mandava" sempre ler algumas revistas técnicas variadas, que assinava especialmente uma: Seleções de Raeder's Digest. Tinha de tudo. Contos, poesia, novelas, piadas, artigos científicos, enfim, uma verdadeira enciclopédia. Como era poliglota, o Dr. Bião insistia para que eu lesse algumas de suas revistas em outras línguas. O que eu não conseguia e me frustrava. Não sei, exatamente, quando comecei a escrever mas sei que sempre gostei.
 
“É solidor a saudade de não se estar mais na cidade natal. Ou quando se perde um pedaço da vida na morte de alguém. Quando, de um lugar qualquer distante no tempo, repentinamente, ressurge o cheirinho gostoso de comida caseira, feita pelas mãos da mãe que já não temos mais.”
 
 
Quando surgiu a ideia de escrever Operação Mutum?
A ideia me veio ao ler notícia de que os Estados Unidos assinaram um acordo com a Espanha, assumindo o compromisso de descontaminar a área atingida por bombas deixadas cair por um avião militar, em um acidente aéreo ocorrido em 1966, em Palomares, no sul da Espanha. Cinquenta anos depois, a população ainda continuava sofrendo os riscos de radiação. Imaginei, então, como seria se acontecesse a mesma situação em uma região montanhosa como a de Mutum. E fui criando a história na minha cabeça. Os personagens foram nascendo e o enredo sendo desenvolvido. Usei imagens da minha infância. Quando criança, muitas vezes fiquei olhando para o céu, altas horas da noite, acompanhando o piscar de luzes dos aviões que passavam sobre Mutum, vindo de não sei onde e indo para algum lugar desconhecido. Faziam parte dos mistérios da minha infância. Assim, apenas criei situações que imaginei para dar forma a uma história fantasiosa que já tinha começo meio e fim na minha cabeça.

 
“Solidor é chocolate escaldado em fogão de lenha. Bala de coco redondinha coberta de açúcar. Bola de meia rolando na poeira. Enchente de rio manso. Gabiroba do mato. Manga espada com terebentina na casca. Goiaba vermelha. É tristeza.”
 
 
Você tem outras publicações além de Operação Mutum?
Escrevi e publiquei outros livros. TRAVESSIA; CONSENOR; CANÇÃO PARA JULIANA; PELOS CAMINHOS DO TEU CORPO; DELES E DELAS; DELES; DELAS; MALDÍVIA; CONTOS ERÓTICOS DE QUALIDADE; OPERAÇÃO MUTUM; O LEÃO DE JUDÁ. São contos e poemas, contos eróticos e romances de ficção.
 
“Solidor é boneca de pano, rasgada, deixada num canto de um quarto. É calor de colo. Carinho de mão tocando de leve nos cabelos. Caminho de roça, cheio de mato. Preguiça gostosa de depois do almoço. Brinquedo de infância. É brincar de pique. É balanço. É cobra cega. Casamento de jeca. Pipoca. Balão aceso no céu. Lua cheia. Carnaval de rua. Banco de escola primária. É trança de menina. É Igreja na praça. Refresco de canudinho. Caldo de cana tirado na hora. É barquinho de papel descendo na enxurrada.”
 

Como é a sua rotina de produção literária?
Tenho um computador instalado no meu quarto. Assim, gosto de escrever quando a vontade me pega, sem um horário preestabelecido. Quase sempre, tenho mais de um trabalho começado, inacabado e arquivado à espera de que eu o termine. Não escrevo com um tempo determinado para concluir o que comecei. O certo é que posso acordar no meio da noite e dar sequência a alguma coisa que já comecei a escrever e deixei num arquivo qualquer. Ou posso, simplesmente, começar alguma coisa nova.
 
“Solidor é palavra inventada, que nunca esteve em dicionário. Mas que existe viva dentro de cada um de nós. É a saudade danada de uma coisa que incomoda. Mas que não queremos perder nunca, nunca, nunca..."
 

Fale sobre Travessias e quais são os projetos literários para o futuro?
O Projeto Travessia tem como objetivo distribuir gratuitamente, através das redes sociais, 10.000 (dez mil) exemplares em PDF, dos livros digitais de minha autoria, com versões em Português, Inglês e Espanhol. Esta é uma forma que encontrei de facilitar a vida das pessoas que se encontram em casa, impossibilitadas de manterem convívio social até com parentes mais próximos, por causa do risco de contágio com o COVID-19, essa praga que está dizimando grande parte da população mundial. Procuro deixar com essas pessoas os meus livros, para que possam ocupar um pouco mais do tempo ocioso que terão. Ler é uma boa forma de passar o tempo. Enquanto eu as ajudo, elas, em troca, me fazem mais conhecido.
Estou, no momento, concluindo mais dois livros. Ainda sem títulos. Um de poemas. O outro, de faroeste, uma história envolvendo bandidos e mocinhos no Oeste americano, mais precisamente no Estado de Nevada. Lá pelos idos de mil novecentos e pouco. Já estão bem avançados, mas sem prazo estabelecido para terminar. Vou caminhando, na velocidade que o tempo das histórias exigir.

***

O blog Mutum Cultural agradece ao escritor José Araujo de Souza por nos conceder tão enriquecedora entrevista.


DOIS LIVROS DO AUTOR NA AMAZON



FAZEM PARTE DA TRILOGIA SOBRE
OPERAÇÃO MUTUM
AS POSTAGENS:

sexta-feira, 9 de abril de 2021

TONY MARQUES: DA ARCÁDIA AO MUNDO CONCISO E INFINITO DE BASHÔ

FONTE: https://greciantiga.org/

Segunda-feira o blog Mutum Cultural postou cinco poemas do poeta Tony Marques na nossa série Pentalogia Poética. Ele é mais um mutuense que se encantou com a arte mãe de todas as artes.

Agora trazemos uma entrevista que o poeta nos concedeu falando de si e do seu ofício com os versos. Ele também fala da sua relação com Mutum. 

Esta é a segunda postagem sobre Tony Marques de uma trilogia que concluiremos com seu estilo poético que tanto tem encantado, o Haikai.


 -ENTREVISTA-

Como surgiu seu interesse pela poesia?

Aos 12 anos de idade eu ingressei em um colégio interno em São Mateus-ES (Seminário Diocesano João XXIII) e lá dei início à minha vida de leitor. Meu gosto era mais pelos romances de aventura tipo: Robinson Crusoé (Daniel Defoe) Ilha do Tesouro (Robert Louis Stevenson) e outros. Com o passar do tempo, eu fui lendo mais e mais, me voltei pra literatura brasileira e comecei escrever pequenos poemas de forma despretensiosa. Até que certa vez participei de uma antologia e tive um poema editado, depois o segundo. Gostei, no entanto, parei de participar de antologias e fiquei escrevendo só pra exercitar mesmo, até que surgiram as redes sociais.

 

E sua predileção pelo Haicai?

O Haikai surgiu em minha vida de uma forma muito interessante: Eu estava fazendo meu TCC do Curso de Letras sobre o Arcadismo Brasileiro (Os Sonetos de Cláudio Manoel da Costa) e meu orientador disse que estava escrevendo uma dissertação de Doutorado sobre os Haikais do Paulo Leminski. Perguntei pra ele: O que é Haikai? Ele falou a respeito desse estilo poético japonês e acabei me interessando. Comecei estudar sobre os grandes mestres japoneses: Bashô, Buson, Issa Kobayashi e outros. Nesse meio tempo, surgiu um concurso de Haikais administrado pelo Grupo de Haicais Caminho das Águas de Santos-SP. O tema dos Haikais para o concurso era Quaresmeira. Fiz um Haikai e tamanha foi minha surpresa, quando um belo dia chegou a notificação que eu havia ficado em segundo lugar com o meu Haikai. Em um concurso nacional, o segundo lugar foi uma grande surpresa. A partir de então, além de continuar fazendo pequenos poemas, continuei fazendo Haikais que é um poema que não pode causar dificuldade de entendimento ao leitor e sucinto como eu gosto de fazer. Eu não consigo escrever de forma abstrata, como os grandes poetas.

 

Qual sua relação com Mutum?

Bom, Mutum é minha terra natal e é uma cidade que gosto muito, tenho vários amigos aí. Eu nasci no Distrito de Roseiral e saí de lá muito novo. Com 8 anos de idade, minha família mudou-se pra Barra de São Francisco-ES e por lá fiquei até os 16 anos, quando viemos morar em Belo Horizonte. Passei vários anos sem ir a Mutum, quando fui, já adulto, namorei e casei com uma mutuense, a Ana Maria. A partir de então, eu passei a ir a Mutum todos os meses. Meus sogros eram idosos e tínhamos que estar presentes. Atualmente, não vamos com muita frequência, mas Mutum está sempre presente em nossas vidas e temos um carinho muito grande pela cidade, pelos parentes de minha esposa e nossos amigos. Eu não tenho parentes em Mutum, meu avô era italiano e criou uma família diminuta, na região do Córrego do Vermelho.

 

 

Você tem obras publicadas?

Não, não tenho. Apesar de já ter tido um livro de Haikais engatilhado para ser publicado. Os entendimentos com a editora já estavam bem adiantados, mas aos poucos fui perdendo o incentivo e acabei por cancelar o projeto. Eu ia editar esse livro mais por incentivo de outras pessoas que por interesse próprio. Pra mim, o fato de publicar ou não é só um detalhe. Prefiro as redes sociais, acho mais democrático e mais acessível, qualquer pessoa pode entrar lá e ler meus poemas, cada curtida, cada comentário, cada compartilhamento pra quem escreve nas redes é muito importante. Isso, no entanto, não quer dizer que não acho legal as pessoas que gostam de publicar seus trabalhos. Fazendo uma autocrítica, eu acho minha poesia muito simples. Eu gosto mesmo, como já disse anteriormente, são dos poemas sucintos e de fácil entendimento como os Haikais, por exemplo.

 

Pretende publicar seus poemas?

 Outro dia, uma amiga de São Paulo, a Elke Lubitz, insistiu pra eu dar início a um projeto de edição, mas por hora eu não pretendo. Acredito que mais para o futuro eu até venha a publicar um livro de Haikais. Eu tenho um material bastante extenso e pra você selecionar 50 ou 60 poemas, eu tenho certa dificuldade. Mas não descarto essa possibilidade. Pode acontecer um dia.

 

Você consegue nas redes sociais um alcance considerável de leitores. Como você acha que as redes sociais podem ajudar a divulgar a arte?

Poema "pescado" no instagram do poeta.

Olha, eu vejo as redes sociais como uma grande lata de lixo, onde 90% de seu conteúdo não tem qualquer importância e os outros 10% algo de valor e que faz a diferença (esses 10%, apesar de representar pouco percentualmente, tem um conteúdo enorme). O que precisamos é saber reciclar e tirar o que as redes têm de melhor para nossa formação, para nosso crescimento. Eu não tenho qualquer preconceito dizer que sou um escritor de redes sociais. Costumo brincar que quando comecei escrever nas redes a cada nova postagem eu tinha em média 50 comentários, 80 curtidas e hoje não tenho nem 20% desses números, portanto, estou crescendo igual rabo de cavalo, pra baixo. O que não deixa de ser um crescimento. Na verdade, o fato de você atingir um público maior é muito interessante, você pode dialogar com seu leitor, respondendo os comentários e acaba criando até mesmo uma relação de amizade. Eu já tive oportunidade de encontrar pessoalmente alguns poucos seguidores e foi muito agradável poder conversar com eles. Nas redes sociais, filtrando bem, você encontra trabalhos muito bons.


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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A PERGUNTA QUE TODOS FAZEMOS - PARTE II




Nessa segunda parte da entrevista, o autor do livro O Que Farei Da Minha Vida Ao Sair Daqui? Um Ensaio Sobre Pedagogia Carcerária, que abrilhantará o Café Literário, no próximo sábado, a partir das 08:00 hs, na Biblioteca Municipal, evento promovido pela Secretaria de Cultura de Mutum.
         Sérgio Rodrigues de Souza nos conta sobre a iniciativa de escrever essa obra em que filosofia, antropologia, psicologia social e pedagogia se encontram para analisar o homem em suas prisões a partir da busca de perspectiva para a vida.
         O autor também fala da sua expectativa para o Café Literário quando poderá compartilhar com os participantes, cara a cara, sobre a história do seu livro que traz em seu bojo parte da sua história e da sua concepção de vida.



ENTREVISTA


MUTUM CULTURAL: O seu livro surgiu a partir de uma experiência pedagógica em um ambiente específico. Comente sobre essa prática que te levou à reflexão:

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: No ano de 2008, a Professora Márcia Luzia Pires de Sá, à época Secretária Municipal de Educação de Mutum, junto à Inspetora Meyre Ribeiro, me convidaram para trabalhar, como professor regente de turma, na Unidade Prisional de Mutum.
Na oportunidade, iniciei um trabalho de registro das atividades pedagógicas, de observação-participante, de depoimentos dos detentos [na condição de estudantes], entrevistas, histórias pessoais, coletivas e sobre todo este material, construí uma investigação acadêmico-científica fundamentada no estudo de autores clássicos nos campos da Antropologia, da Psicologia, da Filosofia e da Sociologia.
Em 2014, fui estudar sob a orientação do Professor Dr. Luis Eligio Martelly, em Havana, que é pesquisador na área de educação prisional e a maior autoridade mundial no assunto, tendo criado métodos inéditos de pesquisa neste campo. Na oportunidade, pude conhecer o sistema educacional cubano, o sistema prisional daquele país e assim, elaborar propostas pedagógicas para adolescentes em condições de privação de liberdade.
Em 2016, fui estudar com a eminente Professora Drª. Amelia Haydèe Imbriano, na Universidad Kennedy (Buenos Aires), a mais conceituada cientista internacional em crimes violentos cometidos por crianças e adolescentes, autora de vários clássicos que trazem reflexões profundas sobre o tema. Neste momento, é que elaboro meus estudos sobre a questão da delinquência juvenil como forma de busca por reconhecimento individual e coletivo, mais uma forma estranha de compensar a ausência da autoridade e da presença parental concreta.
Neste mesmo ano (2016), tenho a oportunidade e a honra de orientar um estudante de Mestrado da Universidad Del salvador (Buenos Aires), o Sr. Belarmino Oliveira, que estudava e pesquisava sistema de educação na Penitenciária de Viana (ES). Este representou um momento ímpar, porque era a hora de observar o trabalho sobre prisões a partir de uma lente externa.

MUTUM CULTURAL: Na sua percepção, o que a perda da liberdade pode provocar no homem?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A primeira coisa que a perda de liberdade provoca é um alijamento social, o que por si só, já representa um fardo muito intenso e bruto para um ser humano suportar, porque desde muito cedo, somos educados e educamos para uma vida em comunidade, em companhia de outros e isto, a pertença grupal é um sentimento instintivo mais antigo que o próprio ser humano, porque a estrutura cerebral reptiliana antecede em centenas de milhões de anos à estrutura cortical consciente. Estar afastado da sociedade significa, em termos primitivos, a uma condenação existencial.
Na esteira disto, ocorre a perda de alguns sentimentos, como a perda de empatia, transformando o que antes poderia ser um ser humano em qualquer coisa, chegando ao ponto de ser classificado como monstro, ou seja, uma casaca vazia que não sente nada por ninguém.
A perda de noção de tempo é outra parte do processo, as paredes brancas tendem a ir desgastando o senso de mudança das horas e estações até que não exista mais, no indivíduo, a capacidade de determinação do espaço-tempo pensado de forma abstrata como é possível fazer. Ocorre, ainda perda da racionalidade, alterações psicológicas, estas difíceis de prever, porque cada ser irá reagir de forma singular quando privado de sua condição de liberdade.
O pertencimento social conduz a obediência a leis e costumes que dado o seu constante exercício forma o que se chama de consciência social, princípios morais, obediência civil, civilidade, urbanidade, ética. Quando se afasta o indivíduo deste processo, aos poucos seus sentimentos com relação a estas situações vão desaparecendo, uma vez que não são praticados e o que resta é um ser que segue suas próprias leis, este que Aristóteles (384-322a.n.e. [2007] classifica como não sendo humano, chegando a afirmar que ou é um deus ou é um animal, porque somente os deuses e os animais podem viver sem leis e/ou sozinhos.

MUTUM CULTURAL: O que precisa ser aprimorado no nosso sistema prisional?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A estrutura de cumprimento da sentença, em que a maioria dos condenados fica sem ter o que fazer, perdidos em pensamentos espúrios e vazios. Nisto, surge a necessidade de que se aprimore na questão de proporcionar atividades laborais concretas, destinadas a produzir bens de consumo próprio e que possam gerar divisas para o Estado.
A questão do ensino e das atividades físicas, religiosas, também necessita ser pensadas de forma a que os detentos tenham acompanhamento profissional adequado e isto não se trata de dar a eles, nenhum tipo de privilégio, mas parte da ideia de proporcionar auxílio para que possam ter o mínimo possível de condições de reabilitar-se socialmente.
Quando o sistema deixa o indivíduo entregue à sua própria sorte, crente de que a natureza divina cuida de proteger os homens do mau, direcionando-os para caminhos virtuosos, tem-se a produção de criaturas estranhas e sem medidas que seguirão seus próprios princípios de fé e de verdade.
Atividades laborais irão contribuir para o aperfeiçoamento e mesmo para uma profissionalização do apenado, porque em sua maioria não possuem profissões de ofício, a começar que são detidos em tenra idade; agrega-se a isto, o nosso combalido sistema educacional que, ao estrangular o ensino técnico, entrega para a sociedade, um jovem de 18 anos de idade que não possui uma profissão oficializada, ainda. Dispõe na sociedade um sujeito crítico, mas que não sabe fazer absolutamente nada!



MUTUM CULTURAL: Ao construir sua narrativa, é utilizado a logopeia de Ezra Pound, ou seja, a comparação com narrativas da cultura universal. Dois exemplos são a velha história árabe d’O Gênio Na Garrafa e o Minotauro da mitologia grega. Qual a importância dessas narrativas universais para a compreensão do ser humano na sociedade hoje?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A garrafa representa o que hoje se preconizou chamar de bolha, onde todos nascem, crescem, formam uma personalidade virtual, reproduzem um vazio intelectual e espiritual, tudo isto na ausência mais completa de qualquer relação de empatia, porque não existe contato físico, como se tal coisa fosse transmitir uma doença crônica mortal.
Assim é que, no aniversário dos amigos e mesmo das pessoas mais próximas como marido, esposa, namoradas, filhos, manda-se um emoj de flores, de abraço, de beijo, uma oração [re]copiada de algum site qualquer, tudo isto em nome do tempo, da falta de tempo, etc... Em pouquíssimos anos, todos à volta são estranhos, o que faz com que quando ocorre um atropelamento, todos querem tirar fotos e selfies com a vítima arrebentada, ao invés de chamar a ajuda especializada.
Com o tempo, torna-se avesso ao contato humano, ao ponto de que se alguém vem com a intenção de dar um abraço isto já é interpretado como assédio e um processo judicial ou um empurrão aguarda o indivíduo inocente. Perde-se a humanidade quando se passa muito tempo afastado do contato humano com seres humanos, lidando tão somente com situações mecânicas de relacionamentos.
Com relação ao Minotauro, o labirinto representa esta existência vazia, sem sentido e que não mostra a menor possibilidade de uma fuga em que o ser humano percorre não se sabe que vias, em busca sabe-se lá de quê, sozinho, porque teme procurar ajuda e nisto admitir que está perdido, porque o seu companheiro, mais perdido que ele, procura em si esta condição de força e de coragem. F. Nietzsche tem um aforismo onde diz: “Eu sou o valor que dou a mim mesmo!” E o valor que a igualdade pode auferir ao ser humano é isto: o nada!, a solidão, o vazio, a ausência de sentido completa para si mesmo. A vida e a existência não podem ser reduzidas a um labirinto sem saída, porque o fracasso constante embrutece até o ponto de ver-se entregue a um estado deplorável de psicopatia.

MUTUM CULTURAL: Em que situações da vida atual o ser humano sente-se como encarcerado e não ousa fazer a pergunta que intitula o livro?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: No Século XXI, a todo instante. E tornou-se escravo desta condição porque teme a resposta que virá de si mesmo; ele não sabe o que fazer de sua vida no instante seguinte, dado que a existência e toda a liberdade porque o ser humano lutou desde fins da década de 1960, transformou-o em um autômato, uma criatura anômica, sem saber o que quer da vida, vivendo de acordo com a gíria: seguindo o fluxo.
Para fazer tal pergunta, é preciso ousar e saber que a resposta pode ser um simples não sei e isto não significa estado de decadência, devendo ser tomado como princípio para buscar uma resposta. Em Filosofia, toda grande descoberta parte de uma pergunta, para a qual inicialmente não se tem resposta alguma, às vezes, nada mais que hipóteses, suposições, elucubrações. O valor encontra-se na coragem de se fazer a pergunta e ao deparar-se com uma incerteza ou um vazio, compreender que faz-se necessário preencher estes espaços em branco e isto somente se consegue enfrentando a realidade, por mais cruel que possa parecer e mesmo apresentar-se ao indivíduo.
O fato de evitar fazer tal pergunta representa despreparo para com a existência, medo de ter que enfrentar a vida e fracassar. No entanto, fracasso e sucesso são faces da mesma moeda, produtos da ação. Como diria o Zaratustra de Nietzsche: “Eis a vida! Então, vamos à vida!”    

MUTUM CULTURAL: O que este livro diz para os trabalhadores na educação como professores, especialistas, diretores e serviçais, bem como os gestores, no exercício da sua profissão?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Educação é um compromisso social, não um direito como se quer fazer acreditar; é um dever cívico. A comunidade escolar deve tomar para si a missão de formar um homem em sua integralidade. E isto implica em construir valores concretos, tendo em vista a história daqueles que nos antecederam e a pretensão de construir um Estado melhor, não abstendo da tradição clássica e nem dos princípios humanísticos que permitiriam ao homem resistir a tantas e tantas mudanças radicais.
À escola cabe ensinar aos estudantes como aplicar seu intelecto para o crescimento individual e social e nisto inclui o respeito e a obediência àquilo que mais se possui de valor na sociedade: O Outro. Nietzsche expressa sobre isto o seguinte: “Quando se julga um criminoso, diz-se que ele falhou com a sociedade. engano fatal. Foi a família, a escola, o padre, o pastor, todos que falharam com ele” (2007) e, por consequência, todos falharam ainda com a sociedade que passa a temer este indivíduo e a sofrer em suas mãos.

MUTUM CULTURAL: Quais são as suas expectativas para o Café Literário no dia 15 desse mês, na Biblioteca Municipal?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Minha expectativa é a de que os participantes entendam que o livro é uma expressão de que existe uma necessidade premente de discussão sobre uma problemática e não sobre um problema isolado. Todo o texto traz uma discussão em torno de uma situação factual, presente e crescente e que a não intervenção eleva o custo social da existência, onde todos estão se tornando escravos da própria inépcia social, no que se refere ao assunto posto.

 PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA: MUTUM CULTURAL


                      O blog Mutum Cultural reforça o convite para o Café Literário.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A PERGUNTA QUE TODOS FAZEMOS


ENTREVISTA COM SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA


O convidado para o primeiro Café Literário de 2020 é o Pós-doutorado em Psicologia Social, graduado em Pedagogia e Ciências Sociais, sócio-diretor do Instituto Educacional Athena, Sérgio Rodrigues de Souza.



A sua obra O que farei da minha vida ao sair daqui? Um ensaio sobre pedagogia carcerária, publicado pela editora Appris em 2018, começou a ser gestada a partir de suas anotações em 2008, durante uma aula na Cadeia Pública de Mutum (Centro de Detenção Provisória) cujo tema tornou-se título do livro.

Foram dez anos de amadurecimento. A obra nos faz refletir sobre essa pergunta. Estamos sempre saindo de algum lugar, alguma situação. Planejamos, mas nem sempre o destino nos possibilita realizar o que pautamos para o tempo vindouro.

Vale a pena conhecer essa obra através do Café Literário, dia 15 de fevereiro a partir das 08:00 hs.

Leia a entrevista com o autor:

ENTREVISTA

MUTUM CULTURAL: Na apresentação do livro é dito que uma das finalidades é mudar o EU. Quais as principais lições que o leitor pode tirar ao ler seu livro?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA É muito difícil dizer que mudanças ocorrerão nas estruturas cognitivas e intelectuais de alguém a partir da leitura de um livro e muito mais complexo é determinar uma mudança comportamental. Cada indivíduo representa um mundo e este EU, a que me refiro é a representação de uma conjuntura gnosiológica.
Mas, arrisco-me a apresentar algumas importantes lições que podem ser extraídas:

1) A família, solidamente formada, é tudo para o ser humano;

2) Educação é um princípio social, não um direito subjetivo, onde eu faço uso ou não de acordo com a minha vontade deliberada;

3) A única forma eficiente de combate à delinquência é a prevenção; qualquer outra é mero paliativo, eufemismo. Entre os russos, existe um ditado interessante: ‘o que deixa bêbado é o primeiro gole, não o último’.

4) Assim como Aristóteles (384-322a.C.) já havia afirmado, o ser humano sente ânsia de pertença a um conjunto social e M. Foucault (1926-1984) vem afirmar que o ser humano deseja ser reconhecido e para isto realiza coisas incríveis, indo desde criações úteis à sociedade, inúteis e mesmo nocivas. Nisto, todo o cuidado é pouco para que este desejo pathológico [sentimental profundo] de reconhecimento social não se transforme em um desejo patológico [doentio] de reconhecimento individual, onde os fins passam a justificar os meios.

5) O ser humano necessita de um objetivo na vida que o transcenda. Nossos pais são mais felizes que nós, porque realizaram seus objetivos em grande medida. Seus objetivos eram ter filhos, vê-los crescer, formar uma família unida e se alguém quiser me rebater alegando que muitos construíram grandes coisas, realizaram grandes feitos, tudo isto foi feito em nome da família, em prol dela e em torno da mesma.


MUTUM CULTURAL: Sem fazer juízo sobre sua ideologia política, há uma leitura interessante sobre o tempo em que Adolf Hitler passou encarcerado e a contribuição deste para a sistematização das suas ideias no livro Mein Kampf. Que paralelo você faz sobre o encarceramento vivido por Hitler e o encarceramento vivido aqui no Brasil?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: A título de esclarecimento, minha análise não é nem ideológica e muito menos político-ideológica. Ela é antropológica, fundamentada nos princípios da Epigenética. Eu busco ali analisar o espírito do homem quando sob condições extremas, alijado do contato com a cultura ampla, em que ele se volta para a cultura micro que, para sua maldição, não dá conta de proporcionar-lhe contato com um universo de coisas, sentimentos, frustrações e experiências.
Na vida, não é a experiência que se vive que provoca transformações no espírito. É a forma como se é atravessado por esta experiência que vai determinar as mutações, a curto, médio e longo prazos. Esta observação valeu a Frederico Nietzsche (1844-1900) a afirmação de que nossa personalidade é caracterizada muito mais pelas experiências que não vivemos.
O livro de A. Hitler (1889-1945) é um tratado escrito fundamentado sobre uma narrativa sociológica e antropológica, onde ele analisa o homem alemão de fins do Século XIX e início do Século XX, capturado e imerso em um ambiente completamente diferente do que estava acostumado a viver e a batalhar. No entanto, não eram mais indivíduos dotados de espírito revolucionário, capazes de pegar em armas e derrubar tudo, para começar do zero.
Como nórdicos, estavam anestesiados e alienados, mas bastou que alguém o incite para a destruição que aderiram sem pensar muito, porque o próprio autor já havia percebido este sentimento de indiferença quanto às rebeliões e ao caos, quando o indivíduo é submetido por muito tempo à opressão.
Infelizmente, Hitler utiliza a máquina estatal para fazer despertar este sentimento no povo, o que faz com que a maioria [quase absoluta] enxergue o seu ato como uma política ideológica. Ele fez uso da Psicologia Social, que aliás provou ser conhecedor e exímio manipulador.
O engodo mais intrigante da nossa era é o de crer na ideia ingênua de que o Estado está à margem de nós, o povo, ou que nós, o povo, vivamos à margem dele. É o povo quem dita as regras das políticas de Estado e não este quem dita a forma como o povo irá se comportar. O ethos social é um componente variante do ethos cultural, fundamentado sobre princípios muito sólidos, sobre os quais estão os fundamentos filogenéticos e ontogenéticos.
Quando Hitler é apresentado ao povo alemão como seu chanceler, o grande gênio Sigmund Freud (1856-1939), escreveu um texto alertando para o fato de que dias muito sombrios se abateriam sobre a Alemanha.
Quando Hitler cai preso, em 1923, ele tinha uma única certeza, a de que seria morto, afinal, estava condenado por crime de estado, nisto se transforma na criatura mais perigosa que existe, na concepção de Goethe, aquele que já não tem mais nada a perder. Isto influenciou, sobremaneira, na carga pathológica que deposita em seu livro, descrevendo cada detalhe, cada centímetro quadrado da vida de Viena, o que viveu, o que viu e o que teve que fazer para sobreviver.
Seu livro Mein Kempf (Minha Luta) é o único tratado sociológico, na história da humanidade, que narra a condição de miséria do ser humano que vivia nos guetos e sarjetas, a partir da experiência miserável que esta condição de vida e ausência de qualquer perspectiva de futuro podia proporcionar-lhes. Ele se fundamenta e provoca o seu leitor a compreender a realidade social alemã a partir da falta de uma visão de futuro, a anomia. Por isto que fomenta o espírito nacionalista no povo alemão e todo o discurso de patriotismo alemão puro.

MUTUM CULTURAL: O questionamento feito aos detentos em 2008 “o que farei da minha vida ao sair daqui?” poderia ser feito aos estudantes de nossas escolas, independente do contexto?

SÉRGIO RODRIGUES DE SOUZA: Sem dúvidas. Porque esta pergunta é de caráter retórico e tão comum ao ser humano, até a geração a qual pertence nossos pais e em grau muito diminuto, ela é feita pela geração que tem menos de 40 anos de idade, momento em que acontece um interessante paradoxo onde alguns eruditos sem ter o que fazer da vida, resolveram dizer que as crianças e os jovens deveriam ser livres para pensar suas vidas como bem entendessem. Fizeram todas as besteiras da vida que a sociedade permitiu, mas na hora de pagar a conta, cadê a potência para isto? Foram transformados em homens de palha (parafraseando Nietzsche); mas voltando à questão original, esta foi a pergunta feita pelo Primeiro Homem, Adam, quando recebeu a sua sentença do Pai Criador.
Trata-se da construção de uma visão de futuro, de um ideal, entendendo o ideal não como uma utopia, mas como um fato social ambicionado e pelo qual se luta, na expectativa de o alcançar, de o conquistar e não simplesmente de conseguir.
O estudante deve entender que educação acadêmico-escolar não é um direito que ele assume; trata-se de um dever social, uma responsabilidade que ele assume e que o acompanhará por toda a sua existência, logo, se ele não tem uma visão de futuro é porque a sociedade na qual está inserido, também não possui e o condenou a este vazio existencial.
Sócrates argumentava que a vida desprovida de um profundo exame antropológico não é digna de ser vivida.

CONVITE: CAFÉ LITERÁRIO




SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA